fulinaíma

segunda-feira, 14 de setembro de 2009



NÃO TENHO ORGULHO DE SER PROFESSOR!
Um leitor me escreve:

“Me interessaria muitíssimo que V.S.ª escrevesse algumas notinhas sobre a arte de ser professor e também sobre os livros que os mais jovens deveriam ler, para que aprendam e fomentem um conceito claro, amplo, da sua própria existência”.


Resposta ao leitor amigo: Mas, onde mesmo o senhor vive? Acredita, por um minuto, que os livros e os atuais professores lhe ensinarão a formar algum “conceito claro e amplo da sua existência”? Me faça uma garapa! Pois num país onde prioridades costumam ser invertidas (bundamolice) não chega a causar estranheza à forma como esse assunto vem sendo conduzido aqui, ali e em todos os lugares. É muito triste, repito, é muito triste vê a EDUCAÇÃO afundando-se na imoralidade, com o lacre da DESESPERANÇA selando o coração de todos (em especial desta juventude cada vez mais asneada e de mentes atrofiadas). Desesperança sim, compreendida em razão de uma posta na ordem de todos os dias: IMPUNIDADE.
Cito a educação, em especial, por ser o termômetro do ser humano e carro-chefe do nosso suposto desenvolvimento. Como tal, todos os acontecimentos desonrosos nela inserida, envolvendo homens, aparentemente comprometidos com essa tal catequização, têm repercussão negativa em tudo e em todos. Com esse clima de desonra, abre-se nela as portas para uma revolta silenciosa, como já se começa a perceber, com movimentos variados (Cansei? Fome Zero? Sem Terra?) e até com ataques antidemocráticos (a demissão da jornalista da TV Cultura, Salete Ramos, por ter criticado o governo e a sua política de quitanda). Aliás, até mesmo o presidente da Lu(l)a (no meio das CPIs das pizzas) já disse que “estamos em situação de perigo” – como se nós não soubéssemos.
A educação na Bahia, por exemplo, é uma grande MENTIRA. O governo do Estado alimenta a opinião pública com suas UTOPIAS e DEMAGOGIAS publicadas na mídia e em jornaizinhos burocráticos e taxativos. A Bahia precisa que a educação seja tratada com respeito. E eu, como professor, aliás, como ex-professor, tenho VERGONHA dessa situação além, é claro, de constatar que o Brasil perde a sua grandeza perante o mundo quando a FARSA, a HIPOCRISIA e a DESLEALDADE são protagonizadas por profissionais ligados à educação, editores, parlamentares, prefeitos, advogados, ou qualquer outro cidadão comum e até por um presidente da República, felizmente, destituído, ou pelos casos mais recentes de CORRUPÇÃO no Planalto Central ou na padaria ali da esquina.
Mas, certamente, não passa despercebido o fato de que o mesmo governo que luta para manter o salário no mínimo do mínimo, por conta do equilíbrio das contas públicas, sirva de patrono a uma iniciativa que implique novos gastos. Então pergunto: como educar esses jovens que vêem nos exemplos dos palanques e nos cargos públicos os heróis ou representantes desse país de quitanda? Eu respondo: NÃO SEI! E como a atriz Regina Duarte, agora eu grito melancolicamente: “TENHO MEDO!!!”.
+ O QUE ANDA ACONTECENDO NAS SALAS DE AULAS
Mais uma vez os jovens estudantes brasileiros (principalmente os universitários) contribuíram para a má reputação da juventude local, e com o agravante de terem esses aprontado das suas nas provas dos vestibulares de faculdades de beira de estrada. Aliás, o que mais temos agora em Salvador são faculdades. Assim, a LIBERDADE já se afigura naturalmente limitada. Não são somente as condições materiais que a limitam, mas a personalidade, entendida como plano de essência, de cada um: de professores assalariados e sem conteúdo, de alunos tripudiados pela alienação e pela demagogia dessa sociedade, dos Poderes Públicos corrompidos, dos falsos heróis fabricados pelas telas da TV ou no fogo cruzado de morros e favelas.
O que nos resta então?
Hoje, essa “rota” traçada no mapa da existência são os falsos valores encravados e justificados pelos injustificáveis. Esses conceitos, por vezes abstratos, que não parecem deixar claro como devemos agir, por outras vezes concretos e cheios de regras como um imperativo inflexível, não mais se acumulam aleatoriamente nas cabeças cheias de sonhos dos nossos jovens; integram-se como pequenas setas num mapa que formam, no fim, um percurso incompleto. Num percurso que não está livre de suas irregularidades. E, infelizmente, como disse Stephen Kanitz num artigo para a Veja (03/10), “as nossas universidades não ensinam epistemologia, aquela parte da filosofia que nos propões indagar o que é real,o que dá para ser mensurado ou não”.
Não é raro que esse somatório de falta de unidade, de falta de finalidade; mas nunca, sob risco de séria patologia mental, de irremediável dilema, seja uma apologia a lugar algum. Dentro das salas aplicam-se uma nova matéria na grade curricular dessas “cabeças do amanhã”: A ALIENAÇÃO PURA E CRUA. Todos os dilemas daí advindos são solucionáveis ou postergáveis em maior ou menor grau, com exceção daqueles que são próprios da neurose. A grande maioria dos alunos são totalmente passivos e estereotipados, fruto de anos com suas “bundas” imóveis nas carteiras das escolas sem exercitar os cérebros. Conseqüência: não conseguem nem estruturar uma redação e ainda acham que o Torquato Neto deva ser um cantor de banda americana.
No meu puta (*advérbio de intensidade) poema “Pergunte ao Pó” escrevi o seguinte: “Ser professor é não deixar de pulsar, de ser arco teso. É não deixar de afrouxar e tampouco simplificar. Ser professor, para mim, nunca mais... quero mais é transbordar. Ser tão somente um objeto ilimitado neste mundo inacabado” (in “Palavras Faladas Fadadas Palavras” – 2002), por isso eu, mais do que ninguém, posso (como ex-professor, estudante, leitor, jornalista, escritor e sonhador) concluir que a LIBERDADE é um trabalho árduo e solitário de poucos professores. E, por muitas vezes, nada estimulante. É um trabalho de pôr em execução um plano de ser do ser humano. Mas também é um trabalho de criar, elaborar, manter e reinventar esse plano, porque a vida humana não é um empreendimento de engenharia, em que o especialista primeiro esboça e termina o projeto, para depois pô-lo em obra; diferentemente, a vida é perpétua execução e sem tempo para projetos.
Quando penso, meu pensamento já põe em movimento a intenção que escondo por trás das minhas idéias. Quando ajo, minha ação é o próprio planejamento em imediata concretização. A LIBERDADE, portanto, me é dada para que eu me recrie como ser, da base ao topo e em tempo real. Porém, infelizmente, isso não está sendo trabalhado nas salas de aulas. Muitos colégios priorizam o liberar geral de pontos nas cadernetas, sem ao menos um esforço coletivo. Vejo muitos estudantes paralisados no tempo. Inertes, enfadonhos, imbecis, inanes, incapacitados e, totalmente, alienados.
Dentro das salas, muitas vezes, as aulas são desvirtuadas para uma Gincana, um Festival de Música, um passeio no Pelourinho, uma palestra na Câmara dos Vereadores, uma participação na Parada Gay, ou até mesmo, o NADA, pois os alunos precisam descansar, mas TUDO valendo algumas notas qualitativas. Vejo alguns estudantes dormindo em sala, ouvindo músicas pelo celular, em conversas paralelas e, o que é pior: cultivando o péssimo hábito de endereçar o efeito às causas erradas. E ainda, no meu curso de pós-graduação, ainda tenho que ouvir a professora dizer que: “PROFESSOR QUE NÃO CONTROLA A TURMA TEM QUE IR VENDER BANANA NA FEIRA”. Idiota!
Se essa juventude não lê, não consegue se expressar com clareza e vai continuar alienada. É muito mais fácil e rende comentários mais espetaculares e irônicos dizerem que a culpa disso ou daquilo é dos produtos televisivos como a Xuxa, Faustão ou “Malhação”, que, respectivamente, imbecilizariam a infância e estilizariam caricaturalmente a adolescência. Quem dera fosse só isso mesmo.
+ EDUCAÇÃO BRASILEIRA: UMA MENTIRA
Pais ausentes, alunos carente, professores doentes. Não há sociedade possível sem valores porque não há vida tolerável sem eles. Mesmo a pessoa aparentemente mais desprovida de propósitos oculta, na convivência de sua intimidade, as metas de realização de sua vida. Como também podem ser para nós: pequenas, insignificantes, mesquinhas e equivocadas, mas são a sua sustentação no dia após dia.
“Eles praticam um massacre e o chamam de PAZ”, disse o filósofo Tácito. A grande maioria dos professores é medíocre, pois não passa de reprodutores da doutrina do sistema. As “fofocas” e o “pedantismo” nas salas de professores e nas reuniões de coordenação não passam de articulações de uma massa empobrecida pela falta de valores. Professores são arrogantes por natureza e, muitas vezes, são considerados de imbecis pelos próprios alunos (ou pela própria instituição). E você acha mesmo que a mediocridade só existe nas escolas? Nas universidades a coisa é mais gritante.
“E, talvez, por eu também ser professor, essas linhas venham a se tornar meio perigosas ao que eu vou gritar, afinal sobrevivo aos ataques de passionalidade que os vestibulares vivem em idílio com autores que não falam, mas se omitem num discurso evasivo, pois o processo do vestibular no Brasil é caduco, por ser inexpressivo e feito de condicionar meninos em colocar “xis” numa fileira de frases. A enigmática profissão celibatária sobre tablados, a profissão do discurso, do senso cosmopolita, dos michês ideológicos sem o valor inflacionado de Bruna Surfistinha, a profissão deduzida por um sistema de espólio financeiro e que sitia profissionais com esquemas melancólicos como a dos carvoeiros sem digitais, a profissão ecumênica e que dá indícios de profissão de cunho filantrópico ou religioso: PROFESSOR, o michê da educação, aquele que ganha salário em cheque de terceiros e pré-datado, aquele que é responsável por tudo neste sistema de terceirização de culpas e de silêncios numa versão unilateral do estadismo da classe média inadimplente.”(trecho da crônica “Preâmbulo” de E. Nascimento, in “OLHOS VERMELHOS – Crônicas Indesejadas Num Lento (E Inútil) Mergulho Em Direção Ao Nada No País Dos Bruzundangas E Outros Escritos” – 2006)
Mas, segundo o excelente professor J. J. Calmon de Passos (que eu só vim a conhecer essa espécie em extinção na pós-graduação), numa conferência pronunciada no II Congresso de Direito do Estado, aqui em Salvador em 2002: “A QUESTÃO SOCIAL, A AMPLIAÇÃO DO SUFRÁGIO, A ORGANIZAÇÃO DOS TRABALHADORES E O ALTO CUSTO QUE PASSOU A REPRESENTAR A CONQUISTA DE MERCADOS EXTERNOS FIZERAM COM QUE O ESTADO - ENQUANTO INSTITUIÇÃO FORMAL - MOSTRASSE DE MODO MAIS EVIDENTE SUA FASE”. Dito e certo.
Vai-se desacreditando, tornando o nosso país uma verdadeira torpeza, uma imensa “latrina”, por tamanha falta de compromisso do funcionalismo público, quando, diante destes fatos, os mais jovens vêem a “Ordem e Progresso” como o lema da PODRIDÃO do pavilhão nacional, e associam que essa ORDEM está consistindo na “harmonia dos escândalos” reinantes – um após outro, disciplinadamente, enquanto a palavra PROGRESSO é sentida pelo aumento de “delinqüentes do colarinho branco” ou aqueles que recentemente foram mostrados no filme “Tropa de Elite” (compre o seu no camelô mais próximo da sua casa), todos eles passando a imagem de honestidade e sem punição alguma. E o resultado dessa prova do descaso: PROFESSORES SÃO TRATADOS COMO O NADA NA PRÓPRIA SECRETARIA DA EDUCAÇÃO DO ESTADO DA BAHIA.
Devemos estar vigilantes, por isso mesmo o meu comentário é oportuno. O meu grito, apesar de solitário, é um grito (ainda) oprimido. Eu tenho VERGONHA de ser chamado de professor. Tenho VERGONHA de ser tratado como um NADA. Não quero ser martin de causa alguma, mas esses acontecimentos assustam mais do que a palavra IGNORÂNCIA. A Educação no nosso país está no sinal vermelho. A Educação na Bahia (e na maior parte do Brasil) é uma grande MENTIRA. A Educação na Bahia é a do “VAMOS APROVAR TODOS OS ALUNOS NOS COLÉGIOS PARA LEVAR A BAHIA PARA O CAMINHO CERTO”.
Bem, este é um alerta, porque estamos adentrando a um período de mudanças. E tudo leva a crer que as coisas serão de fato mudadas, mas ainda, parte do povo continuará votando mal, barganhando a escolha consciente por vantagens de ocasião, sendo levado no cabresto, manipulado e educado por uma elite (governo) absurdamente competente na ARTE DE REPRESENTAR. Há um elenco de desonestos, camuflados de honradez, de educadores falsificados, postulando o conhecimento dos incautos. Precisamos de muita consciência política. Se não for assim, diremos que cada país tem os 507 anos que merece. Quanto aos livros: TENHO MUITA PENA DOS QUE AINDA NÃO DESCOBRIRAM UMA MINA DE OURO DENTRO DELES, mas se houvesse mesmo um único livro que ensinasse a formar um conceito claro e amplo de tudo, esse livro estaria em todas as mãos, em todas as escolas, em todos os porões, em todas as universidades (principalmente nelas); e não haveria um lar que, na estante de honra (hoje destinada aos televisores de plasma), não tivesse esse livro. E olha que não estou falando da Bíblia. Percebeu?
Elenilson Nascimento

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