sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

com os dentes cravados na memória


Overdose NU Vermelho


Em 1987 a noite de Campos estremeceu. O Bar Vermelho, de propriedade de Carlos Vasquez era o espaço cultural mais badalado na cidade. Frequentado por artistas de todos os gêneros, boêmios e universitários, encontramos ali espaço ideal para os nossos heppenings.


Overdose NU Vermelho foi uma noite que ficou cravada nos dentes da memória, além de muita poesia grafitada e ao vivo, a noite culminou com o ator João Villani, nu como veio ao mundo sendo pintado na calçada por Genilson Soares e Nilson Siqueira. E depois daquela noite Campos nunca mais foi a mesma


Overdose Nu Vermelho


retesar as cores e os músculos
com os dedos agarrados no pincel
se faltar carne pra roçar os óvulos
a gente jorra tinta no papel


Artur Gomes
FULINAÍMA MultiProjetos
www.goytacity.blogspot.com

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

foto.poesia


Metades

metade do corpo oculta
sob os tecidos que te esconde
a outra metade à flor da pele
pluma em pelos
pétala branca montes claros
lente pulsando sobre um corpo
dentro da luz amanhecendo 
do outro lado do espelho
meu olho gótico TVendo

Artur Gomes
sobre a foto de Mariana Mocaiber

com os dentes cravados na memória

tecidos sobre a terra

Terra,
antes que alguém morra
escrevo prevendo a morte
arriscando a vida
antes que seja tarde
e que a língua
da minha boca
não cubra mais tua ferida

entre/aberto
em teus ofícios
é que meu peito de poeta
sangra ao corte das navalhas
e minha veia mais aberta
é mais um rio que se espalha

amada de muitos sonhos
e pouco sexo
deposito a minha boca no teu cio
e uma semente fértil
nos teus seios como um rio
o que me dói é ter-te
devorada por estranhos olhos
e deter impulsos por fidelidade

ó terra incestuosa
de prazer e gestos
não me prendo ao laço
dos teus comandantes
só me enterro à fundo
nos teus vagabundos
com um prazer de fera
e um punhal de amante

minha terra
é de senzalas tantas
enterra em ti
milhões de outras esperanças
soterra em teus grilhões
a voz que tenta – avança
plantada em ti
como canavial que a foice corta
mas cravado em ti
me ponho a luta
mesmo sabendo – o vão
estreito em cada porta

usina
mói a cana
o caldo e o bagaço
usina
mói o braço
a carne o osso
usina
mói o sangue
a fruta e o caroço
tritura suga torce
dos pés até o pescoço
e do alto da casa grande
os donos do engenho controlam
: o saldo e o lucro

Artur Gomes
FULINAÍMA MultiProjetos
do livro: Suor & Cio 1985

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Recital de Poesia - 16/12 - 19:30h - na ACL


Com Os Dentes  Cravados na m
Memória

Há algum tempo venho escrevendo alguns textos com este  título para contar um pouco da minha trajetória de andanças poéticas p0r  este país afora. Não sei se um dia isto vai se transforma em discurso memorialista, mas pelo menos vai servir para quem lê, entender que poesia se produz com vivências.

Na ACL  Com Os Dentes Cravados na Memória, será um recital de poesia, com um passeio dos anos 80 para cá, com a poesia presente nos livros: Suor & Cio, Couro Cru & Carne Viva, CarNAvalha Gumes, BraziLírica Pereira: A Traição das Metáforas e SagaraNAgens Fulinaímicas.

A idéia de transformar esse passeio poético em recital surge em setembro de 2016 quando em Bento Gonçalves-RS, na abertura do XXIV Congresso Brasileiro de Poesia é anunciado que serei um dos  poetas homenageados em 2017.

Na ACL aceitando o convite do meu grande amigo Hélio de Freitas Coelho, pretendo além de falar meus poemas desse  período, prestar também a aminha homenagem ao meu grande amigo e poeta que partiu para outras esferas do planeta: Ferreira Gullar.

Como há tempos não tenho um encontro com o público de Campos, pretendo também bater um papo, sobre arte e poesia, linguagem,  dentro do que tenho produzido em minhas andanças, onde se inclui também o Audiovisual.





tecidos sobre a terra

Terra,
antes que alguém morra
escrevo prevendo a morte
arriscando a vida
antes que seja tarde
e que a língua
da minha boca
não cubra mais tua ferida

entre/aberto
em teus ofícios
é que meu peito de poeta
sangra ao corte das navalhas
e minha veia mais aberta
é mais um rio que se espalha

amada de muitos sonhos
e pouco sexo
deposito a minha boca no teu cio
e uma semente fértil
nos teus seios como um rio

o que me dói é ter-te
devorada por estranhos olhos
e deter impulsos por fidelidade

ó terra incestuosa
de prazer e gestos
não me prendo ao laço
dos teus comandantes
só me enterro à fundo
nos teus vagabundos
com um prazer de fera
e um punhal de amante

minha terra
é de senzalas tantas
enterra em ti
milhões de outras esperanças
soterra em teus grilhões
a voz que tenta – avança
plantada em ti
como canavial que a foice corta
mas cravado em ti
me ponho a luta
mesmo sabendo – o vão
estreito em cada porta

usina
mói a cana
o caldo e o bagaço


usina
mói o braço
a carne o osso


usina
mói o sangue
a fruta e o caroço


tritura suga torce
dos pés até o pescoço

e do alto da casa grande
os donos do engenho controlam
: o saldo e o lucro



Artur Gomes
FULINAÍMA MultiProjetos

https://www.facebook.com/studiofulinaima/videos/1236814616413456/?hc_ref=PAGES_TIMELINE


do livro: Suor & Cio 1985

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

onde foi parar esta grana meu amor?



Eu só queria saber
onde foi parar essa grana meu amor!
será que viajou para o Japão?
será que navegou pelo vapor?
será que escorregou pelo canal?
será que fizeram dela carnaval?
ou simplesmente evaporou


eu só queria saber
por quê tu é tão cara de pau
ó minha cidade - Meu Amor!
até a filha já aprendeu a encenar
nesse Teatro Enganador - 

domingo, 4 de dezembro de 2016

Suor & Cio




Engenho

minha terra
é
de senzalas tantas
e enterra em ti
milhões de outras esperanças.

soterra em teus grilhões
a voz que tenta - avança
planta em ti
como canavial que a foice corta.

mas cravado em ti
me ponho a luta
mesmo sabendo -  o vão
- estreito em cada porta.

Artur Gomes
in Suor & Cio - 1985

obs.: em 1987 este poema foi publicado na Antologia Carne Viva - a primeira antologia de poesia erótica publicada no Brasil, organizada por Olga Savary.



sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

o observador e a coisa observada

O Observador e a coisa observada

"Meus altares são as montanhas, a terra, o ar, as estrelas, o oceano, tudo isso que provém do grande todo."
Lord Byron

Aos 11 de agosto de 1932, em Melila, nascia no continente africano (Marrocos espanhol) o dramaturgo, romancista, poeta, pinto, fotógrafo, conferencista, enxadrista e teórico do xadrez Fernando Arrabal.  O pai fora, em 1936, preso e condenado a morte pela recusa em tomar parte do golpe militar em seu país e, embora sua pena tenha sido trocada por trinta anos de prisão, depois de transferido para a Cidade Rodrigo, próximo a fronteira portuguesa, para Burgos e, mais adiante, nesta cidade, ao hospital psiquiátrico, em 1942, acabou por desaparecer misteriosamente. Pouco antes, em 1940, Fernando Arrabal vai com a família para Madri e, mais tarde, radica-se em Paris onde até hoje vive e trabalha.
A obra de Arrabal, traduzida na maioria das línguas, e o seu teatro, entre os mais encenados do mundo, conforme seus críticos, é qualificada como exemplar tanto pelo conteúdo quanto pela diversidade, considerando que a mesma se compõem de 6 compêndio de poemas,12 romances, 3 epístolas, mas de 70 peças de teatro, 7 filmes longa-metragens e 3 curtas, uma centena de livros de arte, uma centena de telas pintadas, muitos milhares de fotografias, um milhar de artigos para a imprensa internacional, muitas centenas de conferências nas universidades mais prestigiadas do mundo.

Não fosse o bastante, em 1962, juntamente com seus amigos  Roland Topor (desenhista), Sternberg (escritor) e Alexandro Jodorowsky (encenador apaixonado pelo "happening") fundou o Movimento Pânico que - etimologicamente  tem origem no deus grego Pan, a totalidade. Em seu reencontro com os surrealistas, Arrabal abandona um pouco suas parábolas "infantis" para explorar a veia do fantástico e do ritual.

Compreendendo que as estruturas do diálogo, da ação teatral e do universo têm a mesma forma, para Arrabal o teatro não se resume ao palco, mas ele é tudo isso que advém, onde a ação - por ser a imagem refletida do mundo - não deve ser uma demonstração de maneirismos cênicos. Quando afirma que a crença no ego teatral traz a infelicidade de todos, bem como nega a existência de um fenômeno solitário, Arrabal reitera a idéia de que "o observador e a coisa observada, o espectador e a peça representada, o objeto e o tema formam uma só entidade".

O teatro de Arrabal é chamado de absurdo, mas o absurdo do mundo deste dramaturgo espanhol não nasce do desespero do filósofo em busca de penetrar o segredo da existência. É dizer que esse estado de absurdidade se revela na mirada  dos personagens  que vêem a situação humana com os olhos da simplicidade ou da imediaticidade infantil que não  permite uma maior compreensão da realidade do objeto observado. Também como as crianças, seus personagens são por vezes cruéis, porque não compreenderam ou sequer tentaram compreender a existência de uma lei moral. E, assim como as crianças, eles sofrem a crueldade de um mundo como flagelos incompreensíveis.

Wilson Coêlho.
poeta.  dramaturgo. escritor. tradutor. palestrante. articulista e encenador graduado em filosofia e Mestre em Estudos Linguísticos pela Universidade Federal do Espírito Santo. Doutor em Literatura pela Universidade Federal Fluminense e Auditor Real do Collége de Pataphysique de Paris.


domingo, 13 de novembro de 2016

couro cru & carne viva


eu
poderia abrir teu corpo
com os meus dentes
rasgar panos e sedas
da tua cama arrancar os cobertores
desatar todos os nós
com as unhas arranhar os teus pudores
rasgando as rendas dos lençóis

perpetuar a ferro e fogo
minhas marcas no teu útero
meus desejos imorais
mal/dizendo a hora soberana
com a fora sobre/humana dos mortais
quando vens me oferecer migalha e fruto
como quem dá de comer aos animais

Artur Gomes
foto.poesia

do livro: Couro Cru & Carne Viva

CAMPOS DOS GOYTACAZES

Quem sou eu

Minha foto
meu coração marçal tupã sangra tupi e rock and roll meu sangue tupiniquim em corpo tupinambá samba jongo maculelê maracatu boi bumbá a veia de curumim é coca cola e guaraná