quinta-feira, 10 de setembro de 2009


Então será esse, caro leitor, o verdadeiro motivo que o levou a procurar este livro na livraria mais próxima? A comprá-lo e a lê-lo com uma certa curiosidade mórbida – ou talvez ojeriza? Agradeço-lhe antecipadamente o voto de confiança nessas minhas linhas tortas. O nome do autor é verdadeiro. Eu acho. A proposta desse livro de nome incomum tem que vender, caso contrário não terei outras chances. Eu acho. Não encontrei melhor solução para o título. Fui tentado (com os meus demônios) por outros, mas desisti no meio do caminho. Talvez não vendesse tanto quanto o daquele garotinho numa vassoura de bruxo – o que seria bem pior para esse autor, como também talvez venha a vender um pouquinho de quilômetros de livros, mesmo com o fechamento de dezenas de livrarias nos últimos anos e com a comprovada falta de hábito de leitura dos brasileiros. Será que talvez me falte imaginação para compor uma grande obra? Falta-me talento para convencer leitores desavisa-dos vendendo sonhos pela TV? Faltam-me as palavras certas? Dou-lhe o direito à resposta. Você chegou até aqui. Cálculo. A duras penas. Então, meus parabéns. Suas pernas podem até estar meio trôpegas e sinalizam muito cansaço. Pergunto-me: será que seus olhos obnubilados compreendem as segundas, terceiras e quartas intenções que se escancaram de pernas abertas e dedos espatulados a cada página desse livro? Duvido muito. Não estou usufruindo de conselhos. Arrefeço. Mas tudo ainda vale a pena, já dizia o poeta.
SEARA DE ÓTIMOS POETAS
"Esse livro de poemas é som de vida feito de versos, som de vivências rumiadas lentamente e estudadas." Por Leila Alberte Picenti
Elenilson Nascimento tem uma apaixonante existência inçada com as mais diversas vivências e, dessa forma, acabou de reunir nessa nova antologia “Poemas de Mil Compassos” uma seara de ótimos poetas. E nesta sua existência professoral, ele que em sim já é uma verdadeira personagem literária, começou a divulgar a sua humanidade criativa através de poemas e outras muitas matérias literárias. “É a noite já é só um bar de bargos banhados em vómitos de brande com o sexo acobilhado nos sujos lenços de um motel de estrada.”E agora chega-nos está nova antologia poética com 51 nomes "detrás das palavras". Esse livro de poemas é som de vida feito de versos, som vivências rumiadas lentamente e estudadas. Nós, os que vamos estar com ele (o livro), a sua poesia sugestiva e abacial, vamo-la deglutir escutando os versos desses poetas e mil compassos nas páginas desse livro. “Olhando a sua parcimónia leitora no repasto demorado dos seus versos, vamos todos amigos, conhecidos e desconhecidos sentirmo-nos plenos em tam grata companha, entretanto alimentamos a nossa imaginaçom. Para todos e todas aqueles que nom podam disfrutar com a presença grata do poeta, convido-os a adentrarem-se demoradamente polos sulcos do livro enquanto deixam voar o seu coraçom polos quatro cantos da humanidade verdadeira.”
REINO DAS LINHAS TORTAS
“Atenta-vos, nobres cavalheiros das letras, nesse reino das linhas tortas, pois escrever no Brasil é uma verdadeira arte de guerra com direito a táticas e estratégias diversas para que se alcance o público alvo: o leitor! Não falo apenas das dificuldades de se adentrar no universo dos (quase) analfabetos funcionais, que não cultivam o hábito da leitura por pura ignorância. Refiro-me justamente ao sistema que cria, fomenta e perpetua a multidão dos incultos letrados portadores de diplomas, com vistas a própria manutenção da estrutura de poder existente dentro da sociedade. Inútil e insano esperar por qualquer medida inovadora vinda das políticas educacionais empreendidas na esfera estatal. Resistir, sim, por meio das ações coletivas, da união de esforços de nós escritores capazes de propagar os ventos revolucionários das letras aos sedentos de cultura.” (Andréia de Oliveira)

Assim como, na Bahia, já fizeram teatro, cinema e literatura sem patrocínio, sem apoio financeiro algum, do jeito que dava, pedindo emprestado, negociando permutas, como quase todo artista brasileiro faz ou fez um dia. Assim, como Glauber, os atores, escritores, dramaturgos e produtores na Bahia (*como em boa parte do Brasil) já puderam experimentar de tudo: ser bem pagos, mal pagos e não pagos. A situação atual, no entanto, não é nenhuma novidade.E como eu confirmei em artigo publicado na revista universitária americana “Emerge Magazine”, neste mês de setembro/09: “Acredito que os “artistas” brasileiros – formadores de opinião – se dobraram a ditadura do “politicamente correto”. Eles se omitem diante das crises desse governo Lula que ajudaram a eleger, além de que, o senhor Lula só não sofreu um impeachment até agora por incompetência da oposição. Os “formadores de opinião” costumam agir em bando.”Infelizes os “mortos” sem sepultura, invisíveis e silenciosos do Brasil ainda não acordaram. E não acordaram porque já estão mortos. Os que têm pátria, semeados em lugar conhecido e seguro, estão sempre à espera e sempre nos dizem coisas quando estamos com vontade de morrer. Agora, confira abaixo uma aula de cidadania com o ator, diretor e poeta baiano Uarlen Becker. Ele também participou dos "Poemas de Mil Compassos" da Coleção Literatura Clandestina/2009.



FOLHAS DO CADERNO DE DEMÔNIO
"Tome essas folhas de meu diário maldito... folhas arrancadas de meu caderno de demônio, de minhas malícias profundas, de meu sonhos mortos, de minha face de vingador, meu abraço letal. Eis minha primavera negra, bandida, alucinada. Aqui expus toda a loucura e o assassinato das quimeras & esperanças. Quem não gostou, que queime-o. A literatura aqui e no mundo necessita de uma transgressão sem limites, um novo hálito, para voltar a viver. Detesto livros que são castelos metafísicos e ilusórios. Quero sentir o cheiro das entranhas, do sangue. Uma bomba de sensações contundentes, toneladas de espasmos. É disso que precisamos para fazer as flores se abrirem mais uma vez..." (trecho do "O Livro de Ouro das Perversões" de IkaRo MaxX)

POEMAS DE MIL COMPASSOS
“Unindo forças através da ARTE, esses poetas mostram aqui que o nosso país ainda tem solução (*tem alguém aí que ainda acredita?), pois nós não fazemos ARTE para adestrar macacos!”Por Elenilson NascimentoA cadeia de preconceitos contra os escritores novos começa com os chamados "intelectuais", que não querem conhecer o trabalho de autores que não têm seus nomes na lista de revistas semanais, e termina no livreiro, que se recusa a comprar e exibir os livros em suas estantes. Sem contar o comportamento da crítica literária deste país, que ignora solenemente autores “iniciantes”, contribuindo assim para que apenas algumas obras sejam "escolhidas".Por isso, precisamos de DIÁLOGOS para as nossas INTERROGAÇÕES, mas a arrogância dos acadêmicos, das editoras e da imprensa não nos deixa mais opções de tenta tirar os nossos GEMIDOS pertinentes de criação de dentro das nossas gavetas (*ou melhor, dos nossos HDs). Hoje, mais do que nunca, temos que acreditar que a ARTE está vulnerável porque se faz inativa por estar sedentária nas prateleiras que exalam cheiro de revistas que alastram apenas fofocas.E aproveitando esse clima de desonra em nosso país, abrem-se as portas para uma revolta (*não mais silenciosa), como já se começa a perceber, com movimentos variados e até com ataques antidemocráticos.Por isso mesmo, de forma independente, o autor baiano Elenilson Nascimento (de “Poemas Perversos Para Cartas de Amor”, “Clandestinos” e outros) reuniu 51 artistas (de diferentes áreas), como Waldick Garrett, Airton Soares, Gaspar Silva, Andréa C Migliacci, Artur Gomes, Corisco (do Bando Virado no Móhi de Coentro), Daniel Matos, a cantora e compositora mineira Érika Machado, IkaRo MaxX, os cantores e compositores baianos Márcio Mello e Tonho Matéria, Paola Benevides, Uarlen Becker e outros, que se juntaram em torno da Poesia e lançaram esse livro “Poemas de Mil Compassos”. Além das poesias, o livro traz trechos de entrevistas com os participantes da antologia, com suas indignações, suas verves, seus desaforos e seus descontentamentos.
Unindo forças através da ARTE, esses poetas mostram aqui que o nosso país ainda tem solução (*tem alguém aí que ainda acredita?), pois nós não fazemos ARTE para adestrar macacos! A LITERATURA precisa de um sistema mais organizado, precisa de Políticas Públicas que preze pela formação de leitores e ter uma visão mais profissional, porque fazer um livro não é um processo banal. Então, erguei-vos, caros leitores! “Precisamos criar um movimento em que o maior interesse seja a educação para preservação cultural e que esse movimento só existirá se houver um respeito maior a nossa pluralidade.” (Corisco) “Nos escondemos de outros num canto escuro. Beijos plásticos e robóticos, vozes incertas sem energia. Com olhares cadavéricos, fomos tentar um sexo em outro lugar. A noite precisava de mais vermelho. Sua saia curta fazia faíscas na fogueira apagada do meu desejo. Era essa única fonte de luz. De pronto a livrei da calcinha e naveguei a língua na sua fêmea melada. Aquele sabor e os odores secretos escancaravam os segredos da criação divina, mas minha mente e corpo não se enxergavam na escuridão do caminho. A ereção era incompleta. O tesão era incompleto. Eu era metade. Supliquei uma felação fazendo parecer um pedido normal. Quando tocou-me com os lábios e a língua no prepúcio, a luz veio em sua velocidade… De repente as veias pedem mais sangue.” (Cézar Sturba)“ Quando abro os livros para ler, sempre me deparo com autores brancos me dizendo o caminho onde tenho que seguir e esses caminhos foram descobertos pelas mãos negras, então a faculdade também nos oculta e não nos deixa reafirmar os nossos destinos. Venho percebendo isto desde a primeira série escolar, onde não conhecemos de fato a nossa História.” (Tonho Matéria)
Baixe AQUI também o CD “Poemas de Mil Compassos Vol. 1”, com vários poemas recitados pelos artistas e muitos bônus tracks.

“Ao terminar de ler a apresentação do livro “Poemas de Mil Compassos”, suspirei, retornei a capa e acariciei pensativa por alguns instantes esse tesouro. Anotei, na hora dentro do trem, essas ideias, pois não poderia deixá-las fugir, com o meu suspiro incontido! Sei que pode parecer imaturo, ainda não li o livro todo, mas penso que o livro organizado por Elenilson Nascimento, vai até a página 34, numa apresentação esplêndida, surpreendente e inovadora. Esse é o livro, até a página 34. O que é escrito posterior a essa maravilhosa e enriquecedora exposição da finalidade e dos aspectos que são relevantes na literatura verdadeira é a coletânea que enriquece e confirma os pensamentos expostos de maneira decidida as ideias de um escritor que não tem medo da crítica e não escreve para agradar, embora agrade a muitos. Elenilson Nascimento é comprometido com fazer história, marcar a trajetória, iluminar magistralmente a notoriedade de escritor, não por vender somente, mas, principalmente, por dizer ao mundo a importância em ser fiel aos princípios do verdadeiro poeta. Parabéns mestre! Obrigada por suas palavras de sabedoria e despertamento literário!” (Inês Pereira)




abertura 1
1. é louco ser solene.é lúcido ser louco!
2. se tenho, como última morada
o som caleidoscópico da vida
carrego matrizes, almas sombreadas.
3. meu coração de cavalo, meu ato de terra
surrado dos demônios, ímpio em desvario.
4. quando surgi de mim, fiquei varrido.
e meu estado de coisa correu solto!
5. qualquer ambigüidade tem um tônus
que corta toda a alma pelo avesso!
6. a dor fecunda das hostes:
vou retomar meus laços com a vida.
romério rômulo

COLLOR NA ACADEMIA

Não fiquei estarrecido com a eleição do senador Fernando Collor de Melo para a cadeira 20 da Academia Alagoana de Letras, no último dia 2. E por um motivo muito simples. As academias, no geral, são ecos desavergonhados da política literária. Jamais da boa literatura. Não existe nada mais conservador em termos de instituição cultural. O que se pratica é a bajulação descarada em casos como esse. O ex-presidente nunca publicou um livro. Apenas artigos nos jornais de sua propriedade (ele é um tubarão do ramo em Alagoas) e noutros por aí. As academias caem no descrédito por conta de atos dessa natureza. Reconheço que existem grandes escritores em muitas academias. Inclusive na ABL. No entanto, coisas desse tipo nos fazem pensar muitas vezes acerca da necessidade da existência das academias.

Lau Siqueira http://poesia-sim-poesia.blogspot.com/

ENTREVISTA COM ELENILSON PARA A EMERGE MAGAZINE
"Eu acredito que os “artistas” brasileiros – formadores de opinião – se dobraram a ditadura do “politicamente correto”.

Eles se omitem diante das crises desse governo Lula que ajudaram a eleger, além de que, o senhor Lula só não sofreu um impeachment até agora por incompetência da oposição. Os “formadores de opinião” costumam agir em bando." Em artigo publicado na revista universitária americana “Emerge Magazine”, neste mês de setembro/09, o escritor brasileiro Elenilson Nascimento, natural da Bahia, diz que a Internet vive o "paradoxo Tostines".

Segundo o autor, a rede mundial de computadores não dá lucro à grande maioria dos usuários porque é muito nova, e/ou por ser muito nova aqueles que realmente se beneficiam com todo o potencial da rede são os próprios criadores de programas. Numa reportagem de cinco páginas, a revista cita os últimos trabalhos de Elenilson, como o recém-publicado livro “Poemas de Mil Compassos”, organizado pelo autor em parceria com 51 poetas, o próximo lançamento “Memórias de um Herege Compulsivo”, seus desafetos com relação ao processo criativo da sua literatura, sua ojeriza contra às instituições do governo do seu país e contra a Igreja e, principalmente, os descalabros cometidos em nome da educação.

A sala na Universidade Federal do Estado de Minas Gerais, onde o autor faz um curso de mestrado, está vazia. A luz baixa cairia bem numa cena melancólica ou dramática, mas não é disso que se trata. Elenilson começa a falar com os seus olhos escondidos atrás de um óculos quadrado e mãos. Ele usa muito as mãos. Mas talvez de nada valha dizer isso, o mínimo que se pede de um escritor é que seja expressivo. Então é preciso registrar que ele não demonstra a afetação ou estrelismo que, vá lá, poderia ter acumulado com os seus cinco livros publicados. E, como que quisesse pontuar a entrevista, diz que todas as suas "coisas" publicadas foram sem incentivos governamentais e sem apoio de nenhuma editora, em bom “baianês”. Isso talvez por saber, “desde sempre”, que não há sucesso sem fracasso permanente. E é o que o faz político e centrado. Abaixo trechos da entrevista feita por Márcio Domenes sobre o último trabalho do rapaz.

M. Domenes – Como surgiu a ideia do projeto (ideia/finalidade/parceria com a editora) dos “Poemas de Mil Compassos”?

E. Nascimento – Em 2006, também de forma independente, organizei dois livros: Poemas Dispersos e Contos Perversos que foram lançados pela CBJE. Um desses livros caiu na mão do dono do Clube de Autores que entrou em contato e me convidou para organizar mais alguns. A minha resposta, a princípio, foi um “NÃO” bem grande, porque na época tive muita dor de cabeça por total falta de compromisso de alguns autores. Mas, gostei da ideia porque me daria à oportunidade de conhecer outras pessoas bacanas. Mesmo achando que esse meio é um porre, cheio de seres de egos inflamados e coisa e tal.

M. Domenes – Como foi feito o processo de seleção dos autores inscritos?

E. Nascimento – A princípio, o que foi sugerido foi eu gastar o meu precioso tempo garimpando cabeças na Internet. Fora de cogitação. Pois não tinha como eu saber sobre o caráter de ninguém. E isso pra mim é o mais importante. Então, sugeri a editora que me deixasse convocar pessoas que eu já conhecia ligadas às artes, independentes de serem autores. Resultado: recebi muitos nãos, mas também recebi o apoio de gente que eu nem imaginaria um dia trabalhar. Como é o caso do Marcio Mello, Corisco, Tonho Matéria, Artur Gomes, Érika Machado e o Waldick Garrett. Uma delícia!

M. Domenes – Como será distribuído o material e a finalidade principal?

E. Nascimento – Infelizmente, como essas antologias têm poucas vendagens e o que mais interessa aos editores são vendas, caso contrário, eles não sobrevivem, o livro ficará no site e quem quiser que entre lá e compre o seu. Porém, o meu interesse maior é formar um grupo forte de artistas para se ajudar mutuamente. Coisa que anda faltando no meio literário e acadêmico. Lembra o que aconteceu na Semana de 22? Pois eu acredito naquilo tudo (*apesar que todos ali eram elitistas). Eu acredito em fadas, acredito em fadas, acredito em fadas... Eu acredito nas artes rapaz!

M. Domenes – Qual a sua visão sobre a importância de um projeto dessa natureza e com que olhos você vê o meio literário?

E. Nascimento – Cada país, cada povo, tem os representantes que merece. Uma das coisas mais comuns de ouvirmos do senso comum em relação ao universo político, educacional e artístico brasileiro é a máxima de que aqui só há corruptos. A frase é ilustrativa do quanto o brasileiro exime-se quando se trata de assumir as responsabilidades pelas mazelas nacionais, pela educação ruim e pela cultura de quinta que produzimos. Falamos como se Brasil, em especial o Distrito Federal, fosse uma terra maligna fértil de onde brotam espontaneamente políticos nada dignos e sempre dispostos a corromperem e serem corrompidos. Ora, o que há de bom e de ruim aqui no Brasil é nada menos que o produto da exportação de todos os estados do país, de todos os eleitores brasileiros. Brasília, por exemplo, tem o que nós, como cidadãos e eleitores, enviamos das urnas para lá. Eu acredito que os “artistas” brasileiros – formadores de opinião – se dobraram a ditadura do “politicamente correto”. Eles se omitem diante das crises desse governo patife do “nada sei” do Lula que ajudaram a eleger, além de que, o senhor Lula só não sofreu um impeachment até agora por incompetência da oposição. Os “formadores de opinião” costumam agir em bando. Eles só querem sempre ser “bonzinhos”, “de esquerda”, “do bem” – e, muitas vezes, nem refletem sobre o que estão dizendo. O nosso meio literário é cheio de acadêmicos e estrelinhas metrosexuais, ou seja, tudo isso é deprimente.É muito mais interessante você consumir leitura de blogs espalhados na rede do que só comprar livros de listinhas produzidas por revistas semanais. É preciso com urgência promover amplamente, desde a primeira infância, a leitura de livros de literatura, criando as condições necessárias para o contato contínuo do público infantil e juvenil com o universo literário. É possível sim transformar o Brasil em um país de leitores. O que entendemos por um país de leitores e o que esperamos dele. O problema é como fazer para que as ações existentes de promoção da leitura possam convergir para uma atuação conjunta na construção de um país leitor? Já foi provado que oficinas literárias são necessárias para agregar técnica ao talento de um escritor. Essa troca de experiências é essencial para a formação de qualquer aspirante a literato. Mas a mídia reduz a nossa literatura em segmentos de mercado. O leitor deixa de existir em detrimento da lógica do consumo. O grande drama do jornalismo literário e da própria literatura no Brasil é que jamais se tentou criar um mercado de leitores no país. Daí a pergunta: para quem se dirige os livros produzidos? País com baixa densidade de leitores, o mundo literário não passa de uma ficção, de terreno para viagens egocêntricas.

M. Domenes – Qual é seu papel na literatura (enquanto escritor e mentor do projeto dos “Poemas de Mil Compassos”)?

E. Nascimento – Sabe-se que a maior dificuldade dos autores (de sempre) é despertar o interesse do leitor e fazê-lo ler um texto integralmente. O que chama muito atenção é a falta de criatividade e de profissionais de talento para inventar novos atrativos. Muitos autores acabam recorrendo a modelos que já inspiram sucesso em outros canais, sejam eles nacionais ou internacionais. Por onde anda a criatividade literária brasileira tão difundida nas TVs? O público merece uma atençãozinha maior e trabalhos de qualidade e inovadores. Quem sai ganhando, além das editoras com um livro desaforado e instigante, são os leitores, que hoje infelizmente passam boa parte de suas vidas à frente dos aparelhos de tevê. Na maior parte do tempo, com um desejo incontrolável de mudar de canal. E o que seria o melhor para literatura brasileira? No Brasil, os livros se transformaram em moeda de rápida circulação. As editoras criam novidades a cada mês para alimentar sua própria sobrevivência. Raramente relançam seus livros essenciais, que parecem não vender. Estaria neste fato a origem do surgimento de escritores como Chico Buarque, Paulo “imortal” Coelho, Dan Brown, Jô Soares (*os livros do cara são péssimos) e por aí vai a lista? Esses “caras” devem permanecer na história como excelentes autores ou como excelentes produtos? Realmente eles são moedas rápidas e seguras? O que seria “A SUPERFICIALIDADE DO BRASIL PROFUNDO”, além dos projetos mais “ambiciosos” do jornalismo da Rede Globo em 2006: a “Caravana do Jornal Nacional”, “BBBs”, aquela “coisa” que eles chamaram de série “Desejos do Brasil”, que tão bem você criticou em suas crônicas, e recentemente a cobertura das Olimpíadas com o Galvão Bueno berrando de Pequim? Eu tenho a obrigação de ter muito mais a dizer do que todos esses caras juntos. Os mais nostálgicos relembram os tempos da crítica de rodapé, os suplementos literários e os cadernos de livros de fim de semana. Todas essas janelas de exposição e reflexão crítica sobre a produção literária desapareceram no Brasil a partir dos anos 80.

Praticamente os jornais aboliram ou reduziram drasticamente o espaço para a publicação de resenhas de livros, e cessaram de pagar os autores das resenhas. A situação é tão grave que a credibilidade das resenhas publicadas caiu aos níveis mais baixos, já que quase sempre os comentários e críticas estampados nos jornais foram previamente encomendados e pagos pela editora, ou pelo autor. Neste quadro, em que se reduziu ao mínimo o espaço de publicação, mesmo as resenhas de alguns jornais, que ainda contratam resenhistas, pecam pela superficialidade e sectarismo. A revista Veja e o jornal Folha de São Paulo, por exemplo, trabalham com um enorme ressentimento em relação à produção cultural brasileira, e a literatura em particular. Preferem a abertura de espaço para autores estrangeiros e para a sedução da indústria cultural, que se debruçar com honestidade sobre os livros de autores brasileiros. Como a indústria editorial é omissa na questão da publicidade, sempre agindo com extrema timidez ou se eximindo completamente, os jornais, por sua natureza empresarial, tratam o espaço literário com extremo solipsismo e um perverso voluntarismo. O solipsismo está na preferência de editoras e autores com capacidade de auto-promoção. O voluntarismo vem da pouca idade e da pouca experiência dos jornalistas, que no afã de ser moderno e antenado acabam perfilando a velha e desbotada igrejinha. No meio do jornalismo cultural há mais igrejas que no mundo da religião. Você já leu as coisas de um tal de Elenilson Nascimento? O cara é massa! E de Airton Soares, Daniel Matos, Andréa C Migliacci, IkaRo MaxX e Maurício Zerk?

Pois todos eles estão produzindo e também estão nesse livro que eu organizei: Poemas de Mil Compassos. O livro, mesmo nos momentos em que a literatura foi tratada com desconfiança e os escritores mandados à prisão ou ao exílio, sempre foi cultuado como instrumento abstrato de cultura e tratado como objeto de veneração. O resultado desse exagerado respeito pelo livro, ao contrário do que se deveria esperar, não foi o aumento do número de leitores. Os bons sentimentos pelo livro não passavam de cortina de fumaça para encobrir ações que promoviam arraigados preconceitos culturais e certa visão extremamente frívola do ato de escrever e publicar livros. Enquanto em certos países o livro ganhava a condição de produto vendável, de mercadoria, com a conseqüente formação de mercados literários, na América Latina o fenômeno se limitava - e apenas em alguns momentos e em algumas contingências - a certos países maiores, dominando a idéia de que a um homem de letras era vergonhoso e impróprio obter remuneração por seu trabalho literário. Assim, no lugar do livro como produto comercial, institucionalizou-se o livro como capital social. Ou seja, não se escrevia para os leitores que compram nas livrarias, mas para constar de um currículo capaz de servir de lastro nas negociações sociais. Num quadro como este, o jornalismo literário não poderia ter outra função que sustentar as ilusões. Eu tenho a obrigação de gritar sobre essas merdas todas. Sobre as minhas frustrações que são muito mais comuns do que o Paulo Coelho possa imaginar. Mas as editoras ainda preferem publicar o Fábio “chatinho” de Mello.

M. Domenes – Fale um pouco de seu trabalho literário e qual a razão que te motiva a escrever. Qual é seu objetivo enquanto escritor e qual a mensagem que pretende passar com seus escritos?

E. Nascimento – Falar de mim! Não tenho problemas com relação a isso. Sou ex-professor. Abandonei a educação por ela ter virado uma piada. Uma coisa muito interessante com relação aos professores é que eles “adoram” dizer que “amam” Marx, Paulo Freire e por aí vai. Muitas vezes não se deram nem ao trabalho de ler uma única página, mas amam assim mesmo. Como também já foi colocado na revista Veja (*e olha que eu não gosto dessa revista): “...é embaraçoso que o marxismo sobreviva apenas em Cuba, na Coréia do Norte e nas salas de aulas brasileiras”.

Repeti “frases de pára-choque de caminhão” aprendidas nas universidades é muito mais fácil do que “estudar de verdade” e “ler de verdade” grandes autores. Por isso, conversar com muitos professores é uma das experiências mais ridículas para mim, pois é numa reunião de coordenação onde se manifesta a ignorância e o pedantismo. Então, qual seria o verdadeiro exercício “intelectual” entre esses “intelectuais” de quadro e giz? Por isso larguei essa porra de educação. Perda de tempo. Hoje, sou contista, poeta, escritor ainda não conhecido, mas estou trabalhando para isso. É isso que eu acredito.

Sou graduado em Letras e Jornalismo, com especialização em Metodologia do Ensino e mestrando na área de Comunicação, mas até hoje me pergunto para que me servem esses títulos. Pois as universidades não me acrescentaram em nada. Já participei de várias antologias pelo país, fiquei em 1º Lugar no I Concurso de Literatura Virtual (Litteris), classificado no II Prêmio Literário Livraria Asabeça 2003 e Menção Honrosa no IV Concurso Internacional de Poesias, em Cuba.

Em 2001, tive o meu nome incluso no Dicionário Biobibliografico dos Escritores Brasileiros, mesmo sem ter publicado um único livro homônimo. Sou autor de Palavras Faladas Fadadas Palavras (2002), Eu, Tu e Todos no Mundo (2004), Diálogos Inesperados Sobre Dificuldades Domadas (2005), Olhos Vermelhos – Crônicas Indesejadas num Lento (e Inútil) Mergulho em Direção ao Nada no País dos Bruzundangas e Outros Escritos (2006), Poemas Perversos Para Cartas de Amor (2007), Memórias de um Herege Compulsivo (2009), Clandestinos (na gaveta), além de ter tido o conto “O Vendedor de Picolé que Amava Capitu” (2007) vencedor e publicado através de um concurso literário e dez dos seus poemas reeditados numa antologia pelo Projeto Livro Vivo/Prêmio de Revelação 2009, intitulada Dez Poemas em um Suspiro, e experimentei dessa dor de fazer o novo diante de uma vanguarda feita de elite e de passado. E, dessa forma, acabei me sentindo como um arrombador de uma porta decrepta, senil e velhaca.

Recentemente, recebi um prêmio num concurso literário promovido por importante entidade de escritores em Minas Gerais pelo conto “Todo Mundo Amplia a Paranóia Que Cria”. E, como não bastasse, o conto, agora laureado, virou também uma peça – “À Beira do Precipício”, que foi encenada pela Cia. Independente de Teatro, em agosto de 2008. Atualmente, escrevo o meu segundo romance, Os Enforcados (sem previsão de publicação, pois ainda não sou um escritor com nome nos grandes meios de comunicação que possa ser utilizado como isenção no imposto de renda), que não foge a regra dos meus outros trabalhos.

Além disso, Os Enforcados tem um charme extra, já que parece ser um livro com vários outros livros dentro. Esse livro conta a história de Neguinho del Rio, o protagonista, o jornalista, um negro como tantos outros, um enfant terrible que tem toda a miséria e caoticidade interior do mundo, mas é um verdadeiro gentleman. No início da história, ele está começando a trabalhar no jornal Diário do Comércio e tentando escrever sua primeira matéria importante sobre o “julgamento do século” de Saddam, acaba casando com uma garota francesa chamada Virginie para se autoafirmar (como normalmente os negros no Brasil o fazem), mas tem um caso quente com a mulata Emanuelle, além de uma amizade perigosa com Tito Madi e de ser constantemente boicotado pelo próprio chefe, o Abelardo Matarazzo. Esse meu novo livro vai falar sobre os contrastes de uma Salvador cheia de problemas e preconceitos; sobre a relação da polícia e a periferia; sobre o bandido Peixe Frito; sobre as periferias, favelas, principalmente sobre a Baixa do Manu. E sobre a farsa que é o Carnaval e todas as desigualdades sociais e injustiças que não são mostradas nos meios de comunicação. Haja meta-linguagem! Os Enforcados também vai está cheio de pés biográficos usados para apresentar novos personagens ou explicar situações que aconteceram no passado. Por tanto, eu uso a minha “catapulta” para espalhar flechas contra essa maré de alienação que aí impera – tirando poeira das nossas valiosas estantes e gritando contra a massificação, pois ainda sinto que muitas vezes cortam-me as tripas, metralham todo o meu corpo, estraçalham meu coração, podam meus desejos, toldam meus sentimentos e tiram até o meu direito de pensar. Mas, só a poesia tem o poder hipnotizante de acalmar a alma, coisa que nenhum crítico “acadêmico” aplicadíssimo poderia explicar. Eu entendo tudo isso. Nesse meio, cada um está tentando ser mais “in” do que o outro. É muito bom não termos só a velha guarda, sempre devemos descobrir as cabeças novas e promissoras.

fonte: Emerge Magazine

Caríssimos, saudações!
O CPC, Centro de Preservação do Centro, fundado em 2006, retomou as suas atividades!
E informamos que tivemos o nosso primeiro projeto contemplado pela Caixa Cultural. Trata-se um pequeno festival de teatro a ser realizado em Campos pelo CPC em abril de 2010, com patrocínio da Caixa.
É uma pequena vitória que conseguimos, que porém nos fortalece e indica que estamos no caminho certo!
Para quem quiser acessar, o resultado da seleção do projeto está disponível em:
http://www.caixacultural.com.br/html/main.html.
Também estamos com um blog que fala um pouco dos projetos desenvolvidos pelo CPC. Para quem quiser conhecer um pouco do trabalho, acesse http://www.centrodepreservacaodocentro.blogspot.com/.
Esperamos vocês! Acreditamos na união.
Abraços a todos,
Daniela Passos

Nenhum comentário:

CAMPOS DOS GOYTACAZES

Quem sou eu

Minha foto
meu coração marçal tupã sangra tupi e rock and roll meu sangue tupiniquim em corpo tupinambá samba jongo maculelê maracatu boi bumbá a veia de curumim é coca cola e guaraná