segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

onde foi parar esta grana meu amor?



Eu só queria saber
onde foi parar essa grana meu amor!
será que viajou para o Japão?
será que navegou pelo vapor?
será que escorregou pelo canal?
será que fizeram dela carnaval?
ou simplesmente evaporou


eu só queria saber
por quê tu é tão cara de pau
ó minha cidade - Meu Amor!
até a filha já aprendeu a encenar
nesse Teatro Enganador - 

domingo, 4 de dezembro de 2016

Suor & Cio




Engenho

minha terra
é
de senzalas tantas
e enterra em ti
milhões de outras esperanças.

soterra em teus grilhões
a voz que tenta - avança
planta em ti
como canavial que a foice corta.

mas cravado em ti
me ponho a luta
mesmo sabendo -  o vão
- estreito em cada porta.

Artur Gomes
in Suor & Cio - 1985

obs.: em 1987 este poema foi publicado na Antologia Carne Viva - a primeira antologia de poesia erótica publicada no Brasil, organizada por Olga Savary.



sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

o observador e a coisa observada

O Observador e a coisa observada

"Meus altares são as montanhas, a terra, o ar, as estrelas, o oceano, tudo isso que provém do grande todo."
Lord Byron

Aos 11 de agosto de 1932, em Melila, nascia no continente africano (Marrocos espanhol) o dramaturgo, romancista, poeta, pinto, fotógrafo, conferencista, enxadrista e teórico do xadrez Fernando Arrabal.  O pai fora, em 1936, preso e condenado a morte pela recusa em tomar parte do golpe militar em seu país e, embora sua pena tenha sido trocada por trinta anos de prisão, depois de transferido para a Cidade Rodrigo, próximo a fronteira portuguesa, para Burgos e, mais adiante, nesta cidade, ao hospital psiquiátrico, em 1942, acabou por desaparecer misteriosamente. Pouco antes, em 1940, Fernando Arrabal vai com a família para Madri e, mais tarde, radica-se em Paris onde até hoje vive e trabalha.
A obra de Arrabal, traduzida na maioria das línguas, e o seu teatro, entre os mais encenados do mundo, conforme seus críticos, é qualificada como exemplar tanto pelo conteúdo quanto pela diversidade, considerando que a mesma se compõem de 6 compêndio de poemas,12 romances, 3 epístolas, mas de 70 peças de teatro, 7 filmes longa-metragens e 3 curtas, uma centena de livros de arte, uma centena de telas pintadas, muitos milhares de fotografias, um milhar de artigos para a imprensa internacional, muitas centenas de conferências nas universidades mais prestigiadas do mundo.

Não fosse o bastante, em 1962, juntamente com seus amigos  Roland Topor (desenhista), Sternberg (escritor) e Alexandro Jodorowsky (encenador apaixonado pelo "happening") fundou o Movimento Pânico que - etimologicamente  tem origem no deus grego Pan, a totalidade. Em seu reencontro com os surrealistas, Arrabal abandona um pouco suas parábolas "infantis" para explorar a veia do fantástico e do ritual.

Compreendendo que as estruturas do diálogo, da ação teatral e do universo têm a mesma forma, para Arrabal o teatro não se resume ao palco, mas ele é tudo isso que advém, onde a ação - por ser a imagem refletida do mundo - não deve ser uma demonstração de maneirismos cênicos. Quando afirma que a crença no ego teatral traz a infelicidade de todos, bem como nega a existência de um fenômeno solitário, Arrabal reitera a idéia de que "o observador e a coisa observada, o espectador e a peça representada, o objeto e o tema formam uma só entidade".

O teatro de Arrabal é chamado de absurdo, mas o absurdo do mundo deste dramaturgo espanhol não nasce do desespero do filósofo em busca de penetrar o segredo da existência. É dizer que esse estado de absurdidade se revela na mirada  dos personagens  que vêem a situação humana com os olhos da simplicidade ou da imediaticidade infantil que não  permite uma maior compreensão da realidade do objeto observado. Também como as crianças, seus personagens são por vezes cruéis, porque não compreenderam ou sequer tentaram compreender a existência de uma lei moral. E, assim como as crianças, eles sofrem a crueldade de um mundo como flagelos incompreensíveis.

Wilson Coêlho.
poeta.  dramaturgo. escritor. tradutor. palestrante. articulista e encenador graduado em filosofia e Mestre em Estudos Linguísticos pela Universidade Federal do Espírito Santo. Doutor em Literatura pela Universidade Federal Fluminense e Auditor Real do Collége de Pataphysique de Paris.


domingo, 13 de novembro de 2016

couro cru & carne viva


eu
poderia abrir teu corpo
com os meus dentes
rasgar panos e sedas
da tua cama arrancar os cobertores
desatar todos os nós
com as unhas arranhar os teus pudores
rasgando as rendas dos lençóis

perpetuar a ferro e fogo
minhas marcas no teu útero
meus desejos imorais
mal/dizendo a hora soberana
com a fora sobre/humana dos mortais
quando vens me oferecer migalha e fruto
como quem dá de comer aos animais

Artur Gomes
foto.poesia

do livro: Couro Cru & Carne Viva

sábado, 12 de novembro de 2016

pátria a(r)mada



pátria a(r)mada

só me queira assim caçado
mestiço vadio latino
leão feroz cão danado
perturbando o teu destino

só me queira enfeitiçado
veloz macio felino
em pelo nu depravado 
em tua cama sol à pino

só me queira encapetado
profanando aqueles hinos
malandro moleque safado
depravando os teus meninos

só me queria desalmado
cão algoz e assassino
duplamente descarado
quando escrevo e não assino

Artur Gomes
foto.poesia
do livro: Couro  Cru & Carne Viva

www.goytacity.blogspot.com 

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

tecidos sobre a terra


tecidos sobre a terra

terra,
antes que alguém  morra
escrevo prevendo a morte
arriscando a vida
antes que seja tarde
e que a língua da minha boca
não cubra mais tua ferida

minha terra é de senzalas tantas
enterra em ti
milhões de outras esperanças
soterra em teus grilhões
a voz que tenta - avança
plantada em ti
como canavial que a foice corta
mas cravado em ti me ponho a luta
mesmo sabendo o vão - estreito em cada porta

ó terra incestuosa
de prazer e gestos
não me prendo ao laço dos teus comandantes
só me enterro a fundo nos teus vagabundos
com um prazer de fera
e um punhal de amante

Artur Gomes

do livro: Suor & Cio 1985

terça-feira, 1 de novembro de 2016

poema antibíblico


Poema AntiBíblico

De Santa Cruz de La Sierra
passando  por PortoViejo
direto de Cavajarro
por ser de carne osso não de barro
te mando um beijo ó Amada!
pelo quanto que encerra
nosso amor BolivariAndo
só amando o que é nosso
o país que sobrevive em nossos corpos 
a semente que plantamos - nosso chão

é preciso não temer o canalha
nem se amedrontar com os hipócritas
se vivemos independentes
armados de palavra até os dentes
pra combater a podridão. 

Artur Gomes Gumes

CAMPOS DOS GOYTACAZES

Quem sou eu

Minha foto
meu coração marçal tupã sangra tupi e rock and roll meu sangue tupiniquim em corpo tupinambá samba jongo maculelê maracatu boi bumbá a veia de curumim é coca cola e guaraná