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sexta-feira, 25 de setembro de 2009


ENTREVISTA COM ELENILSON NASCIMENTO NA GLOBO FM

“Procuro envolver o leitor nas ambiguidades dos comportamentos e das declarações dos personagens. Não escondo tudo de uma forma desleal e inverossímil, como nos contos antigos de autores renomados. Adoro o Nelson Rodrigues, mas só ficar falando de putarias em todos os trabalhos é um pouco chato. Não desmerecendo o trabalho do Nelson, que eu amo.” (E.N.)Baiano, trinta e uns anos (*detesta falar de idade), Elenilson Nascimento está literalmente “no tiro”, com todas as balas no tambor e a arma apontada para você leitor. Ele acaba de lançar o livro de contos “Memórias de um Herege Compulsivo” e a antologia poética em parceria com 51 poetas “Poemas de Mil Compassos”, ambos pela editora Clube dos Autores.
Elenilson já trabalhou em banco, clínica médica, jornal e também já foi professor em cursinhos de pré-vestibulares e de vários colégios particulares e da rede pública, sendo que, essa última profissão, onde passou mais tempo, se diz desiludido por completo. “Educação virou um produto de estante de supermercado”, completou. O autor ainda se diz um iniciante, mas que já tem seis livros publicados, dezenas de trabalhos espalhados em outras dezenas de antologias. Mas, ao ler as páginas das “Memórias de um Herege Compulsivo” podemos ter a certeza de que esse autor pode ter elevado a categoria de contos à condição de arte.

Em 2003, recebeu um 1º Lugar no I Concurso de Literatura Virtual, foi classificado no II Prêmio Literário Livraria Asabeça e obteve uma Menção Honrosa no IV Concurso Internacional de Poesias, em Cuba. Alguns críticos passaram a chamá-lo de “clandestino das letras”, mas parece que nada é gratuito ou irreal nas tramas desse nobre baiano de imaginação macabra.

Em “Memórias de um Herege Compulsivo” (Clube dos Autores, 303 páginas, R$ 44,42), seu 6º livro em nove anos como autor, o mistério e a indignação cercam todas as histórias, mas destaque para os contos “O homem que se espremia no traje da cor do mundo”, “A insustentável frieza de ser constipador da vida alheia no jardim das folhas secas” e “O aliciador de Melissas”. A seguir, trechos da entrevista que Elenilson deu a rádio Globo FM.

Globo FM – Elenilson, você já está trabalhando em algum outro livro novo?
Elenilson Nascimento – Cara, eu acabei de lançar dois e você já quer que eu esteja trabalhando noutro? Pois é. Mas já voltei a rascunhar alguma coisa para um romance sobre Salvador. Mas não quero falar sobre isso agora, pois acabei de lançar a antologia “Poemas de Mil Compassos”, um pequeno-grande volume de poemas, com 51 poetas que me tiraram o sono por alguns meses; e também o meu livro de contos “Memórias de um Herege Compulsivo”, um livro inquieto com 30 contos que estavam na gaveta desde 2006, mas que as editoras não queriam publicar por acharem ser textos problemáticos.

Globo FM – Problemáticos?

Elenilson Nascimento – Exato. Eles querem que eu escreva sobre flores, cores e amores. Me recuso. Meu texto em que tento consolidar tudo o que reflito sobre o mundo, que diz respeito a meu trabalho como escritor de ficção e do crime que estão cometendo contra os brasileiros, na verdade, é um desabafo. Uso o Brasil como material de trabalho e vou lhe dizer, muitas vezes, é muito desagradável. Analiso a estrutura da narrativa de detetive por meio de exemplos de meus antecessores.

Globo FM – Como é trabalhar com 51 autores dentro de um mesmo livro?

Elenilson Nascimento – Complicado. Muito complicado. Esse tipo de seleção é bacana porque faz com que eu conheça trabalhos de artistas diversos, mas muitos desses artistas não têm consideração e respeito pelo trabalho do outro. São os primeiros a dificultar o processo. Esse livro de poemas já fez um mês que foi lançado. Se 10 dos 51 compraram o livro e divulgaram em algum lugar, nem que seja na padaria da esquina, isso já é um milagre.

Globo FM – Você quer dizer que os próprios autores não divulgaram o livro?

Elenilson Nascimento – Divulgar? Rapaz, eu acho muito engraçado as pessoas criticarem tanto a falta disso ou daquilo nesse país de faz-de-conta. Quando rola uma oportunidade de fazer uma coisa bacana, eles próprios não se dão nem ao trabalho de mover o “dedo médio” para digitar alguma coisa. Você já ouviu falar na “teoria das janelas quebradas”? Pois o que acontece com essas pessoas que fazem arte é exatamente isso. Cada qual preocupado com os seus próprios projetos, com os seus mundinhos e com os seus problemas. Trabalho coletivo? Nem deu pra saber se valeu a pena. Cada qual no seu quadrado!


Globo FM – Você pretende organizar mais alguma antologia?

Elenilson Nascimento – Não!

Globo FM – Quais são os autores que mais o influenciaram?

Elenilson Nascimento – Não gosto muito de fazer listinhas de autores, porque não tenho listinhas, tenho listões. De Nelson Rodrigues a Fernanda Young. De Lobo Antunes ao Augusto Cury. Descobri agora o português Miguel Sousa Tavares. Estou achando bacana e, sobretudo, Dorothy L. Sayers, que me ensinou que o mais importante num escritor é manter o interesse do leitor, investigar o que motivou uma história e o que se passa dentro da mente de um personagem. Coisas assim que as faculdades de Letras deveriam fazer, mas que os seus professores não tem tempo, pois tem que exigir dos seus alunos acéfalos seminários de assuntos que eles ainda não dominam e ainda chamam isso de educação superior. Dorothy foi uma autora policial com instinto psicológico – e aí a gente pode chamá-la de feminina e começar a pensar, a partir dela, por que as escritoras são mais sutis que os homens. Eles pensam em armas e em quem matou quem. Dorothy queria adentrar os mistérios que levam as pessoas a cometer crimes ou ser assassinadas. Gosto dessas escritoras insanas. Mas a Patricia Highsmith é a minha preferida. Ela é uma gracinha, estranha, mas gracinha.

Globo FM – Você citou Agatha Christie numa entrevista de 2007, citando-a como uma influência angustiante no início de sua carreira. O que você quis dizer com isso?

Elenilson Nascimento – É verdade. Foi um desafio começar a minha carreira depois de ter passado um período me questionando se era isso mesmo o que eu queria para a minha vida. De qualquer forma, não tive muita influência de Agatha Christie. Pelo menos não assim como você colocou. Porque, para Agatha, o que interessava era a investigação pela investigação, a lógica do crime. Ela era fascinada pelo quebra-cabeça. Os personagens são derivados do quebra-cabeça, são peças de um esquema. Os crimes são impossíveis de ser praticados fora de seus livros. Por serem crimes impossíveis. Seus detetives não vivem neste mundo. São quase seres fantásticos, não têm nada a ver com a vida diária de um detetive amador ou profissional. E como eu sou um ator de crimes “reais”, tipo desses cometidos todos os dias pelos nossos amados congressistas, então as minhas influências são outras.

Globo FM – Sua preocupação recai sempre nas questões sociais da trama. O que, em sua opinião, é mais importante: o cenário, os personagens ou o mistério?

Elenilson Nascimento – Para mim, tudo nasce de um cenário, uma casa, uma paisagem. Em “Memórias de um Herege Compulsivo”, a ideia veio da minha própria vida como professor angustiado. Eu detestava aquela vidinha. Então, os contos vieram tomando forma e as personagens aparecendo. E, dessa forma, fica interessante abrigar um crime ali dentro.

Globo FM – Você já disse que o Brasil é um cenário macabro. Por quê?

Elenilson Nascimento – Sim, e é dele, com suas periferias úmidas de sangue dos excluídos, pedras e lembranças do passado que começo a pensar nos personagens. Eles também nascem dos interiores abissais, do mobiliário antigo que imagino. Faço questão de descrever cada aspecto do ambiente, para que o leitor seja transportado para um lugar que tem um estatuto de realidade e de crime. Mas já aproveitei meus tempos na faculdade de Letras para estudar (sozinho) métodos de investigação e perícia na biblioteca, já que lá não tinha mais nada de interessante para se estudar.

Globo FM – E como esses personagens se desenvolvem?

Elenilson Nascimento – Procuro dar voz a cada um deles, não deixar nenhum detalhe fora. É como criar um mundo. Mas não me pergunte como vou escrevendo uma história. É difícil, para mim mesmo, entender o que se passa quando crio os personagens e escrevo. Escrever é um mistério insondável que não faço questão nenhuma de desvendar! Mas é algo delicioso. Um verdadeiro gozo! Você já gozou com uma pessoa bacana do seu lado? Pois é exatamente assim que eu fico quando alguém comenta alguma coisa sobre os meus trabalhos. Mas ultimamente tento me controlar, pois não quero que ninguém perceba que eu estou de pau duro (risos).

Globo FM – É correto dizer que, em suas histórias, o que importa é menos descobrir quem matou, mas quem está mentindo?

Elenilson Nascimento – Eu não sou nenhum P.D. James. Mas precisamente, sou um cara difícil e incomum. Procuro envolver o leitor nas ambiguidades dos comportamentos e das declarações dos personagens. Não escondo tudo de uma forma desleal e inverossímil, como nos contos antigos de autores renomados. Adoro o Nelson Rodrigues, mas só ficar falando de putarias em todos os trabalhos é um pouco chato. Não desmerecendo o trabalho do Nelson, que eu amo. Mesmo assim, procuro pegar a pessoa pela curiosidade, sem trair o realismo. Daí que a mentira talvez seja o crime mais insidioso e difícil de resolver, até porque as pessoas mentem para si próprias.

Globo FM – Você chegou a trabalhar em investigação de crimes, presenciar autópsias e cenas escabrosas, como tantas que aparecem em alguns dos seus textos?

Elenilson Nascimento – Já trabalhei como repórter num jornal de Salvador, mas é complicado cobrir matérias devido à quantidade de “estrelinhas” que se dizem jornalistas que não deixam “focas” entrarem na sua área. Mas consegui vivenciar tudo indiretamente. Só se eu fosse um policial formado na academia (*Deus me livre) poderia trabalhar em assassinatos. Mas eu era, na época, um professor de cursinho, que dava aulas para sobreviver e estudava Jornalismo porque queria escrever. Mesmo assim, aproveitei meus tempos de jornalista para estudar métodos de investigação e perícia. O que mais fiz em minha vida, agora me sentindo um escritor, foi pesquisar, pesquisar, pesquisar. Disso tudo, estou fazendo bom uso em meus livros, para dar credibilidade a uma história. Para não falar da infinidade de homens e mulheres que trabalharam, que amam – olha eu falando de amor – que pecam, que fodem e me inspiraram para compor os personagens.

Globo FM – Como é o seu dia-a-dia como cidadão digital? Que tipo de coisas costuma fazer?

Elenilson Nascimento – Eu adoro Internet. Tenho tudo: MSN, Orkut, blogs, Twitter e sei lá mais o quê. Mas não me pergunte se eu olho tudo isso todos os dias. Sou um sujeito bem típico do tipo cidadão atomizado. Mas não faço parte de nenhum grupo, não sou filiado a nenhum partido. Aplico o princípio de Groucho Marx: “Não acredito em instituições que aceitem pessoas como eu”. Sou, nesse sentido, marxista (risos). Isso não quer dizer que não possa me juntar a outras pessoas ou organizações para fazer reivindicações. Agora, para o indivíduo ser prestável republicanamente, tem de ter um nível de compreensão e de conhecimento do que acontece no campo político que é fundamental. Sou um cidadão digital sim, mas no sentido de que fico bem informado usando os recursos digitais. Tenho alguma competência em ter informação dessa natureza e, portanto, poder reagir digitalmente, embora seja atômico. Portanto, adoro Internet! A Internet é uma coisa do demônio. Então, devo gostar dele também.

Globo FM – Em um artigo publicado na revista “Emerge Magazine”, no mês de setembro/09, você disse que “acredita que os “artistas” brasileiros – formadores de opinião – se dobraram a ditadura do “politicamente correto”, que eles se omitem diante das crises desse governo Lula que ajudaram a eleger, além de que, o Lula só não sofreu um impeachment até agora por incompetência da oposição, e que os “formadores de opinião” costumam agir em bando”. De onde têm partido iniciativas exitosas de mobilização para a participação política e o controle social?

Elenilson Nascimento – Para as antigas teorias políticas do século 19 e 20, era impossível que indivíduos atomizados pudessem ser prestáveis politicamente, sem ser alienados. Mas é preciso reconhecer que a sociedade mudou e que o sujeito presta, sim: ele acompanha (mesmo não aparentando), está muito ligado nas merdas que os nossos políticos fazem, no beócio do Collor, nas arapucas do Renan Calheiros, sabe dos fatos importantes e conhece caminhos para reagir. Ele pode mandar uma mensagem via MSN, se juntar com alguém, entrar em uma comunidade no Orkut, ou sair da que não o interessa mais, assinar petições… De toda parte. No Brasil, existe uma tendência de esquerda de sociologia política – que as universidades teimam em não aceitar – que acha que isso só pode vir da sociedade, porque o Estado é um adversário. Mas isso não é verdade. Passamos dessa fase. Até há circunstâncias em que o Estado é adversário da sociedade, mas não é esse o padrão. Estamos há 26 anos em social-democracia. A própria sociedade civil tem tido boas iniciativas, como as ONGs Contas Abertas e Transparência Brasil. E no Estado também há coisas assim. O escândalo do cartão corporativo, por exemplo, acontece porque o Estado divulga a informação. Está em linguagem contábil, mas se um jornalista que é expert vai lá e traduz a informação, então a informação está disponível a todos.

Globo FM – Você costuma criticar o governo Lula. Você não acredita no O Portal da Transparência, em que o governo federal presta contas da aplicação do dinheiro público?

Elenilson Nascimento – Pode até funcionar. Direito não, é claro, mas funciona na medida do que eles querem demonstrar. Há links quebrados, informações desatualizadas, nem todo sistema, ele é uma espécie de centralização, mas formado por várias páginas produzidas por diversos setores do governo. Nem todos alimentam aquilo com a mesma velocidade e a mesma integridade dos dados. Mas é uma boa iniciativa. Mesmo não sendo eficiente.

Globo FM – Então, a transparência não é apenas demagogia?

Elenilson Nascimento – Há muita demagogia e esforço de propaganda. O blog de Lula, nesse sentido, é uma tristeza. Esperava-se que fosse um blog do presidente para falar com a população, e não é um blog do presidente. E não tem o mais fundamental de um blog, que são os comentários das pessoas. Nem que se filtrassem as coisas que ofendam e xinguem. Mas não, virou mais um instrumento de propaganda. É um uso hipócrita.
Globo FM – O sir João Grandão, o seu anti-herói que abre o “Memórias de um Herege Compulsivo”, foi baseado em alguma dessas figuras com quem você trabalhou?
Elenilson Nascimento – Todos os personagens que eu crio têm alguma coisa de “figuras” que eu já conheci ou conheço. Já o sir João Grandão é uma soma de muita gente que conheci, mas não é nenhum em especial. Eu me baseei em homens paranóicos que se acham importantes. E é o que mais tem por aí. Criei-o antes mesmo de ter pensado em ser escritor. Minha primeira dúvida era se ele seria um profissional ou um amador. Ora, há muito amador na literatura, e um cara paranóico nunca poderia trabalhar num mundo concreto. Por isso, decidi que o sir João Grandão fosse antes de tudo um profissional, que se comportaria segundo os procedimentos de sua classe, mas completamente louco. Depois, quis que ele fosse correto, corajoso, decente, galante... e que tivesse pendores artísticos. Por isso transformei-o em um poeta, mesmo sendo maluco.
Globo FM – Por que aparecem poucos poemas no seu blog?
Elenilson Nascimento – Porque não sou “poeta direito” como o Vinicius ou o Drummond. Sou “poeta errado” e investigativo, e não há pesquisa que faça a gente fazer um bom poema! (risos) Tenho três livros de poemas publicados e até um trecho de um deles no meu romance “Clandestinos” e nada mais do que isso. Portanto, ainda não sou nada e não sei nada. Deixo os outros poemas para a imaginação dos leitores. Eu sou um bom poeta, não posso atribuir meus versos ruins a minha falta de agilidade em trabalhá-los. Mas eu quero ser mais do que isso.

Globo FM – Você sempre se esforça para elevar a literatura. Acha que colaborou na união da arte culta com a literatura popular?

Elenilson Nascimento – Literatura popular, não. Literatura, por favor! Esse foi sempre meu desejo, mostrar que a narrativa deve ser valorizada como obra literária. Eu já disse uma vez que uma história de primeira classe tem de ser literatura de primeira classe. Acho que conquistei isso, e os prêmios que eu já recebi são as provas de que é possível fazer alta literatura. Mesmo que esse prêmios não paguem as minhas contas.

Globo FM – Qual é seu método preferido para escrever?

Elenilson Nascimento – Tenho hábitos arraigados. Tenho que trabalhar com outras coisas porque preciso sobreviver e ainda não tenho condições de viver da minha literatura. Mas quando estou em casa e não tenho compromissos, sempre acordo às 7 horas da manhã, preparo meu suco e me sento diante da escrivaninha, do computador, onde estão o dicionário, o meu caderno de folhas pautadas e canetas esferográficas de tinta preta. Começo a escrever calmamente. Já tive períodos de desespero porque queria publicar e não tinha onde. Hoje faço as minhas coisas com mais cuidado, mesmo que nunca venham a ser publicadas.

Globo FM – Você segue o método de Gustave Flaubert, para quem o bom estilo nasce do texto lido em voz alta?

Elenilson Nascimento – Sim. À medida que dito, vou cortando os excessos, e o texto ganha fluência e leveza. Odeio ornamentos inúteis, palavras rebuscadas e essas “merdas” que muitos autores adoram colocar só para mostrarem o quanto são inteligentes e como a gente percebe isso depois de ler o que escreveu pela terceira e quarta vez! Escrever é reescrever.
fotos: divulgação
artwork: Ewerton Thiago

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