quando piso na Augusta
o poema dá um tapa na cara da Paulista
flutuar na zona do perigo
entre o real e o imaginário:
João Guimarães Rosa Martins Fontes Caio Prado
um bacanal de ruas tortas
eu não sou flor que se cheire
nem mofo de língua morta
o correto deixei na cacomanga
matagal onde nasci
com os seus dentes de concreto
São Paulo é quem me devora
e selvagem devolvo a dentada
na carne da rua aurora
(artur gomes)
1. Mergulhar no texto até que seja possível
compreender todo o seu universo dramático. Perceber as nuances de cada verso ou
de cada palavra, para a partir daí ter condições de criar uma forma adequada de
interpretação através da fala. 2. Respiração: Respirar calmamente para relaxar antes de cada
leitura até sentir o corpo leve, e através da leitura silenciosa, observar
espaços rítmicos do texto para melhor executar a respiração dentro desses
espaços que devem ser explorados intensamente.
3. Memorização: Executar a leitura silenciosa até ter certeza que o
texto está completamente compreendido em todos os seus códigos e significados.
A partir daí, começar a executar uma leitura em voz alta, frente ao espelho de
preferência, procurando verificar se verso por verso já está grudado na ponta
da língua e na pele da memória.
OBS.: Essa Oficina de Poesia Falada pode ser
oferecida a adomicílio, a acompanhada de uma Oficina de Produção de Vídeo, com
tem sido realizada em São Conrado e Copacabana, no Rio de Janeiro, com aulas de
duração mínima de 2 horas. Custo a combinar.
XXI Congresso Brasileiro de Poesia XVIII Mostra Internacional de Poesia Visual De 30/9 a 5/10 - 2013 Bento Gonçalves-RS - Poemas Visuais e Vídeo.Poesia devem ser enviados até 1 de julho para Caixa Postal 45 - Bento Gonçalves-RS - Cep 95700-000
Terra de Santa Cruz
o sonho rola no parque o sangue ralo no tanque nada a ver com tipo dark e muito menos com punk meu vício letal é baiafro] com ódio mortal de yank
Poética 68
era para ser assim como se foice
no papel de seda era língua e sangue
unhas muitos dedos dentes
nos teus céus de boca
era assim como se fosse
meus olhos no cinema
nos teus olhos presos
e o destino do poema teus lábios indefesos
Poética 69
jéssica assim como se fosse uma palavra léxica em minha língua acesa dentro da noite - lua fosse qualquer esquina livre por estar na sua fosse uma travessa ou rua em que estando solta me trouxesse a boca tranquilamente nua com toda delicadeza
Poética 70
beijo tua língua de fogo
pimenta em minha boca - o jogo
que me propor eu topo
beber teu copo
comer da tua comida
encarar de frente
tua porta de entrada
e se for preciso a janela de saída
Poética 71 a língua que passeia os céus da tua boca medusa - ou mar de dedos mesmo essa linguagem fosse então secreta metáfora tenho e não é segredo
1. Mergulhar no texto até que seja possível compreender todo o seu universo dramático. Perceber as nuances de cada verso ou de cada palavra, para a partir daí ter condições de criar uma forma adequada de interpretação através da fala.
2. Respiração: Respirar calmamente para relaxar antes de cada leitura até sentir o corpo leve, e através da leitura silenciosa, observar espaços rítmicos do texto para melhor executar a respiração dentro desses espaços que devem ser explorados intensamente.
3. Memorização: Executar a leitura silenciosa até ter certeza que o texto está completamente compreendido em todos os seus códigos e significados. A partir daí, começar a executar uma leitura em voz alta, frente ao espelho de preferência, procurando verificar se verso por verso já está grudado na ponta da língua e na pele da memória.
OBS.: Essa Oficina de Poesia Falada pode ser oferecida a adomicílio, a acompanhada de uma Oficina de Produção de Vídeo, com tem sido realizada em São Conrado e Copacabana, no Rio de Janeiro, com aulas de duração mínima de 2 horas. Custo a combinar.
Virada Cultural Paulista Sesc São Carlos – Dia 25 maio – 2013 14h – Oficina de Poesia Falada – Direção: Artur Gomes 21h – Artur Gomes - Poesia In Concert seguido de Bate Papo com o Coletivo Topamos Ler
Bolero Blue
beber desse conhaque em tua boca para matar a febre nas entranhas entre os dentes indecente é a forma que te bebo como ou calo e se não falo quando quero na balada ou no bolero não é por falta de desejo é que a fome desse beijo furta qualquer outra palavra presa como caça indefesa dentro da carne que não sai.
(escrito numa madrugada boêmia de 2002 em Bento Gonçalves depois da noite de Abertura da 10ª Edição do Congresso Brasileiro de Poeisa, em cia da musa que o inspirou, este poema gravado poesteriormente na mesma cidade de Bento Gonçalves-RS pode ser visto e ovido na voz do seu próprio autor no Museu da Língua Portuguesa - Estação da Luz - São Paulo)
Dia 18 maio - 2013 das 8 às 12h Local: Espaço da Ciência - Balneário de Atafona Projeto de Pesquisa/FAPERJ Juventude e Desenvolvimento no Norte Fluminense: um estudo sobre os impactos do empreendimento do Porto do Açu Projeto de Extensão/ UENF Do ponto de vista dos jovens: a cidadania e o modo de vida em São João da Barra e Programa Jovem Cientista do Nosso Estado/FAPERJ
14h – Oficina de Poesia Falada – Direção: Artur Gomes
21h – Artur Gomes - Poesia In Concert seguido de
Bate Papo com o Coletivo Topamos Ler
Poética 67
a dor de não ter não tenho ela foi embora faz anos 20 de fevereiro de mil quinhentos e vinte alguns milênios de luta por muitos séculos inglória meu barco chegou de viagem em algum canto do cais amor pra mim tanto faz samba tanto bolero blues já vi alguns olhos azuis com fogo da cor pimenta se eu te contar minha história se não chora não aguenta não sou cavalo de troia não sou cavalo de pano já me larguei e faz tempo atrás de um sonho que tenho de me engravidar de LUAna nem vou te dizer de onde venho
1 - Performance
com poesia de Caetano Veloso, Zeca
Baleiro, Ademir Assunção, Ferreira
Gullar, Torquato Neto, Augusto de Campos, Paulo Leminski e Artur Gomes
com
Artur Gomes, May Pasquetti, Alice Souto e Nathalia Colon
2 - Oficina
de Poesia Falada e Cine Vídeo Poesia
3 -
Mostra Cine Vídeo Poesia
A poesia tridimensional de Artur
Gomes
Conheci a poesia de Artur Gomes nos
livros na década de 90: uma poesia forte, expressiva, cortante. Mas rapidamente
fui apresentada a outras formas de representação da sua expressão
poética. A poesia visual, a poesia
falada, o teatro e, depois a vídeo-poesia. É isso, a poesia em Artur Gomes saiu dos plano do papel e ganhou a terceira
dimensão, ganhou voz, forma e movimento, envolvendo os espectadores
com a palavra e seu corpo em movimento. Palavra que tem sonoridade, tempo e
espaço, corpo e cena.
Silvia Helena Passarelli, doutora em
Estruturas Ambientais Urbanas (USP), professora da UFABC
UAUUU!!!
Você, poeta Artur Gomes Gumes, da palavra que se esvai em versos, é um
magnífico e exuberante intérprete por excelência, que é aquele por meio do qual
ela adquire alma, espírito e humanidade, além de adquirir também voz e ritmo
próprios... Bravo! E muito obrigado por compartilhar conosco algo assim tão
soberba, apolínea e dionisiacamente inspirado, embriagante e inspirador...
José
Lindomar Cabral da Costa
Natal-RN
22 Abril - 2013
Janelas Abertas nº 2
sim. Eu
poderia abrir as portas que dão pra dentro
percorrer
correndo corredores em silêncio
perder
as paredes aparentes do edifício
penetrar
os labirintos os labirintos d labirintos
dentro
do apartamento
sim. eu
poderia procurar por dentro a casa
andar
uma por uma as sete moradas
na sala
receber o beijo frio em minha boca
beijo
de uma deusa morta
deus
morto fêmea de língua gelada
língua
gelada como nada
sim. eu
poderia em cada quarto rever a mobília
em cada
um matar um membro da família
até que
a plenitude a morte coincidisse um dia
de
qualquer jeito
mas eu
prefiro abrir as janelas
pra que
entrem todos os insetos (caetano veloso)
Líricas
é mais
fácil cultuar os mortos que os vivos
mais
fácil viver de sombras que de sóis
é mais
fácil mimeografar o passado
que
imprimir o futuro
não
quero ser triste
como um
poeta que envelhece
lendo
Maiakovski na loja de conveniência
não
quero ser alegre
como um
cão que sai a passear
com o
seu dono alegre sob o sol de domingo
nem
quero ser estanque
como
quem constrói estradas e não anda
quero
no escuro
como um
cego tatear estrelas distraídas
amoras
silvestres no passeio público
amores
secretos debaixo dos guarda-chuvas
tempestades
que não param
para
raios quem não tem mesmo que não vem o trem
não
posso parar
vejo o
mundo passar
como uma escola de samba que atravessa
pergunto
onde estão teus tamborins
sentado
na porta de minha casa
a mesma
e única casa
a casa
onde eu sempre morei (zeca baleiro)
Você só
pensa em grana
você só
pensa em grana meu amor
você só
quer saber quanto custou a minha roupa
custou
a minha roupa
você só
quer saber quando é que eu vou
trocar
meu carro novo por um outro carro novo
um
outro carro novo meu amor
você
rasga os poemas que te dou
mas
nunca vi você rasgar dinheiro
você
vai me jurar eterno amor
se um
dia eu comprar o mundo inteiro
quando
eu nasci um anjo só bashô
falou
que eu seria um executivo
e desde
então eu vivo com o meu
banjo
executando os rocks do meu livro
pisando
em falso com meus panos quentes
enquanto
você ri no seu conforto
enquanto
você me fala entre dentes
poeta
bom meu bem poeta morto (zeca baleiro)
Orfeu
nos quintos dos infernos
pra
saber quem eu sou
preciso
descer até o inferno
lá
encontro o Homem do Nariz de Ferro
o mais
tenebroso dos internos
jogo
pôquer com o rei das profundezas
e com o
escroque especialista em safadezas
vejo o
velhaco encurralando a vil marmota
e o
desespero do banqueiro em bancarrota
lá eu
vejo a queda do império de ilusão
quem
banca esperto logo sai sem um tostão
e
quando volto do inferno, quase em farrapos
sou
invencível, sou fogo sobre a relva
eu sou
o matrimônio da luz e da treva
eu sou
o barco e o barqueiro
o alvo,
a flecha e o arqueiro
eu sou
a mandíbulado tubarão
e o
grito de dor do sufista
a
mentira na manchete de jornal
e a
bomba do atentado terrorista
eu sou
a faca que atravessa
o peito
do político traidor
e as
ruínas queimadas do templo
do
vigarista mercador
eu sou
poeta e sigo em frente
em
linhas tortas
eu não
lido com palavras mortas ( ademir assunção)
O Coisa
Ruim
me
querem manso cordeiro
imaculado
sangrado
no festim dos canibais
me
querem escravo ordeiro serviçal
salário
apertado no bolso
cego
mudo e boçal
me
querem rato acuado
rabo
entre as pernas
medroso
um verme pegajoso
mas eu
sou osso duro de roer
caroço
faca no pescoço
meremoto
tufão furacão
mas eu
sou cão
ladro
mordo arreganho os dentes
insito
a revolta dos deuses
toco
fogo na cidade
qual
nero
devasto
o lero lero
entro
em campo desempato
eu sou
o que sangra
um
poeta nato (ademir assunção)
Não Há
Vagas
o preço
do feijão
não
cabe no poema
o preço
do arroz
não
cabe no poema
não
cabem no poema
o gaz a
luz o telefone
a
sonegação do leite da carne
do
açúcar e do pão
o
funcionário público não cabe no poema
com sua
vida de fome
sua
vida fechada em arquivos
bem
como não cabe no poema
o
operário que esmerilha seu dia
de aço
e carvão nas oficinas escuras
o
poemas senhores está fechado
Não Há
Vagas
só cabe
no poema
o homem
sem estômago
a
mulher de nuvens
a fruta
sem preço
o poema
senhores:
não
fede bem cheira (ferreira gullar)
lets play that´s
quando nasci um anjo torto veio ler a minha mão não era um anjo barroco era um anjo louco torto com asas de avião e eis o que o anjo me disse apertando a minha mão com um sorriso entre os dentes vá bicho desafinar o coro dos contentes
agora não se fala nada agora não se fala mais toda palavra guarda uma cilada e tudo é transparente em cada forma
você não precisa me dizer o número do mundo desse mundo nem precisa me mostrar a outra face face ao fim de tudo
só precisa me dizer o nome da república dos fundos o sim do fim e o tem do tempo vindo
Dia D
desde que eu saí de casa trouxe a viagem de volta cravada na minha mão enterrada no meu umbigo dentro fora assim comigo minha própria condução
todo dia é dia dela pode ser pode não ser abro a porta ou a janela todo dia é dia D
há urubus nos telhados a carne seca é servida um escorpião encravado na sua própria ferida não escapa só escapo pela porta de saída
todo dia mais um dia de amar-te a morte morrer todo do mais um dia menos dia dia D
Literato Cantabile
agora não se fala nada agora não se fala mais toda palavra guarda uma cilada e tudo é transparente em cada forma
qualquer palavra é um gesto e em sua orla os pássaros de sempre cantam nos hospícios.
você não precisa me dizer o número do mundo desse mundo nem precisa me mostrar a outra face face ao fim de tudo
só precisa me dizer o nome da república dos fundos o sim do fim e o tem do tempo vindo
Andar Andei não é o meu país é uma sombra que pende concreta do meu nariz em linha reta não é minha cidade é um sistema que invento me transforma e que acrescento à minha idade nem é o nosso amor é a memória que suja a história que enferruja o que passou não é você nem sou mais eu adeus meu bem (adeus adeus) você mudou mudei também adeus amor adeus e vem
Cogito
eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora
eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim. (torquato neto)
Distraídos Venceremos
todo bairro um louco
que o bairro o trata bem
só falta mais um pouco
para eu ser tratado também
um dia desses quero ser um grande poeta inglês do século passado dizer ó céu ó mar ó clã ó destino lutar na índia em 1866 e sumir num naufrágio clandestino
bom dia poetas velhos
me deixem na boca
o gosto de versos
tão fortes que não farei
dia virá que vos saiba
tão bem que os cite
como quem tê-los
um tanto feitos também
acredite
entre a dívida externa
e a dúvida interna
meu coração comercial
alterna
quando olho nos olhos
sei quando uma pessoa
está por dentro
ou está por fora
quem está por fora
não sustenta um olhar
que demora
diante do meu centro
este poema me olha ali se Alice ali se visse
quando Alice viu e não disse
se ali Alice dissesse
quanta palavra veio
e não desce
ali bem ali
dentro da Alice
só Alice com Alice
ali se parece (paulo leminski)
SagaraNagens Fulinaímicas
1.
guima
meu mestre guima
em mil perdões
eu vos peço
por esta obra encarnada
na carne cabra da peste
da hygia ferreira bem casta
aqui nas bandas do leste
a fome de carne é madrasta
ave
palavra profana
cabala que vos fazia
veredas em mais sagaranas
a morte em vidas severinas
tal qual antropofagia
teu grande serTão vou cumer
nem joão
cabral severino
nem virgulino de matraca
nem meu padrinho de pia
me ensinou usar faca
ou da palavra o fazer
a
ferramenta que afino
roubei do meste drummundo
que o diabo giramundo
é o narciso do meu Ser
2.
Terra,
antes que alguém morra
escrevo prevendo a morte
arriscando a vida
antes que seja tarde
e que a língua
da minha boca
não cubra mais tua ferida
entre/aberto
em teus ofícios
é que meu peito de poeta
sangra ao corte das navalhas
e minha veia mais aberta
é mais um rio que se espalha
amada de muitos sonhos
e pouco sexo
deposito a minha boca no teu cio
e uma semente fértil
nos teus seios como um rio
o que me dói é ter-te
devorada por estranhos olhos
e deter impulsos por fidelidade
ó terra incestuosa
de prazer e gestos
não me prendo ao laço
dos teus comandantes
só me enterro à fundo
nos teus vagabundos
com um prazer de fera
e um punhal de amante
minha terra
é de senzalas tantas
enterra em ti
milhões de outras esperanças
soterra em teus grilhões
a voz que tenta – avança
plantada em ti
como canavial que a foice corta
mas cravado em ti
me ponho a luta
mesmo sabendo – o vão
estreito em cada porta
usina
mói a cana
o caldo e o bagaço
usina
mói o braço
a carne o osso
usina
mói o sangue
a fruta e o caroço
tritura suga torce
dos pés até o pescoço
e do alto da casa grande
os donos do engenho controlam
: o saldo e o lucro
2.
ainda que fosse viagem de metrô ou fantasia e o assunto que eu mais queria fosse o que não dissesse e o mar apenas trouxesse gaivotas sobre os cabelos vento sol maresia e o líquido que não bebemos fosse conhac ou cerveja mesmo assim que a vida seja entre o que os pelos lateja o que a tua boca não fala o que a tua língua não prova e a prova das dezessete te levasse mais cedo inda assim não tenha medo a palavra entre meus dedos é o que ainda não disse miragem essa coisa nova agora revisitada naquela hora marcada do encontro que não tivemos
3.
essa estrada que vai dar no mar dos teus mistérios ou essa estrada que vai dar no mar dos teus silêncios ou apenas o caminho para o mar na coluna vertebral dos teus suplícios ou o poema puro ofício de te oferecer amor, meu vício e te querer estrada. Sim
4.
eu poderia abrir teu corpo com os meus dentes rasgar panos e sedas
da tua cama arrancar os cobertores desatar todos os nós
com as unhas arranhar os teus pudores rasgando as rendas dos lençóis
perpetuar a ferro e fogo minhas marcas no teu útero meus desejos imorais
mal/dizendo a hora soberana com a força sobre/humana dos mortais
quando vens me oferecer migalha e fruto como quem dá de comer aos animais
5.
silvinha. azul são os teus olhos
a cor dos pelos não conheço
teus seios ainda não toquei
dracena é uma terra roxa
nave extra terrena
que humanos não decifraram
pequena vagina virgem
onde os dedos ainda não entraram
e os cachos de uvas
apodrecem nos teus dentes
com um cheiro d leite ardente
esguichando na distância
6.
nossas palavras escorrem pelo escorrer dos anos estradas virtuais fossem algaravias nosso desejo que não se concreta
e eu tenho a fome entre os dedos a sede entre os dentes e a língua sobre a escrita que ainda não fizemos
e o que brota desse amor latente se o desejo é tua boca no lençol dos dias?
7.
fosse quântico esse dia calmo claro intenso inteiro 20 de fevereiro sendo assim esperaria
mesmo que em meio a tarde TROVOADAS tempestades insanidades guerras frias iniqüidades angústias agonia mesmo assim esperaria
20 horas 20 noites 20 anos 20 dias
até quando esperaria?
até que alguém percebesse que mesmo matando o amor o amor não morreria
8.
queimando em Mar de Fogo me
Registro lá no fundo do teu íntimo bem no branco do meu nervo brota uma onde de sal e líquido procurando a porta do teu cais
teu nome já estava cravado nos meus dentes desde quando Sísifo olhava no espelho primeiro como Mar de Fogo registro vivo das primeiras Eras
segundo como Flor de Lótus cravado na pele da flor primavera logo depois gravidez e parto permitindo o Logus quando o amor quisera
9.
a face oculta da maçã duas partes que se abrem pêssego
campo de girassóis teus pelos alvoroçados sob o sol de Amsterdã
enquanto isso em teus mamilos penso o que ainda não comi desta maçã
10.
não sou iluminista nem
pretender eu quero o cravo e a rosa cumer o verso e a prosa devorar a lírica a métrica a carne da musa seja branca negra amarela vermelha verde ou cafuza
eu sou do mato curupira carrapato sou da febre sou dos ossos sou da Lira do Delírio São Virgílio é o meu sócio
Pernambuco Amaralina vida breve ou sempre vida/severina sendo mulher ou só menina que sendo santa prostituta ou cafetina devorar é minha sina e profanar é o meu negócio
11.
beber desse conhac em tua boca para matar a febre nas entranhas entredentes
indecente é uma forma que te
como bebo ou calo
e se não falo quando quero na balada ou no bolero não é por falta de desejo
é que a fome desse beijo furta outra qualquer palavra presa como caça indefesa dentro da carne que não sai
12.
por enquanto vou te amar assim em segredo como se o sagrado fosse o maior dos pecados originais
e minha língua fosse só furor dos Canibais
e essa lua mansa fosse faca a afiar os versos que inda não fiz e as brigas de amor que nunca quis
mesmo quando o projeto aponta outra direção embaixo do nariz e é mais concreto que a argamassa do abstrato
por enquanto vou te amar assim admirando teu retrato enquanto penso minha idade e o que trago da cidade embaixo as solas dos sapatos
o que trago embaixo as solas dos sapatos é fato bagana acesa sobra do
cigarro é sarro dentro do carro ainda ouço Jimmi Hendrix quando quero dancei bolero sampleAndo rock and roll
prá colher lírios há que se por o pé na lama a seda pura foto-síntese do papel
tem Flor de Lótus nos bordéis Copacabana procuro um mix da guitarra de Santana com os espinhos da Rosa de Noel
13.
por quê trancar as portas tentar proibir as entradas se já habito os teus cinco sentidos e as janelas estão escancaradas ?
um beija flor risca no espaço algumas letras de um alfabeto grego signo de comunicação indecifrável eu tenho fome de terra e esse asfalto sob a sola dos meus pés agulha nos meus dedos
quando piso na Augusta o poema dá um tapa na cara da Paulista flutuar na zona do perigo entre o real e o imaginário João Guimarães Rosa Caio Prado Martins Fontes um bacanal de ruas tortas
eu não sou flor que se cheire nem mofo de língua morta o correto deixei na cacomanga matagal onde nasci
com os seus dentes de concreto São Paulo é quem me devora e selvagem devolvo a dentada na carne da rua Aurora
14.
moro no teu mato dentro não gosto de estar por fora tudo que me pintar eu invento como o beijo no teu corpo agora
desejo-te pelo menos enquanto resta partícula mínima micro solar floresta sendo animal da Mata Atlântica quântico amor ou meta física tudo o que em mim não há respostas
metáfora d'alquimim fugaz Brazílica beijo-te a carne que te cobre os ossos pele por pele pelas tuas costas
os bichos amam em comunhão na mata como se fosse aquela hora exata em que despes de mim o ser humano do corpo rasgamos todo pano e como um deus pagão pensamos sexo.
15.
por onde quer que eu te
cantasse devorasse amasse ou comesse não bastaria o poema por onde então começasse Jura Secreta que fosse palavra indiscreta escrevesse
meus dentes em teu corpo deixasse a língua onde quer que lambesse
não bastariam meus dedos em riste lavrando a carne onde berras se queimas no inferno de Dante
e não sabes ver que o amante é o SER transpirado da Terra
16.
de Almada vou de atravessar o
Tejo barco à vela Portugal afora em Lisboa vou compor um fado e cantar no Porto feito um blues rasgado de amor pela senhora que me espera em paz
e todo vinho que eu beber agora será como beijo que eu guardei inteiro como um marinheiro que retorna ao cais
17.
com os dentes cravados na memória soletro teu nome: C a b o F r i o
barco bêbado naufragado fora do teu cais
caminho marítimo por onde talvez já passou meu pai
18.
devemos não ter pressa a lâmina acesa sob o esterco de Vênus onde me perco mais me encontro menos
de tudo o que não sei só fere mais quem menos sabe sabre de mim baioneta estética cortando os versos do teu descalabro
visto uma vaca triste como a tua cara estrela cão gatilho morro: a poesia é o salto de um vara
disse-me uma vez só quem não me disse ferve o olho do tigre enquanto plasma letal a veia no líquido do além cavalo máquina meu coração quando engatilho
devemos não ter pressa a lâmina acesa sob os demônios de Eros onde minto mais porque não veros
fisto uma festa mais que tua vera cadela pão meu filho forro: a poesia é o auto de uma fera
devemos não ter pressa a lâmina acesa sob os panos quem incesta ? perfume o odor final do melodrama
sobras de mim papel e resma impressão letal dos meus dedos imprensados misto uma merda amais que tua garra panela estrada grão socorro: a poesia é o fausto de uma farra
19.
de Dante a Chico Buarque todos os poetas já cantaram suas musas
Beatriz são muitas Beatriz são quantas Beatriz são todas Beatriz são tantas
algumas delas na certa também já foram cantadas por este poeta insano e torto pra lhes trazer o desconforto do amor quando bandido
Beatriz são nomes mas este de quem vos falo não revelo o sobrenome
está no filme sagrado na pele do acetato na memória do retrato Beatriz no último ato da Divina Comédia Humana quando deita em minha cama e come do fruto proibido
20.
o amor não é apenas um nome que anda por sobre a pele um dia falo letra por letra no outro calo fome por fome é que a pele do teu nome consome a flor da minha pele
cravado espinho na chaga como marca cicatriz eu sou ator ela esfinge: Clarice/Beatriz:
assim vivemos cantando fingindo que somos decentes para esconder o sagrado em nossos profanos segredos se um dia falta coragem a noite sobra do medo
é que na sombra da tatuagem sinal enfim permanente ficou pregando uma peça em nosso passado presente
o nome tem seus mistérios que se escondem sob panos o sol é claro quando não chove o sal é bom quando de leve para adoçar desenganos na língua na boca na neve
o mar que vai e vem não tem volta o amor é a coisa mais torta que mora lá dentro de mim teu céu da boca é a porta onde o poema não tem fim
21.
por que te amo e amor não tem pele nome ou sobrenome não adianta chamar que ele não vem quando se quer porque tem seus próprios códigos e segredos mas não tenha medo pode sangrar pode doer e ferir fundo mas é razão de estar no mundo nem que seja por segundo por um beijo mesmo breve por que te amo no sol no sal no mar na neve
22.
eu sou drummundo e me confundo na matéria amorosa posso estar na fina flor da juventude ou atitude de uma rima primorosa
e até na pele/pedra quando me invoco e me desbundo baratino e então provoco um barafundo Cabralino
e meto letra no meu verso estando prosa e vou pro fundo do mais fundo o mais profundo mineral Guimarães Rosa
23.
o rio com seus mistérios molha meu cio em silêncio desejo o que nos separa a boca em quantos minutos as flores soltas na fala o pó dos ossos dos anos
você me diz não ter pressa seus olhos fogo na sala o beijo um lance de dados cuidado cuidado cuidado que sou um anjo de fadas não beije assim meus segredos
meus olhos faróis nos riachos meus braços dois afluentes pedaços do corpo do rio meus seios ilhas caladas das chamas não conhece o pavio
se você me traz para o cio assim que o sexo aflora esta palavra apavora o beijo dado mais cedo quebra meu ser no espelho meu cerne é carne de vidro na profissão dos enredos quanto mais água me sinto presa ao lençol dos seus dedos
o rio retrata meu centro na solidão de mim mesma segundo a segundo nas águas lá onde o sol é vazante lá onde a lua é enchente lá onde o rio é estrada
onde coloca seus versos me encontro peixe e mais nada
24.
vasa sob meus pés um Rio das
Ostras as minhas mãos em conchas passeiam o mangue dos teus seios e provocam o fluxo do teu sangue
os caranguejos olham admirados a volúpia dos teus cios quando me entregas o que traz por entre as praias e permites desatar todos os nós do teu umbigo
transbordando mar de búzios oceanos - atlântico pulsar entre dois corpos que se descobrem peixes - e mergulham profundezas qualquer que seja a hora em que se beijam num pontal em comunhão total com a natureza
25.
Cezane não pintava flores montado em seu cavalo alado despeja cores no corpo da mulher amada
com os pincéis encravados entre as coxas transformou Hollandas em quintais de vento
reINventou o tempo na hora de pintar
26.
a lavra da palavra quero quando for pluma mesmo sendo espora
felicidade uma palavra onde a lavra explora se é saudade dói mas não demora e sendo fauna linda como a Flora lua Luanda vem não vá embora
se for poema fogo do desejo quando for beijo que seja como agora
a lavra da palavra quero seja pele pluma onde Mayara bruma já me diz espero
saliva na palavra espuma onde tua lavra é uma elétrica pulsação de Eros
a dança do teu corpo vero onde tu alma luna e o meu corpo empluma valsa por Laguna em beijos e boleros
27.
te beijo vestida de nua somente a lua te espelha nesta lagoa vermelha Porto Alegre cais do porto barcos navios no teu corpo os peixes brincam no teu cio nus teus seios minhas mãos as rendas finas que vestias sobre os teus pêlos ficção
todos os laços dos tecidos e àquela cor do teu vestido a pura pele agora é roupa e o baton da tua boca o sabor da tua língua tudo antes só promessa agora hóstia entre os meus dentes
e para espanto dos decentes te levo ao ato consagrado se te despir for só pecado é só pecar que me interessa
28.
amei uma mulher que não era mas era como se fosse como se fosse terra como se fosse água como se fosse fogo como se fosse ar como se fosse mata como se fosse mar como se fosse céu como se fosse chuva como se fosse chão
não era uma vera ficher mas era como se fosse não era a débora secco mas era como se fosse nem carolina dickman mas era como se fosse não era nicole kidman mas era como se fosse nem marieta severo mas era como se fosse
não era uma imperatriz mas o nosso castelo de areia era como se fosse Minas do Rei Salomão
amei esta mulher feliz que era como se fosse atriz de televisão
29.
quero dizer que ainda arde tua manhã em minha tarde a tua noite no meu dia tudo em nós que já foi feito com prazer ainda faria
quero dizer que ainda é cedo ainda tenho um samba/enredo tudo em nós é carnaval é só vestir a fantasia
quero ser teu mestre sala e você porta/bandeira quando chegar na quarta feira a gente inventa outra fulia
30.
fosse esta menina Monalisa ou se não fosse apenas brisa diante da menina dos meus olhos com esse mar azul nos olhos teus
não sei se MichelÂngelo Da Vinci Dalí ou Portinari te anteviram no instante maior da criação pintura de um arquiteto grego quem sabe até filha de Zeus
e eu Narciso amante dos espelhos procuro um espelho em minha face para ver se os teus olhos já estão dentro dos meus
31.
eu te desejo flores lírios
brancos margaridas girassóis rosas vermelhas e tudo quanto pétala asas estrelas borboletas alecrim bem-me-quer e alfazema
eu te desejo emblema deste poema desvairado com teu cheiro teu perfume teu sabor teu suor tua doçura
e na mais santa loucura declarar-te amor até os ossos
eu te desejo e posso : palavrArte até a morte enquanto a vida nos procura
32.
o tecido do amor já esgarçamos em quantos outubros nos gozamos agora que palavro itaocaras e persigo outras ilhas na carne crua do teu corpo amanheço alfabeto grafitemas
quantas marés endoidecemos e aramaico permaneço doido e lírico em tudo mais que me negasse flor de lótus flor de cactos flor de lírios ou mesmo sexo sendo flor ou faca fosse Hilda Hilst quando então se me amasse
ardendo em nós salgado mar e Olga risse olhando em nós flechas de fogo se existisse por onde quer que eu te cantasse ou amavisse
33.
fosse o que eu quisesse apenas um beijo roubado em tua boca dentro do poema nada cabe nem o que sei nem o que não se sabe
e o que não soubesse do que foi escrito está cravado em nós como cicatriz no corte entre uma palavra e outra do que não dissesse
34.
não fosse o teu amor o meu conforto e eu teu anjo torto como seria se a jura secreta não fosse mais que um poema e se eu não te amasse como Glauber no cinema o que tenho aqui no corpo em transe: a quem daria?
35.
como alcançá-la plena no impulso onde universo pulsa no poema onde estico plumo onde o nervo da palavra cresce onde a linha que separa a pele é o tecido que o teu corpo veste
como alcançá-la pluma nessa teia que aranha tece entre um beijo outro no mamilo onde aquilo que a pele em plumo rompe a linha do sentido e cresce onde o nervo da palavra sobe o tecido do teu corpo desce onde a teia que o alcançar descobre no sentido que o poema é prece
36.
a minha língua de fogo persegue tua língua na fala. não sei me calar na cozinha no quarto corredor ou na sala
a minha linguagem de luas é o que na língua resvala se tenho os pés calejados se tenho as mãos inda tontas
e a língua bêbada de noites dos dias que que miragens não vi minutos que metáforas se calam são como favelas vazias e os olhos perdidos na vala
no líquido que vem das veias a minha língua se farta e bebe o teu como água quando se chupa uma bala
37.
girassóis pousando nu teu corpo festa beija-flor seresta poesia fosse esse sol que emana do teu fogo farto lambuzando a uva de saliva doce
38.
meus lábios em teus ouvidos
flechas netuno cupido
a faca na língua a língua na faca
a febre em patas de vaca
as unhas sujas de Lorca
cebola pré sal com pimenta
tempero sabre de fogo
na tua língua com coentro
qualquer paixão re/invento
o corpo/mar quando agita
na preamar arrebenta
espuma esperma semeia
sementes letra por letra
na bruma branca da areia
sem pensar qualquer sentido
grafito em teu corpo despido
poemas na lua cheia
39.
a noite inteira invento joplin na fagulha
jorrando cocker na fornalha
funkrEreção fel fala
fábio parada de Lucas é logo ali
trilhando os trilhos centrais do braZil.
rajadas de sons cortando os ínfimos
poemas sonoros foram feitos para os íntimos
conkretude versus conkrEreção
relâmpagos no coice do coração.
quando ela canta eleonora de lennon
lilibay sequestra a banda no castelo de areia
quando ela toca o esqueleto de Lorca
salta do som em movimento enquanto houver
e federika ensaia o passo que aprendeu com mallarmé
punkrEreção pancada onde estão nossos negrumes?
nunkrEreção negróide nada.
descubro o irado Tião Nunes
para o banquete desta zorra
e vou buscar em Madureira
a Fina Flor do Pau Pereira.
antes que barro vire borra
antes que festa vire forra
antes que marte vire morra
antes que esperma vire porra,
ó baby a vida é gume
ó mather a vida é lume
ó lady a vida é life!
40.
ouvidos negros Miles
trumpete nos
tímpanos
era uma criança forte
como uma bola de gude
era uma criança mole
como uma gosma de grude
tanto faz quem tanto não me fez
era uma ant/versão de blues
nalguma nigth noite uma só vez
ouvidos brack rumo
premeditando o breque
Sampa midinigth ou aversão de Brooklin
não pense aliterações em doses múltiplas
pense sinfonia em rimas raras
assim quando despertas do massificado
ouvidos vais ficando dançarina cara
ao ter-te arte nobre minha musa Odara
ao toque dos tambores ecos sub/urbanos
elétricos negróides urbanóides gente
galáxias relances luzes sumos pratos
delícias de iguarias que algum deus consente
aos gênios dos infernos que ardem arte
misturas de comboios das tribos mais distantes
de múltiplas metades juntas numa parte
41.
se eu não beber teus olhos não serei eu nem mais ninguém quando tocar tua boca desço garganta mais além quando roçar teu íntimo onde o ser é mais intenso jura secreta não penso bebo em teus cios também
42.
por mais que te amar seja uma zorra eu te confesso amor pagão não tem de ter perdão prá nós eu quero mais é teu pudor de dama despetalando em meus lençóis
e se tiver que me matar que seja e se eu tiver que te matar que morra
em cada beijo que te der amando só vale o gozo quando for eterno infernizando os céus e santificando a boca do inferno
43.
o que é que mora em tua boca bia um deus um anjo ou muitos dentes claros como os olhos do diabo e uma estrela como guia?
o que é que arde em tua boca bia azeite sal pimenta e alho
um cheiro azedo de cozinha tua boca é como a minha?
o que é que pulsa em tua boca bia?
mar de eternas ondas que covardes não navegam rio de águas sujas onde os peixes se apagam ou um fogo cada vez mais Dante como este em minha boca de poeta/delirante nesta noite cada vez mais dia em que acendo os meus infernos em tua boca boca bia?
44.
só me queira assim caçado mestiço vadio latino leão feroz cão danado perturbando os eu destino
só me queira enfeitiçado veloz macio felino em pelo nu depravado em tua cama sol à pino
só me queira encapetado profanando àqueles hinos malandro moleque safado depravando os teus meninos
só me queira desalmado cão algoz e assassino duplamente descarado quando escrevo e não assino
45.
meto meus dedos cínicos no teu corpo em fossa proclamando o que ainda possa vir a ser surpresa porque amor não tem essa de cumer na mesa é caçador e caça mastigando na floresta todo tesão que resta desta pátria/indefesa.
ponho meus dedos cínicos sobre tuas costas vou lambendo bostas destas botas neoBurguesas porque meu amor não tem essa de vir a ser surpresa é língua suja/grossa/visceral/ilesa pra lamber tudo o que possa vomitar na mesa e me livrar da míngua desta língua portuguesa
46.
quero botar no teu orkut um negócio sem vergonha um poema descarado tá chegando fevereiro e meu Rio de Janeiro fica lindo mascarado
quero botar no teu e-mail um negócio por inteiro que eu não sou Zeca Baleiro pra ficar cantando a Mama que ainda tem medo do Papa
meu negócio é só com a Mina que me trampa quando trapa meu negócio é só com a mina que me canta ouvindo o Rappa
47.
ela tinha um jeito gal fatal – vapor barato toda vez que me trepava as unhas como um gato cantar era seu dom chegava a dominar a voz feito cigarra cigana ébria vomitando doses do seu canto uma vez só subiu ao palco estrela no hotel das prateleiras companheira de ratos na pele de insetos praticando a luz incerta no auge do apogeu a morte não é muito mais que um plug elétrico um grito de guitarra uma centelha logo assim que ela começa algo se espelha na carne inicial de quem morreu
48.
quando
tenso
o poema
penso
fio
suspenso
no AR
quando
teso
o poema
preso
peixe
surpreso
no MAR
50.
em armação
de búzios
tenho
um amor sagrado
guardado
como jura secreta
que ainda
não fiz para laís
em teus
cabelos girassóis de estrelas
que de
tanto vê-las o meu olho vela
e o que
tanto diz onda do mar não leva
da areia
da praia onde grafei teu nome
para matar
a sede e muito mais a fome
entranhada
na carne como flor de lotus
grudada na
pele como tatuagem
flutuando
ao vento como leve pluma
no salgado
corpo do além mar afora
sargaço em
tua boca espuma
onde vivem
peixes - na cumplicidade
do que
escrevo agora
51.
não sou iluminista nem
pretender eu quero o cravo e a rosa cumer o verso e a prosa devorar a lírica a métrica a carne da musa seja branca negra amarela vermelha verde ou cafuza
eu sou do mato curupira carrapato sou da febre sou dos ossos sou da Lira do Delírio São Virgílio é o meu sócio
Pernambuco Amaralina vida breve ou sempre vida/severina sendo mulher ou só menina que sendo santa prostituta ou cafetina devorar é minha sina e profanar é o meu negócio
52.
Aqui, redes em pânico pescam esqueletos no mar esquadras - descobrimento espinhas de peixe convento cabrálias esperas relento escamas secas no prato e um cheiro podre no AR
caranguejos explodem mangues em pólvora Ovo de Colombo quebrado areia branca inferno livre Rimbaud - África virgem carne na cruz dos escombros trapos balançam varais telhados bóiam nas ondas tijolos afundando náufragos último suspiro da bomba na boca incerta da barra esgoto fétido do mundo grafando lentes na marra imagens daqui saqueadas Jerusalém pagã visitada Atafona.Pontal.Grussaí
as crianças são testemunhas: Jesus Cristo não passou por aqui
Miles Davis fisgou na agulha Oscar no foco de palha cobra de vidro sangue na fagulha carne de peixe maracangalha que mar eu bebo na telha que a minha língua não tralha? penúltima dose de pólvora palmeira subindo a maralha punhal trincheira na trilha cortando o pano a navalha fatal daqui Pernambuco Atafona.Pontal.Grussaí
as crianças são testemunhas: Mallarmè passou por aqui.
bebo teu fato em fogo punhal na ova do bar palhoças ao sol fevereiro aluga-se teu brejo no mar o preço nem Deus nem sabre sementes de bagre no porto a porca no sujo quintal plástico de lixo nos mangues que mar eu bebo afinal?
53.
terra de santa cruz ao batizarem-te deram-te o nome: posto que a tua profissão é abrir-te em camas dar-te em ferro ouro prata rios peixes minas mata deixar que os abutres devorem-te na carne o derradeiro verme
salgado mar de fezes batendo na muralhas do meu sangue confidente quem botou o branco na bandeira de alfenas só pode ser canalha na certa se esqueceu das orações dos penitentes e da corda que estraçalha com os culhões de tiradentes
salve lindo pendão que balança entre as pernas abertas da paz tua nobre sifilítica herança dos rendez-vous de impérios atrás
meu coração é tão hipócrita que não janta e mais imbecil que ainda canta: ou viram no ipiranga às margens plácidas uma bandeira arriada num país que não levanta
só desfraldando a bandeira tropicalha é que a gente avacalha com as chaves dos mistérios dessa terra tão servil tirania sacanagem safadeza tudo rima uma beleza com a pátria mãe que nos pariu
bem no centro do universo te mando um beijo ó amada enquanto arranco uma espada do meu peito varonil espanto todas estrelas dos berços do eternamente pra que acorde toda essa gente deste vasto céu de anil pois enquanto dorme o gigante esplêndido sono profundo não vê que do outro mundo robôs te enrabam ó mãe gentil
telefonaram-me avisando-me que vinhas na noite uma estrela ainda brigava contra a escuridão na rua sob patas tombavam homens indefesos esperei-te 20 anos ate hoje não vieste à minha porta
o poeta estraçalha a bandeira raia o sol marginal quarta feira na geléia geral brasileira o céu de abril não é de anil nem general é my brazil minha verde/amarela esperança portugal já vendeu para frança e coração latino balança entre o mar do dólar do norte e o chão dos cruzeiros do sul
o poeta esfrangalha a bandeira raia o sol marginal sexta feira nesta porra estrangeira e azul que há muito índio dizia:
meu coração marçal tupã sangra tupy & rock and roll meu sangue tupiniquim em corpo tupinambá samba jongo maculelê maracatu boi bumbá a veia de curumim é coca cola & guaraná
o sangue rola no parque o sonho ralo no tanque nada a ver com tipo dark e muito menos com punk meu vício letal é baiafro com ódio mortal de yank
ó baby a coisa por aqui não mudou nada embora sejam outras siglas no emblema espada continua a ser espada poema continua a ser poema
Nalgum Lugar
Nalgum lugar em que eu nunca estive
Alegremente além
De qualquer experiência
Teus olhos tem o seu silêncio
No teu gesto mais frágil
Há coisas que me encerram
Ou que eu não ouso tocar
Porque estão demasiado perto
Teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
Embora eu tenha me fechado como dedos
Nalgum lugar
Me abres sempre pétala por pétala
como a primavera abre
Tocando sutilmente, misteriosamente
A sua primeira rosa
Sua primeira rosa
Ou se quiseres me ver fechado
Eu e minha vida
Nos fecharemos belamente, de repente
Assim como o coração desta flor imagina
A neve cuidadosamente descendo em toda a parte
Nada que eu possa perceber neste universo
Iguala o poder de tua intensa fragilidade
Cuja textura
Compele-me com a cor de seus continentes
Restituindo a morte e o sempre
Cada vez que respirar
Não sei dizer o que há em ti que fecha e abre
Só uma parte de mim compreende
Que a voz dos teus olhos
É mais profunda que todas as rosas
Ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas
(e e cummings – tradução: augusto de campos)
54.
suassuna no teu corpo
couro de cor compadecida
ariano sábio e louco
inaugura em mim a vida
pedra de reino no riacho
gumes de atalhos na pedreira
pétala na mola do moinho
menina dos brincos de pérola
palavra acesa na fogueira
pós os ismos tudo é pós
na pele ou nas aranhas
na carne ou nos lençóis
no palco ou no cinema
a palavra que procuro
é clara quando não é gema
até furar os meus olhos
com alguma cascata de luz
devassa quando em mim transcende
a lamparina que acende
e transforma em mel o que era pus
55.
fosse o que não diz
ou se assim dissesse
toda palavra fala
em minha língua cresce
fermento em algum
tempero
como sentir teu
cheiro e muito mais que isso
que não sei o nome
e inda queima em brasa
nos lençóis de
linho
fosse em sua cama
ou em minha casa
ou até fosse mesmo
em qualquer cozinha
essa loucura minha
passeando a noite
em um poeta teso
mesmo fosse dia
fosse sol ou lua
natural orgia
em tua boca nua
esse poema preso
56.
subVersão poÉtica subVersão
duvido do poeta
que nunca amolou a língua
afiou a faca
atirou a pedra
saltou da ponte
para o outro lado da linguagem
duvido do poeta
que nunca escreveu uma sagaranagem
explodiu a fala
saltou para dentro do abismo
de qualquer palavra
no poço fundo da voragem
duvido do poeta
que nunca pensou uma fulinaimagem
nunca foi drummundo
nem mergulhou fundo
em algum corpoema
nunca quebrou a meta
duvido do poeta
que nunca arrombou alguma porta
nem assaltou uma janela
que não entorta a linha reta
não sabe que coisa é ela
a arma branca do poeta
poeta que é poeta
não descreve situações
corta a verborragia dos versinhos
e só escreve subVersões
57.
não. não bastaria a poesia de algum bonde que despenca lua nos meus cílios num trapézio de pingentes onde a Lapa carregada de pivetes nos teus arcos ferindo a fria noite como um tapa vai fazendo amor por entre os trilhos
não bastaria a poesia cristalina se rasgando o corpo estão muitas meninas tentando a sorte em cada porta de metrô e nós poetas desvendando palavrinhas vamos dançando uma vertigem no tal circo voador
não bastaria todo riso pelas praças nem o amor que os pombos tecem pelos milhos com os pardais despedaçando nas vidraças e as mulheres cuidando dos seus filhosnão.
não bastaria delirar Copacabana e esta coisa de sal que não me engana a lua na carne navalhando um charme gay e um cheiro de fêmea no ar devorador num corpo de anjo que não foi meu deus quem fez
esse gosto de coisa do inferno como provar do amor no posto seis numa mistura de feitiço e fantasia entre as pedras e o mar do Arpoador em altas ondas de mistérios que são vossos
não. não bastaria toda poesia que eu trago em minha alma um tanto porca este postal com uma imagem meio Lorca um bondinho aterrisando lá na Urca e esta cidade deitando água em meus destroços pois se o Cristo Redentor deixasse a pedra na certa nunca mais rezaria padre nossos e na certa só faria poesia com os meus ossos
meu coração marçal tupã sangra tupi e rock and roll meu sangue tupiniquim
em corpo tupinambá
samba jongo maculelê maracatu boi bumbá
a veia de curumim
é coca cola e guaraná