terça-feira, 29 de setembro de 2009







Artaud
O Julgamento
1992 / 2009

Direção e Interpretação
Adeilton Lima

Projeto para Circulação
Myriam Muniz/FUNARTE
10 apresentações em Brasília e cidades satélites do DF

Adeilton Lima
(61) 3037-9384/9239-9644
adeiltonator@hotmail.com
Apresentação/justificativa

Há vinte anos demos início a uma pesquisa sobre a formação do ator no teatro contemporâneo, tanto no que se refere aos elementos teóricos, técnicos e artísticos, quanto à sua importância sócio-cultural. Fundamentada nas propostas de Antonin Artaud, Jerzy Grotowski e Eugenio Barba, a pesquisa até aqui resultou nos espetáculos Quintanares, sobre a obra de Mário Quintana, Diário de um Louco, de Nicolai Gogol, e no exercício cênico Para Acabar com o Julgamento de Deus, de Antonin Artaud. Os três espetáculos são etapas de um processo de investigação sobre os elementos que compõem a presença cênica do ator, tanto em seus aspectos físicos como mentais. A formalização destes recursos configura um conjunto de ações físicas cujo discurso em cena presta-se a uma dramatização fundamentada no elemento mais básico da teatralidade: o organismo do performer.

A proposta que ora apresentamos dá continuidade a esse processo, cujo objetivo fundamental visa tanto ao amadurecimento das idéias até aqui trabalhadas como ao estabelecimento de novos parâmetros para a sua aplicação. Nossas investigações têm se voltado exclusivamente para os elementos essenciais da natureza do fenômeno teatral, em cujo centro está o ator com seu material orgânico formando um conjunto de sons, gestos e movimentos capazes de arrebatar o espectador para dimensões absolutamente distantes dos referenciais impostos pelo racionalismo que dominou todo o século XX.
A relevância desta proposta estende-se não apenas ao debate necessário sobre os caminhos da arte contemporânea, às possibilidades de descobertas e redescobertas de elementos culturais universais que fundamentam o trabalho do ator, mas também ao enriquecimento teórico e técnico que se deve exigir de um pesquisador da área teatral. As principais questões concernentes à nossa proposta estão em sintonia com as mudanças de paradigmas que enfrentamos neste novo milênio; dialogar e refletir sobre elas deve ser preocupação constante dos que promovem os bens culturais.

Objetivos
Dar continuidade à pesquisa sobre o trabalho do ator, segundo o pensamento de Artaud;
Promover debates sobre a obra de Antonin Artaud, destacando sua atualidade;
Investigar as propostas do Surrealismo;
Identificar as influências das idéias de Artaud no teatro contemporâneo e brasileiro.

Figurino
Uma calça de tecido algodão.

Adereços
Uma bacia, um colar indígena, uma travessa de barro, uma placa de metal, de 1metro por 50 centímetros, uma bacia, um sino e um tambor.

Cenário
Um círculo de areia com 2 metros de diâmetro.
Elementos
Fogo, colocado sobre uma placa de metal, utilizando-se álcool.
Bacia com água.

Ficha técnica:
Ator e diretor: Adeilton Lima
Iluminador: Eduardo Fernandes
Duração: 1h
Faixa etária: 16 anos
Tempo para montagem: 24h antes
Tempo para desmontagem: 2h








DIÁRIO DE UM LOUCO
Nicolai Gogol

INTERPRETAÇÃO
ADEILTON LIMA
DIREÇÃO
CESÁRIO AUGUSTO
ADAPTAÇÃO
RUBEM ROCHA FILHO
BRASÍLIA – DF
2009
Projeto

(61) 3037 9384 / 9239 9644
adeiltonator@hotmail.com

1 Texto

Publicado originalmente na coletânea Arabescos (1835), o conto Diário de Um Louco de Nicolai Gógol (1809-1852) relata em forma de diário a vida de Popristchin, um funcionário público subalterno que vê seus sonhos de ascensão social esbarrarem no sistema corrupto e paternalista da burocracia russa czarista. À medida que registra suas impressões da atmosfera opressora da repartição pública, caracterizada pelo desprezo do chefe e a zombaria dos colegas, o personagem acaba por documentar aos poucos o próprio processo de enlouquecimento, que atinge seu paroxismo quando, julgando resolver o conflito em torno da sucessão da coroa espanhola do qual tomara conhecimento pelos jornais, Popristchin declara-se rei e é internado em um hospício. Denunciando a ilusão dos valores de uma sociedade agonizante, o conto projeta-se cruelmente até nossos dias, dando exemplo da modernidade de Gógol, considerado por muitos críticos como o pai da literatura realista russa, cuja obra causou profunda influência na formação de grandes escritores como Dostoiévski, Tolstói, Tchekhov e Górki.

Devido ao seu potencial dramático, caracterizado pela maneira dialógica com que mostra a alienação do homem moderno em sua busca de identidade nas convenções sociais, no olhar do outro, o conto foi adaptado para o teatro francês por Silvie Luneau e Roger Coggio e encenado no Brasil por Ivan Albuquerque, em 1964, tendo Rubens Corrêa no papel de Popristchin. Recentemente, foi montado por Diogo Vilela e apresentado em diversas capitais do Brasil. Na versão que ora propomos, valemo-nos do texto adaptado pelo ator e diretor pernambucano Rubem Rocha Filho, que traz para a realidade brasileira o delírio tragicômico da personagem russa, personificada por Akaki Akakiévitch “Poprichin”, numa junção e referência a outro personagem fundamental de Gogol do conto O Capote.

2. A encenação

No espetáculo, procurou-se dar continuidade a um trabalho de investigação sobre linguagem teatral iniciado há cinco anos com os espetáculos Para Acabar com o Julgamento de Deus, de Antonin Artaud e O Poeta Vivo – Quintanares, a partir de textos de Mário Quintana. A proposta básica consiste em explorar a interpretação a partir dos recursos elementares sugeridos por gestos, movimentos, sons e ritmos oriundos das potencialidades orgânicas do ator. Posteriormente, a formalização destes recursos configurou um conjunto de ações físicas cujo discurso em cena presta-se a uma leitura da obra matizada exclusivamente no elemento mais básico da teatralidade: o organismo do performer.

A montagem procurou romper com uma linha naturalista de encenação, buscando resgatar e explorar o imaginário humano. O espetáculo é composto de cenas no quarto, na repartição pública onde trabalha o personagem, na rua e finalmente no hospício, onde acaba confinado. Faz-se assim a junção das unidades de tempo, espaço e ação, presentificando todo o delírio das situações narradas por Antonino. É a exploração em detalhes de todos os elementos de dramaticidade do texto. A idéia é poder passar, constantemente, porém não de forma gratuita para o espectador, elementos que caracterizam o calabouço social e existencial em que vive o personagem.

A música do espetáculo é composta por um trecho continuamente repetido de A Sagração da Primavera, do compositor russo Igor Stravinski. O trecho utilizado objetiva marcar o clímax do espetáculo, quando o personagem, em seu processo de enlouquecimento, reclama para si o título de herdeiro legítimo da coroa espanhola, pondo fim às discussões em torno da conturbada sucessão. Quanto ao figurino, este será composto por um velho paletó.

4. Cenografia

A linha radicalmente anti-naturalista da presente montagem, calcada em uma concepção dramática centrada no potencial orgânico do ator, dispensa qualquer elemento cenográfico, valendo-se mais da imaginação do espectador. O ator compõe um repertório de gestos, movimentos e sons que busca desenvolver tanto a ação narrativa textual quanto o processo psicológico de enlouquecimento do personagem.

5. Palco

As características da presente pesquisa permitem que o espetáculo possa ser apresentado em um palco simples, arena ou italiano. Não há cenário.

6. O Diretor

Possui graduação em Artes Cênicas/habilitação em Interpretação Teatral pela Universidade de Brasília (1995), mestrado em Práticas Teatrais - Leeds Metropolitan University (1997) e doutorado em Práticas Performáticas - University of Exeter (2003). Tanto o mestrado quanto o doutorado foram cursados com bolsa de estudos integral da CAPES/MEC, mediante seleção nacional. Lecionou como professor assistente na Universidade de Brasília-UnB, efetivado por concurso na área de expresão corporal e linguagem do movimento, entre 1997 e 2000 e, na mesma instituição, como pesquisador visitante nível adjunto 1, na área de interpretação teatral, entre agosto de 2003 e março de 2004. Trabalhou como professor concursado na área de interpretação teatral, nível ajunto 1, na Universidade Federal de Santa Maria-UFSM, entre março de 2004 a maio de 2006. Atualmente é professor efetivo, nível adjunto 1, da Universidade Federal do Pará-UFPA, onde leciona e prossegue sua pesquisa sobre o treinamento do ator baseado nas artes marciais asiáticas. Tem experiência na área de teatro, dança, cinema, televisão e dublagem, com ênfase em Interpretação Teatral. Atua assiduamente nos seguintes tópicos: atuação, pesquisa de linguagem, dança, treinamento do ator e adaptação literária.

7. O Ator

Adeilton Lima é graduado em letras pela Universidade de Brasília (1998), onde também concluiu o mestrado em teoria literária (2007), com bolsa da CAPES/MEC. Atualmente, como professor substituto, ministra o curso Oficina de Interpretação, na Faculdade de Comunicação desta mesma universidade. O Ator tem vários trabalhos em teatro, com destaque para A Conferência, de sua autoria, dirigido por Cláudio Chinaski, que também recebeu o prêmio Myriam Muniz de Teatro (FUNARTE/2006); Para Acabar com o Julgamento de Deus, de Antonin Artaud e Diário de um Louco, de Nicolai Gogol, Raízes da Voz, poesia brasileira e universal, recital registrado em CD com o mesmo nome.

Diário de Um Louco – Ficha Técnica
Texto Original: Nicolai Gogol
Adaptação: Rubem Rocha Filho
Interpretação: Adeilton Lima
Música: Igor Stravinski (Trecho de A Sagração da Primavera)
Mixagem: Glauco Maciel
Figurino, iluminação: Adeilton Lima e Cesário Augusto
Operação de luz: Eduardo Fernandes
Duração: 1h
Tempo para montagem: 2h
Tempo para desmontagem: 1h
Faixa Etária: 14 anos


PÃO E CIRCO
Antigamente eu chegava a montar três espetáculos por ano. Ultimamente monto um a cada três. Segundo Yve, quando alguém fica falando do passado é porque está velho. Posso até estar velho, mas não é isso que me faz falar do antigamente. Assim como Paulo, adoro a minha profissão, mas não sinto mais prazer em exercitá-la. Assim como Paulo, dei minha vida ao meu mister... e cansei. Não dá para sentir prazer convivendo com quem não nos ama. Eu amo esta cidade, mas a recíproca não é verdadeira. Não só a mim, mas aos artistas de um modo geral. As reflexões de Adriano sobre o desprazer de ensinar vão ao encontro do contexto cultural em que vivemos. Não por culpa deste ou daquele governo, mas o paradigma neoliberal levou o ser humano ao máximo da comunicação para não se comunicar. E neste contexto a arte não tem vez. Assim como Paulo, nós artistas vivemos uma situação caótica. Estou velho sim, de futuro... Mas persisto.

Estas foram as minhas palavras para o programa da peça “Meu Querido Diário”. Como era de se esperar, dos poucos que a ele tiveram acesso, a maioria não se importou. Uns gostaram, outros se surpreenderam, pois não esperavam que eu fosse capaz de ter esse sentimento com relação à cidade. Alguns outros acharam que eu peguei pesado, que passei recibo. Peguei pesado com quem, com o quê, se a realidade dos fatos só faz corroborar as palavras acima? Se o público pagante foi tão escasso que nem deu pra cobrir as despesas contraídas com a montagem, quanto mais ter lucro? Todo mundo parabe-nizou, elogiou, se ufanou, até, de nos ter como conhecidos. Mas passar na bilheteria do teatro, adquirir seu ingresso e assistir ao espetáculo, que é bom, nada. Disto, a grande maioria dos que se dizem amigos, ou mesmo fãs, não foi capaz. E muitos dos convidados só compareceram depois de muita insistência. E olha que o espetáculo, elogiadíssimo pela crítica, é uma comédia pra lá de hilária.
“O campista pede, mas não quer”, me disse Silvinha Salgado após assisti-lo. É fato! Pedir, para o campista, não passa de uma força de expressão, pois tudo o que realmente quer ele tem. Só que o que ele verdadeiramente tem é que é a questão. Podemos perceber pela felicidade transparente que lota os bares da cidade, dos sofisticados aos periféricos, que o campista está muito satisfeito com o que possui. Que vive qual criança num playground, que adora ser personagem de um teatro de fantoches. Onde o lazer cultural se faz desnecessário, na medida em que fazem de sua vida uma farsa. “Meu Deus, de onde essa gente tira tanta felicidade”, diz em determinado momento o personagem da peça, ao relatar a passagem de um trio elétrico arrastando uma multidão, que mais parece uma fuga em massa num filme catástrofe. Assim fomos acostumados. E prenhes de felicidade entendemos a ida ao teatro como desnecessária. Parece até que aquela campanha “Vá ao teatro” aqui foi cunhada ao contrário.

No último domingo de apresentação da peça, uma professora de um colégio estadual me questionou sobre o que eu havia escrito no programa. Tentava me convencer de que o ato de amar se basta em si. Que amar não precisa, necessariamente, de correspondência, e que educar é um ato de amor. Contrargumentando fiz vê-la que amar sem correspondência é sofrimento e se este sofrer gera prazer é masoquismo. Perguntei-lhe há quanto tempo ela dava aula, ela respondeu-me que há muito e que estava cansada de ir pra sala de aula, que ia obrigada e que não via a hora de se aposentar. Respondi-lhe que a minha situação era idêntica e por isso escrevi o que escrevi, e que após a peça voltaríamos a conversar. Reparei que ela riu muito ao se ver refletida no palco, mas nem participar do debate ela participou. O texto de Adriano provocara-lhe um riso nervoso e quem sabe uma revisão no seu conceito sobre o ato de amar, pois saiu do teatro sem que eu ao menos percebesse.

Até o momento, apenas duas montagens locais inéditas ocorreram este ano na cidade. Enquanto que semanalmente uma enxurrada de espetáculos caça-níqueis, integrados por elencos oriundos de “Zorra Total” ocupa o Trianon, com sucesso de público, é claro. Se é isto que o povo quer, é o que temos que dá-lo, como na velha Roma: pão e circo. “Infelizmente”, quando optei pelo teatro como profissão, o entendi como arte, como um meio de expressar meu sentimento do mundo, e não como uma possibilidade de se ganhar dinheiro através do riso fácil e alienante. O fiz consciente, de que seria a minha tribuna, a minha trincheira e também uma forma de propiciar prazer às pessoas. Mas se não é esta a sua missão, se com ele não posso contribuir para o crescimento da minha aldeia, chego à conclusão tardia de que escolhi a profissão errada. Mas como agora é tarde, persisto.

Antôno Roberto Góis Cavalcanti(Kapi)

segunda-feira, 28 de setembro de 2009





XVII Congresso Brasileiro de Poesia
Bento Gonçalves – Rio Grande do Sul
5 a 10 outubro 2009
As Flores do Mal Me Quer
De Paulo Leminski a Charles Baudelaire
Uma performance onde Artur Gomes( o poeta) encontra no palco Mayara Pasquetti(musa), para mostrarem poemas que falam do amor e todas as suas implicações nas relações humanas. No repertório, poemas do próprio Artur Gomes, Paulo Leminski e Charles Baudelaire.
Artur Gomes e Mayara Pasquetti se conheceram em Bento Gonçalves, em 2006 iniciaram sua parceria no palco com interpretando poemas de Mário Quintana, interligados a textos da peça Retalhos Imortais do SerAfim. Em 2007, se apresentaram na FENAVINHO com o espetáculo A Celebração do Amor Em Estado Vinho e Uva, apresentado também na XVI Edição do Congresso Brasileiro de Poesia em 2008.
Jura Secreta 41

te amo e amor não tem nome
pele ou sobrenome
não adianta chamar
porque ele não vem quando se quer
tem seus próprios códigos e segredos
mas não tenha medo
pode sangrar pode doer
e ferir fundo
mas é razão de estar no mundo
nem que seja por segundo
por um beijo mesmo breve
porque te amo no sol
no sal no mar na neve

Artur Gomes
Nação Goytacá
http://arturgomesvideopoesia.blogspot.com/


A poesia das enxadas em Babilak Bah

Lau Siqueira

Negro. Paraibano. Artista. Um cara com uma carga ancestral imensa. Assim é Babilak Bah. O menino cuja inquietude, um dia, chamou a atenção de José Américo de Almeida. Num dos muitos começos dos anos oitenta, ele me disse: “Vou embora! Vou andar pelo mundo. Vou trabalhar com percussão e poesia!” E lá se foi meu amigo, com seu sorriso sempre tão imenso. Anos depois soube do seu reconhecido trabalho de percussão com enxadas. Uma radicalidade experimental erigindo sonoridades inventivas nos ruídos da capina cotidiana. Uma busca concreta para a feitura de signos musicais que, algumas vezes, transpunham-lhe os sentidos.

Babilak passou, então, a compreender o enigma dele próprio. Dos olhos fixos do menino, encantado com uma biblioteca imensa na casa de José Américo, nascia o diálogo do artista com o mundo. Ele sabia que, independentemente das suas vestes, seus sapatos seriam de palavras. Ainda que muitas vezes caminhasse pelo silêncio. Babilak Bah, com sua transgressão, criou para o universo lúdico dos nossos dias, a poética das enxadas. No simbolismo de quem passou pelos sonhos de uma reforma agrária da sua própria condição quilombola.

Hoje, tudo isso transborda pelos palcos do Brasil. A orquestra de enxadas é a mais intensa procura pela “batida perfeita”, como diria Marcelo D2. Babilak parece dialogar com Arthur Rimbaud, que disse: “Tua memória e teus sentidos serão o único alimento do teu impulso criativo.” Compreendo-o assim. Percebo que o seu talho no destino foi o componente fundamental da formação do artista que é. Tudo numa integralidade que passa necessariamente pela música, pela poesia, pela tecnologia, pela patologia humana e, sobretudo, tão intensamente pela sacudida no esparramo que é a ilusão do conceito fechado sobre as coisas. Na arte de Babilak, navegam vertentes audiovisuais que passam pelo cinema novo e pela nova TV que é o PC nosso de cada um. Ele reconhece o poder das novas mídias e das novas possibilidades de realizar o baile do futurismo primitivo. Tudo isso inscrito numa contemporaneidade que aos poucos vai despertando de si mesma.

Certamente que faço aqui um esforço enorme para não embarcar numa análise da sua obra. Seria, certamente, uma análise de forma fragmentada. Simplesmente porque o trabalho deste artista é um complexo jogo de memória. E tudo ocorre numa área determinada, num plano onde as inflexões mínimas e máximas da sua existência, refletem-se num elo de imagens vivas, pulsantes dentro da sua capacidade de reagir aos infortúnios de uma sociedade prevaricadora da dignidade alheia. Coisa que tantas vezes se reflete até mesmo em leituras que não passam de grossuras da vaidade alheia ou inveja dos que não arriscam a pele no erro. Como dizia James Joyce, “um homem de gênio não comete erros. Seus erros são voluntários e são os portais da descoberta.” Babilak é um artista mergulhado nos “portais da descoberta”.

A arte de Babilak Bah é, portanto, reflexo direto de um conjunto de reações íntimas do artista diante da experiência esmagadoramente bela e ácida que é viver. Do Enxadário ao Trem Tan-tan (trabalho terapêutico de musicalização, com pessoas portadoras de distúrbios mentais), onde seu diálogo é direto com a loucura, num mundo de uma racionalidade absolutamente insana. Preciso dizer que Babilak Bah, hoje radicado no Belo Horizonte das Minas Gerais, realiza um dos trabalhos estéticos mais instigantes neste início de milênio. Misturando as cores dum arco-íris de possibilidades, captado por uma mente que sabe o momento da colheita porque tem suas convicções sobre todos os processos do plantio.

Do simbólico ao sonoro, o trabalho que desaguou no Enxadário tem rodado por aí. Com amplas possibilidades no mercado alternativo europeu. E é exatamente onde deverá conjugar-se com o oceano das suas próprias possibilidades. Tudo exatamente a partir da distância que guarda, solenemente, dos apelos ao senso-comum. Coisa corriqueira em páginas consideradas nobres, muitas vezes, pela miopia cultural à qual resistimos no crematório da inteligência brasileira.

A sua poesia, de tão sólida, parece que não desmancha no ar. Ganha novas formas. Vai acoplando-se aos tempos passados e futuros. E prossegue transmutante de si mesma, viajando pelos véus do invisível. Incorporando saberes. Babilak é um artista que encontrou o seu processo nas ribaltas da própria circunstância. Por isso não subtrai nunca a integralidade das suas matilhas criativas. Vai assim produzindo uma arte madura. Uma arte que transita por universos capacitadores da sua própria condição. É poesia, na plasticidade dos motivos. É música, na medida do que impõe aos rumos da arte contemporânea. É arte... é arte!

P S > Assista Zen Preto, de Babilak Bah, no Youtube:
http://www.youtube.com/watch?v=bYBIj4qUVTQ&feature=related

Lau Siqueira http://lausiqueira.blogspot.com/




JORNADA DE ESTUDOS É A GRANDE NOVIDADE DO XVII CONGRESSO BRASILEIRO DE POESIA
Como tradicionalmente acontece na primeira semana de outubro, mais uma vez a cidade de Bento Gonçalves abrirá suas portas para a caravana de poetas que participarão da décima-sétima edição do Congresso Brasileiro de Poesia, a ser realizada entre os dias 5 e 10.
Tendo como tema “De Baudelaire a Leminski”, em homenagem ao ano da França no Brasil, aproximadamente duzentos poetas dos mais diversos estados brasileiros e de alguns países da América do Sul já confirmaram presença e participarão de uma programação diversificada com muitos recitais, performances, rodas de poesia, espetáculo teatral, palestras nas escolas e debates sobre as diversas formas do fazer poético.
O Congresso traz como grande novidade, a partir desta edição, a realização da Jornada SESC de Estudos de Poesia, que trará a Bento Gonçalves grandes nomes da literatura gaúcha e brasileira. Entre os já confirmados estão Armindo Trevisan, Antonio Cícero, Artur Gomes, Fabrício Carpinejar, Maria Carpi, Airton Ortiz, Os PoETs, Grupo Poesia Simplesmente, Ronaldo Werneck, Sergio Napp, Uili Bergamini, Dilan Camargo, Caio Ritter, Ronald Augusto, Marlon de Almeida e Sidnei Schneider.
As programações dos dois eventos se encontrarão na abertura, segunda-feira, e na noite de sexta-feira, sendo que nos demais dias cada evento terá a sua programação própria. A da Jornada de Estudos, formada por painéis, debates e recitais, acontecerá somente à noite (segunda e sexta no Auditório Santo Antonio, de terça a quinta no Auditório da Escola Bento), enquanto que a do Congresso se desenvolverá em três turnos, na rede escolar do município, repartições públicas, ruas e no auditório do SESC.
Escolas continuam sendo prioridade do evento
Trinta e duas escolas do município participarão do evento deste ano, recebendo os poetas em suas dependências e doze delas deslocarão alunos para participar de atividades que acontecerão nas dependências do SESC. Os poetas também irão ao Presídio Municipal, APAE, Centro de Atenção Psico-Social e ao Hospital Tacchini.
Entre os principais projetos que tradicionalmente compõem a programação oficial do evento destacam-se: “Poesia na vidraça” (que começa a ser executado já na terça-feira, dia 29, e consiste na utilização das vitrines das lojas do centro da cidade para exposição de poemas de autores brasileiros), “Poesia numa hora dessas?” (quando poetas apresentam recitais em repartições públicas e privadas), “Uma idéia tece a outra” (realizado na Biblioteca Municipal e que consiste no ‘empréstimo’ de um poeta a uma turma de alunos), além das tradicionais rodas de poesia na Via del Vino.
Recitais deverão fazer a diferença
Os organizadores mais uma vez apostam na realização de recitais de diversas correntes poéticas para garantir o sucesso dos eventos. Neste ano, dividirão o palco do SESC e de algumas escolas performances poéticos dos estados do Amapá, Pará, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul além de Peru, Chile e Uruguai.
Dentro da programação da Jornada SESC de Estudos de Poesia estão previstos recitais do grupo Os PoETs, Poesia Simplesmente, Telma Scherer e o show Ópera Pampa, com Rodolfo da Costa, Cassiano Farina e Diogo Farina.
Em homenagem ao ano da França no Brasil, o grupo carioca Poesia Simplesmente trará a Bento Gonçalves dois recitais: “Ulalá, c’est si bom, três bien... Tem tupinambá na festa de Rouen!” e “Brasil à francesa: eterna sedução”.
No palco do SESC, além do grupo Poesia Simplesmente, também apresentarão recitais e performances os seguintes poetas: Wilmar Silva e Francisco Napoli, Luiz Edmundo Alves, Renato Gusmão, Marko Andrade, Artur Gomes e May Pasquetti, Dalmo Saraiva, Jiddu Saldanha, Telma da Costa, Piri, Edmilson Santini, Casa do Poeta de Canoas, Tanussi Cardoso e Delayne Brasil, Casa do Poeta de Camaquã, Casa do Poeta Latino-Americano, Confraria Cappaz e Comunidade Poemas à Flor da Pele.
Junto com o XVII Congresso Brasileiro também serão realizados o XVII Encontro Latino-Americano de Casas de Poetas, a XIV Mostra Internacional de Poesia Visual e o XX Salão Internacional de Artes Plásticas do Proyecto Cultural Sur/Brasil.
A abertura oficial dos eventos acontece na tarde de segunda-feira, dia 5, às 17 horas, no Salão Nobre da Prefeitura Municipal. Às 19,30 horas, no Auditório Santo Antônio terão início os trabalhos da Jornada de Estudos, com palestra de Armindo Trevisan e recitais do Grupo Poesia Simplesmente e Os PoETs.
O evento é promovido pela Prefeitura Municipal de Bento Gonçalves, através da Secretaria Municipal de Educação, SESC e é realizado pelo Proyecto Cultural Sur/Brasil. O apoio é da Câmara de Vereadores e Sindilojas.



domingo, 27 de setembro de 2009











Loucos Somos Nós
Lançada na noite de ontem na Taberna D Tutty, a campanha Louco Somos Nós, uma iniciativa da ONG Nação Goytacá, tendo como parceiros a Liga Espírita de Campos que é a mantenedora do referido hospital, a ONG ProBeach Vôllei e a comunidade Overcoming Skate Vídeo.
A Noite começou a ser animada com as performances de Toninho Ferreira, Adriana Medeiros, Hélio Coelho e Artur Gomes. Presente ao evento Cristina Lima, que integra a diretoria da Liga Espírita de Campos, falou sobre a situação atual do hospital, agradeceu a iniciativa, e falou da importância da campanha.
A campanha visa incentivar todos os campistas no sentido de fazer doações de material de limpeza, higiene pessoal e vestuário(roupas usadas), e podem ser entregues a Aline, na Liga Espírita de Campos, Rua das Palmeiras, de segunda a sexta-feira de 8:00 às 12:ooh.
Loucos Somos Nós, prevê ainda posteriormente ações com Arte Cultura e Lazer tendo como público alvo os internos do João Vianna. No mês de outubro já está prevista a realização de um espetáculo como direção de José Sisneiros, com renda destinada ao hospital.
Rock Blues & Poesia
Pós lançamento e detalhamento da campanha Loucos Somos Nós, o Caldeirão começou a ferver na Taberna D Tutty, com apresentação magnética da banda Eixo Nacional, abrindo a noite com uma homenagem ao Luizz Ribeiro. A Eixo Nacional tem em sua formação original Water Klein (guitarra e voz), Betinho (guitarra), Coelho (baixo), Lucas (bateria) e Dudu (vocais).
Com uma performance surpresa do skatista e videomaker Kelvin Klein, a banda incendiou a galera, com sua pegada hardcore e interpretação contagiante de todos os seus integrantes

Avyadores de Volta

Depois da bela atuação da Eixo Nacional, Luizz Ribeiro e sua Avyadores do Brazyl, assumiu o palco para deliro da sua massa de fãs presente na Taberna D Tutty até a madrugada deste domingo. Com uma formação bem diferente das suas últimas aparições na cidade, a banda contagiou desde os seus primeiros acordes até o instante derradeiro com um repertório próprio, que vai do rock ao blues, em sua maioria composições do próprio Luizz Ribeiro, tendo em algumas delas parceiros como, Gil Siqueira, Claudio Kezen, Sérvulo Soto, e o poeta Artur Gomes, que em dois momentos assumiu o microfone para solta a sua Boca do Inferno. Contando também com a participação especial e como sempre eletrizante de Felipe Bense, vocalista da banda Evolução da Espécie.
Avydores do Brazyl incendiou a noite/madrugada com Luizz Ribeiro(guitarra e voz), Álvaro Manhães(guitarra), Gil Siqueira (baixo) e Huguinho(bateria). E para ser encerrada a noite de lançamento da campanha Loucos Somos Nós, contou ainda com a canja de Reubes Pess (guitarra e voz), num dueto com Álvaro Manhães na Guitarra.


























































































Loucos Somos Nós
mais fotos da noite de lançamento da campanha na Taberna D Tutty














































































Loucos Somos Nós
mais fotos da noite de lançamento da campanha na Taberna D Tutty


EM 17 DE OUTUBRO O GRUPO BICHO DE PORCO REAPRESENTA NO TEATRO MUNICIPAL DE CABO FRIO JORNADA SHAKESPEARE

Terror, miséria e paixão na obra de
Willian Shakespeare
SINOPSE Em uma metrópole, um mendigo acompanhado por um fiel escudeiro, entra em um estado de surto e delírio interagindo com a realidade a sua volta e refletindo a própria miséria e abandono através da fala dos principais personagens da obra de William Shakespeare. Duração:1h10min.

MAIORES INFORMAÇÕES

sábado, 26 de setembro de 2009

O teatro e a cultura
Antonin Artaud

Jamais, quando é a própria vida que nos foge, se falou tanto em civilização e em cultura. Há um estranho paralelismo entre essa destruição generalizada da vida, que encontra-se na base da desmoralização atual, e a preocupação com uma cultura que jamais coincidiu com a vida, e que é feita para governar sobre a vida.
Antes de retornar à cultura, observo que o mundo tem fome, e que ele não se preocupa com a cultura; e que é apenas de maneira artificial que se quer dirigir para a cultura pensamentos que estão voltados unicamente para a fome.
O mais urgente não me parece tanto defender uma cultura cuja existência jamais salvou um homem de ter fome e da preocupação de viver melhor, e sim extrair disso que se chama de cultura idéias cuja força viva seja idêntica à da fome.
Nós temos necessidade sobretudo de viver e de acreditar naquilo que nos faz viver e que alguma coisa nos faz viver ¤ e aquilo que sai do misterioso interior de nós mesmos não deve retornar perpetuamente sobre nós mesmos, em uma preocupação grosseiramente digestiva.
Quero dizer que se para todos nós é importante comer, e já, nos é ainda mais importante não desperdiçar nesta única preocupação imediata de comer nossa simples força de ter fome.
Se o signo da época é a confusão, vejo na base dessa confusão uma ruptura entre as coisas e as palavras, as idéias, os signos que são a representação dessas coisas.
Certamente não são sistemas de pensamento que nos faltam; o seu número e as suas contradições caracterizam nossa velha cultura européia e francesa: mas quando é que a vida, a nossa vida, foi afetada por esses sistemas?
Não diria que os sistemas filosóficos são algo que se possa aplicar direta e imediatamente; mas das duas, uma:
Ou esses sistemas estão em nós e somos impregnados por eles a ponto de viver deles, e neste caso o que importam os livros? ou nós não somos impregnados por eles, e neste caso eles não merecem nos fazer viver; e de qualquer forma, que importa seu desaparecimento?
É necessário insistir sobre esta idéia da cultura em ação e que se torna em nós como um novo órgão, uma espécie de segunda respiração: e a civilização é a cultura que se impõe e que rege até mesmo nossas ações mais sutis, é o espírito que se encontra nas coisas; e é de maneira artificial que se separa a civilização da cultura, e que há duas palavras para significar uma única e idêntica ação.
Julgamos um civilizado pelo modo como ele se comporta, e ele pensa da maneira como se comporta; mas já sobre a palavra civilizado existe uma confusão; para todo o mundo, um civilizado culto é um homem esclarecido quanto aos sistemas, e que pensa através de sistemas, de formas, de signos, de representações.
É um monstro em quem se desenvolveu até o absurdo essa faculdade que temos de extrair pensamentos de nossos atos, em vez de identificar nossos atos com nossos pensamentos.
Se falta amplitude à nossa vida, ou seja, se lhe falta uma constante magia, é porque gostamos de observar nossos atos e de perder-nos em considerações sobre as formas sonhadas de nossos atos, em vez de sermos impelidos por eles.
E essa faculdade é exclusivamente humana. Diria mesmo que é essa infecção do humano que nos estraga certas idéias que deveriam permanecer divinas; pois, longe de acreditar no sobrenatural e no divino inventados pelo homem, creio que foi a intervenção milenar do homem que acabou por nos corromper o divino.
Todas as nossas idéias sobre a vida devem ser modificadas, numa época em que nada mais adere à vida. E essa penosa cisão é motivo para que as coisas se vinguem, e a poesia que não está mais em nós e que não conseguimos mais encontrar nas coisas ressurge de repente pelo lado mau das coisas; e jamais se viu tantos crimes, cuja gratuita estranheza só pode ser explicada por nossa impotência em possuir a vida.
Se o teatro existe para permitir que nossos recalques tomem vida, uma espécie de atroz poesia se exprime através de atos bizarros, onde as alterações do fato de viver demonstram que a intensidade da vida permanece intacta, e que bastaria melhor dirigi-la.
Porém, por mais que queiramos a magia, no fundo temos medo de uma vida que se desenvolvesse toda sob o signo da verdadeira magia.
E é assim que nossa ausência enraizada de cultura espanta-se com certas grandiosas anomalias e que, por exemplo, em uma ilha sem nenhum contato com a civilização atual, a simples passagem de um navio, somente com pessoas sadias, pode provocar o aparecimento de doenças desconhecidas nessa ilha, e que são uma especialidade de nossos países: zona, influenza, gripe, reumatismos, sinusite, polinevrite, etc., etc.
Do mesmo modo, se achamos que os negros cheiram mal, ignoramos que para tudo aquilo que não é Europa somos nós, os brancos, que cheiramos mal. E eu diria mesmo que exalamos um odor branco, branco assim como se pode falar de um "mal branco".
Como o ferro aquecido ao branco, pode-se dizer que tudo o que é excessivo é branco; e para um asiático a cor branca tornou-se a insígnia da mais extrema decomposição.
Dito isto, podemos começar a traçar uma idéia da cultura, uma idéia que é antes de tudo um protesto.
Protesto contra o estreitamento insensato que é imposto à idéia de cultura ao se reduzi-la a uma espécie de inconcebível Panteão; o que resulta em uma idolatria da cultura, da mesma maneira que as religiões idólatras colocam deuses em seu Panteão.
Protesto contra a idéia separada que se faz da cultura, como se existisse, de um lado, a cultura, e de outro a vida; e como se a verdadeira cultura não fosse um meio requintado de compreender e de exercer a vida.
Pode-se queimar a biblioteca de Alexandria. Acima e além dos papiros, existem forças: podem nos roubar durante algum tempo a faculdade de reencontrar essas forças, mas não podem suprimir a sua energia. E é bom que muitas das grandes facilidades desapareçam e que certas formas caiam no esquecimento; assim a cultura sem espaço nem tempo contida em nossa capacidade nervosa ressurgirá com uma energia amplificada. E é justo que de tempos em tempos se produzam cataclismas que nos incitem a retornar à natureza, ou seja, a reencontrar a vida. O velho totemismo dos animais, das pedras, dos objetos utilizados para aterrorizar, das vestimentas bestialmente impregnadas, em uma palavra tudo o que serve para captar, dirigir e desviar as forças, é para nós uma coisa morta, da qual sabemos apenas tirar um proveito artístico e estático, um proveito de fruidor e não um proveito de ator.
Ora, o totemismo é ator porque se move, e é feito para atores; e toda verdadeira cultura apoia-se sobre os meios bárbaros e primitivos do totemismo, cuja vida selvagem, ou seja, inteiramente espontânea, quero adorar.
O que nos fez perder a cultura foi nossa idéia ocidental da arte e o proveito que dela tiramos. Arte e cultura não podem andar juntas, contrariamente ao uso que universalmente se tem feito delas!
A verdadeira cultura age por sua exaltação e por sua força, e o ideal europeu da arte visa lançar o espírito em uma atitude separada da força e que assiste à sua exaltação. É uma idéia preguiçosa, inútil, e que engendra, a curto prazo, a morte. Se as múltiplas voltas da Serpente Quetzalcoatl são harmoniosas, é porque elas exprimem o equilíbrio e as curvas de uma força adormecida; e a intensidade das formas está lá unicamente para seduzir e captar a mesma força que, em música, é despertada por um dilacerante teclado.
Os deuses que dormem nos Museus: o deus do Fogo, com seu incensório que recorda o tripé da Inquisição; Tlaloc, um dos múltiplos deuses das águas, com sua muralha de granito verde; a Deusa Mãe das águas, a Deusa Mãe das Flores; a expressão imutável e que soa, debaixo de várias camadas de água, da Deusa com o vestido de jade verde; a expressão arrebatada e bem-aventurada, o rosto crepitando de aromas, onde os átomos de sol dançam em círculos, da Deusa Mãe das Flores; essa espécie de servidão necessária de um mundo onde a pedra se anima porque foi golpeada da maneira correta, o mundo dos civilizados orgânicos, aqueles cujos órgãos vitais também saem de seu repouso, esse mundo humano penetra em nós, participa da dança dos deuses, sem retornar nem olhar para trás, sob pena de se tornar, como nós mesmos, pulverizadas estátuas de sal.
No México, uma vez que se trata do México, não existe arte e as coisas servem. E o mundo está em perpétua exaltação.
À nossa idéia inerte e desinteressada da arte uma cultura autêntica opõe uma idéia mágica e violentamente egoísta, ou seja, interessada. Pois os mexicanos captam o Manas, as forças que dormem em todas as formas, e que não podem surgir de uma contemplação das formas em si mesmas, mas somente de uma identificação mágica com essas formas. E os velhos Tótens estão lá para acelerar a comunicação.
Quando tudo nos leva a dormir, olhando com olhos fixos e conscientes, é duro despertar e olhar as coisas como em um sonho, com olhos que não sabem mais para que servem, e cujo olhar está voltado para dentro.
É assim que nasce a estranha idéia de uma ação desinteressada, mas que é ação de qualquer maneira, e mais violenta por aproximar-se da tentação de repouso.
Toda verdadeira efígie tem sua sombra que a duplica; e a arte surge a partir do momento em que o escultor que modela crê liberar uma espécie de sombra cuja existência atormentará seu repouso.
Como toda cultura mágica que os hieróglifos apropriados estabelecem, o verdadeiro teatro também tem suas sombras; e, de todas as linguagens e de todas as artes, ele é o único que ainda possui sombras que romperam com suas limitações. E podemos dizer que, desde a sua origem, elas não suportaram limitações.
Nossa idéia petrificada do teatro junta-se à nossa idéia petrificada de uma cultura sem sombras, onde, para qualquer lado que se volte nosso espírito, não encontramos senão o vazio, quando de fato o espaço está pleno.
Mas o verdadeiro teatro, porque se move e porque se serve de instrumentos vivos, continua a agitar as sombras onde a vida jamais deixou de existir. O ator que não repete o mesmo gesto duas vezes, mas que faz gestos, se move, e certamente brutaliza as formas, mas por trás dessas formas, e através da sua destruição, encontra aquilo que sobrevive às formas e produz a sua continuação.
O teatro que não está em nada mas que se serve de todas as linguagens: gestos, sons, palavras, fogo, gritos, encontra-se exatamente no ponto em que o espírito tem necessidade de uma linguagem para produzir suas manifestações.
E a fixação do teatro em uma linguagem: palavras escritas, música, luzes, ruídos, indica sua perdição a curto prazo, sendo que a escolha de uma linguagem demonstra o gosto que se tem pelas facilidades dessa linguagem; e o ressecamento da linguagem acompanha a sua limitação.
Para o teatro, como para a cultura, a questão continua sendo nomear e dirigir as sombras: e o teatro, que não se fixa na linguagem nem nas formas, destrói assim as falsas sombras, e ao mesmo tempo prepara o caminho para um outro nascimento de sombras, em volta das quais se incorpora o verdadeiro espetáculo da vida.
Quebrar a linguagem para tocar a vida é fazer ou refazer o teatro; e o importante é não achar que esse ato deve permanecer sagrado, ou seja, reservado. O importante é acreditar que todos podem fazê-lo, e que para tanto é necessária uma preparação.
Isso leva a rejeitar as limitações habituais do homem e os poderes do homem, e a tornar infinitas as fronteiras daquilo que denomina-se a realidade.
É necessário acreditar em um sentido da vida renovado pelo teatro, onde o homem impavidamente torna-se mestre daquilo que ainda não existe, e o faz nascer. E tudo aquilo que não nasceu ainda pode nascer, desde que não nos contentemos em continuar sendo simples órgãos registradores.
Da mesma maneira, quando pronunciamos a palavra vida, é preciso entender que não se trata da vida reconhecida a partir do exterior dos fatos, mas dessa espécie de frágil e fugidio centro em que as formas não tocam. E se ainda existe algo de infernal e de verdadeiramente maldito nestes tempos, é esse demorar-se artisticamente sobre as formas, em vez de ser como os supliciados que são incendiados e fazem sinais de dentro das suas fogueiras.

In Antonin Artaud, Le théâtre et son double, Paris, éditions Gallimard, 1964, págs. 9-18. Tradução de Roberto Mallet.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009


ENTREVISTA COM ELENILSON NASCIMENTO NA GLOBO FM

“Procuro envolver o leitor nas ambiguidades dos comportamentos e das declarações dos personagens. Não escondo tudo de uma forma desleal e inverossímil, como nos contos antigos de autores renomados. Adoro o Nelson Rodrigues, mas só ficar falando de putarias em todos os trabalhos é um pouco chato. Não desmerecendo o trabalho do Nelson, que eu amo.” (E.N.)Baiano, trinta e uns anos (*detesta falar de idade), Elenilson Nascimento está literalmente “no tiro”, com todas as balas no tambor e a arma apontada para você leitor. Ele acaba de lançar o livro de contos “Memórias de um Herege Compulsivo” e a antologia poética em parceria com 51 poetas “Poemas de Mil Compassos”, ambos pela editora Clube dos Autores.
Elenilson já trabalhou em banco, clínica médica, jornal e também já foi professor em cursinhos de pré-vestibulares e de vários colégios particulares e da rede pública, sendo que, essa última profissão, onde passou mais tempo, se diz desiludido por completo. “Educação virou um produto de estante de supermercado”, completou. O autor ainda se diz um iniciante, mas que já tem seis livros publicados, dezenas de trabalhos espalhados em outras dezenas de antologias. Mas, ao ler as páginas das “Memórias de um Herege Compulsivo” podemos ter a certeza de que esse autor pode ter elevado a categoria de contos à condição de arte.

Em 2003, recebeu um 1º Lugar no I Concurso de Literatura Virtual, foi classificado no II Prêmio Literário Livraria Asabeça e obteve uma Menção Honrosa no IV Concurso Internacional de Poesias, em Cuba. Alguns críticos passaram a chamá-lo de “clandestino das letras”, mas parece que nada é gratuito ou irreal nas tramas desse nobre baiano de imaginação macabra.

Em “Memórias de um Herege Compulsivo” (Clube dos Autores, 303 páginas, R$ 44,42), seu 6º livro em nove anos como autor, o mistério e a indignação cercam todas as histórias, mas destaque para os contos “O homem que se espremia no traje da cor do mundo”, “A insustentável frieza de ser constipador da vida alheia no jardim das folhas secas” e “O aliciador de Melissas”. A seguir, trechos da entrevista que Elenilson deu a rádio Globo FM.

Globo FM – Elenilson, você já está trabalhando em algum outro livro novo?
Elenilson Nascimento – Cara, eu acabei de lançar dois e você já quer que eu esteja trabalhando noutro? Pois é. Mas já voltei a rascunhar alguma coisa para um romance sobre Salvador. Mas não quero falar sobre isso agora, pois acabei de lançar a antologia “Poemas de Mil Compassos”, um pequeno-grande volume de poemas, com 51 poetas que me tiraram o sono por alguns meses; e também o meu livro de contos “Memórias de um Herege Compulsivo”, um livro inquieto com 30 contos que estavam na gaveta desde 2006, mas que as editoras não queriam publicar por acharem ser textos problemáticos.

Globo FM – Problemáticos?

Elenilson Nascimento – Exato. Eles querem que eu escreva sobre flores, cores e amores. Me recuso. Meu texto em que tento consolidar tudo o que reflito sobre o mundo, que diz respeito a meu trabalho como escritor de ficção e do crime que estão cometendo contra os brasileiros, na verdade, é um desabafo. Uso o Brasil como material de trabalho e vou lhe dizer, muitas vezes, é muito desagradável. Analiso a estrutura da narrativa de detetive por meio de exemplos de meus antecessores.

Globo FM – Como é trabalhar com 51 autores dentro de um mesmo livro?

Elenilson Nascimento – Complicado. Muito complicado. Esse tipo de seleção é bacana porque faz com que eu conheça trabalhos de artistas diversos, mas muitos desses artistas não têm consideração e respeito pelo trabalho do outro. São os primeiros a dificultar o processo. Esse livro de poemas já fez um mês que foi lançado. Se 10 dos 51 compraram o livro e divulgaram em algum lugar, nem que seja na padaria da esquina, isso já é um milagre.

Globo FM – Você quer dizer que os próprios autores não divulgaram o livro?

Elenilson Nascimento – Divulgar? Rapaz, eu acho muito engraçado as pessoas criticarem tanto a falta disso ou daquilo nesse país de faz-de-conta. Quando rola uma oportunidade de fazer uma coisa bacana, eles próprios não se dão nem ao trabalho de mover o “dedo médio” para digitar alguma coisa. Você já ouviu falar na “teoria das janelas quebradas”? Pois o que acontece com essas pessoas que fazem arte é exatamente isso. Cada qual preocupado com os seus próprios projetos, com os seus mundinhos e com os seus problemas. Trabalho coletivo? Nem deu pra saber se valeu a pena. Cada qual no seu quadrado!


Globo FM – Você pretende organizar mais alguma antologia?

Elenilson Nascimento – Não!

Globo FM – Quais são os autores que mais o influenciaram?

Elenilson Nascimento – Não gosto muito de fazer listinhas de autores, porque não tenho listinhas, tenho listões. De Nelson Rodrigues a Fernanda Young. De Lobo Antunes ao Augusto Cury. Descobri agora o português Miguel Sousa Tavares. Estou achando bacana e, sobretudo, Dorothy L. Sayers, que me ensinou que o mais importante num escritor é manter o interesse do leitor, investigar o que motivou uma história e o que se passa dentro da mente de um personagem. Coisas assim que as faculdades de Letras deveriam fazer, mas que os seus professores não tem tempo, pois tem que exigir dos seus alunos acéfalos seminários de assuntos que eles ainda não dominam e ainda chamam isso de educação superior. Dorothy foi uma autora policial com instinto psicológico – e aí a gente pode chamá-la de feminina e começar a pensar, a partir dela, por que as escritoras são mais sutis que os homens. Eles pensam em armas e em quem matou quem. Dorothy queria adentrar os mistérios que levam as pessoas a cometer crimes ou ser assassinadas. Gosto dessas escritoras insanas. Mas a Patricia Highsmith é a minha preferida. Ela é uma gracinha, estranha, mas gracinha.

Globo FM – Você citou Agatha Christie numa entrevista de 2007, citando-a como uma influência angustiante no início de sua carreira. O que você quis dizer com isso?

Elenilson Nascimento – É verdade. Foi um desafio começar a minha carreira depois de ter passado um período me questionando se era isso mesmo o que eu queria para a minha vida. De qualquer forma, não tive muita influência de Agatha Christie. Pelo menos não assim como você colocou. Porque, para Agatha, o que interessava era a investigação pela investigação, a lógica do crime. Ela era fascinada pelo quebra-cabeça. Os personagens são derivados do quebra-cabeça, são peças de um esquema. Os crimes são impossíveis de ser praticados fora de seus livros. Por serem crimes impossíveis. Seus detetives não vivem neste mundo. São quase seres fantásticos, não têm nada a ver com a vida diária de um detetive amador ou profissional. E como eu sou um ator de crimes “reais”, tipo desses cometidos todos os dias pelos nossos amados congressistas, então as minhas influências são outras.

Globo FM – Sua preocupação recai sempre nas questões sociais da trama. O que, em sua opinião, é mais importante: o cenário, os personagens ou o mistério?

Elenilson Nascimento – Para mim, tudo nasce de um cenário, uma casa, uma paisagem. Em “Memórias de um Herege Compulsivo”, a ideia veio da minha própria vida como professor angustiado. Eu detestava aquela vidinha. Então, os contos vieram tomando forma e as personagens aparecendo. E, dessa forma, fica interessante abrigar um crime ali dentro.

Globo FM – Você já disse que o Brasil é um cenário macabro. Por quê?

Elenilson Nascimento – Sim, e é dele, com suas periferias úmidas de sangue dos excluídos, pedras e lembranças do passado que começo a pensar nos personagens. Eles também nascem dos interiores abissais, do mobiliário antigo que imagino. Faço questão de descrever cada aspecto do ambiente, para que o leitor seja transportado para um lugar que tem um estatuto de realidade e de crime. Mas já aproveitei meus tempos na faculdade de Letras para estudar (sozinho) métodos de investigação e perícia na biblioteca, já que lá não tinha mais nada de interessante para se estudar.

Globo FM – E como esses personagens se desenvolvem?

Elenilson Nascimento – Procuro dar voz a cada um deles, não deixar nenhum detalhe fora. É como criar um mundo. Mas não me pergunte como vou escrevendo uma história. É difícil, para mim mesmo, entender o que se passa quando crio os personagens e escrevo. Escrever é um mistério insondável que não faço questão nenhuma de desvendar! Mas é algo delicioso. Um verdadeiro gozo! Você já gozou com uma pessoa bacana do seu lado? Pois é exatamente assim que eu fico quando alguém comenta alguma coisa sobre os meus trabalhos. Mas ultimamente tento me controlar, pois não quero que ninguém perceba que eu estou de pau duro (risos).

Globo FM – É correto dizer que, em suas histórias, o que importa é menos descobrir quem matou, mas quem está mentindo?

Elenilson Nascimento – Eu não sou nenhum P.D. James. Mas precisamente, sou um cara difícil e incomum. Procuro envolver o leitor nas ambiguidades dos comportamentos e das declarações dos personagens. Não escondo tudo de uma forma desleal e inverossímil, como nos contos antigos de autores renomados. Adoro o Nelson Rodrigues, mas só ficar falando de putarias em todos os trabalhos é um pouco chato. Não desmerecendo o trabalho do Nelson, que eu amo. Mesmo assim, procuro pegar a pessoa pela curiosidade, sem trair o realismo. Daí que a mentira talvez seja o crime mais insidioso e difícil de resolver, até porque as pessoas mentem para si próprias.

Globo FM – Você chegou a trabalhar em investigação de crimes, presenciar autópsias e cenas escabrosas, como tantas que aparecem em alguns dos seus textos?

Elenilson Nascimento – Já trabalhei como repórter num jornal de Salvador, mas é complicado cobrir matérias devido à quantidade de “estrelinhas” que se dizem jornalistas que não deixam “focas” entrarem na sua área. Mas consegui vivenciar tudo indiretamente. Só se eu fosse um policial formado na academia (*Deus me livre) poderia trabalhar em assassinatos. Mas eu era, na época, um professor de cursinho, que dava aulas para sobreviver e estudava Jornalismo porque queria escrever. Mesmo assim, aproveitei meus tempos de jornalista para estudar métodos de investigação e perícia. O que mais fiz em minha vida, agora me sentindo um escritor, foi pesquisar, pesquisar, pesquisar. Disso tudo, estou fazendo bom uso em meus livros, para dar credibilidade a uma história. Para não falar da infinidade de homens e mulheres que trabalharam, que amam – olha eu falando de amor – que pecam, que fodem e me inspiraram para compor os personagens.

Globo FM – Como é o seu dia-a-dia como cidadão digital? Que tipo de coisas costuma fazer?

Elenilson Nascimento – Eu adoro Internet. Tenho tudo: MSN, Orkut, blogs, Twitter e sei lá mais o quê. Mas não me pergunte se eu olho tudo isso todos os dias. Sou um sujeito bem típico do tipo cidadão atomizado. Mas não faço parte de nenhum grupo, não sou filiado a nenhum partido. Aplico o princípio de Groucho Marx: “Não acredito em instituições que aceitem pessoas como eu”. Sou, nesse sentido, marxista (risos). Isso não quer dizer que não possa me juntar a outras pessoas ou organizações para fazer reivindicações. Agora, para o indivíduo ser prestável republicanamente, tem de ter um nível de compreensão e de conhecimento do que acontece no campo político que é fundamental. Sou um cidadão digital sim, mas no sentido de que fico bem informado usando os recursos digitais. Tenho alguma competência em ter informação dessa natureza e, portanto, poder reagir digitalmente, embora seja atômico. Portanto, adoro Internet! A Internet é uma coisa do demônio. Então, devo gostar dele também.

Globo FM – Em um artigo publicado na revista “Emerge Magazine”, no mês de setembro/09, você disse que “acredita que os “artistas” brasileiros – formadores de opinião – se dobraram a ditadura do “politicamente correto”, que eles se omitem diante das crises desse governo Lula que ajudaram a eleger, além de que, o Lula só não sofreu um impeachment até agora por incompetência da oposição, e que os “formadores de opinião” costumam agir em bando”. De onde têm partido iniciativas exitosas de mobilização para a participação política e o controle social?

Elenilson Nascimento – Para as antigas teorias políticas do século 19 e 20, era impossível que indivíduos atomizados pudessem ser prestáveis politicamente, sem ser alienados. Mas é preciso reconhecer que a sociedade mudou e que o sujeito presta, sim: ele acompanha (mesmo não aparentando), está muito ligado nas merdas que os nossos políticos fazem, no beócio do Collor, nas arapucas do Renan Calheiros, sabe dos fatos importantes e conhece caminhos para reagir. Ele pode mandar uma mensagem via MSN, se juntar com alguém, entrar em uma comunidade no Orkut, ou sair da que não o interessa mais, assinar petições… De toda parte. No Brasil, existe uma tendência de esquerda de sociologia política – que as universidades teimam em não aceitar – que acha que isso só pode vir da sociedade, porque o Estado é um adversário. Mas isso não é verdade. Passamos dessa fase. Até há circunstâncias em que o Estado é adversário da sociedade, mas não é esse o padrão. Estamos há 26 anos em social-democracia. A própria sociedade civil tem tido boas iniciativas, como as ONGs Contas Abertas e Transparência Brasil. E no Estado também há coisas assim. O escândalo do cartão corporativo, por exemplo, acontece porque o Estado divulga a informação. Está em linguagem contábil, mas se um jornalista que é expert vai lá e traduz a informação, então a informação está disponível a todos.

Globo FM – Você costuma criticar o governo Lula. Você não acredita no O Portal da Transparência, em que o governo federal presta contas da aplicação do dinheiro público?

Elenilson Nascimento – Pode até funcionar. Direito não, é claro, mas funciona na medida do que eles querem demonstrar. Há links quebrados, informações desatualizadas, nem todo sistema, ele é uma espécie de centralização, mas formado por várias páginas produzidas por diversos setores do governo. Nem todos alimentam aquilo com a mesma velocidade e a mesma integridade dos dados. Mas é uma boa iniciativa. Mesmo não sendo eficiente.

Globo FM – Então, a transparência não é apenas demagogia?

Elenilson Nascimento – Há muita demagogia e esforço de propaganda. O blog de Lula, nesse sentido, é uma tristeza. Esperava-se que fosse um blog do presidente para falar com a população, e não é um blog do presidente. E não tem o mais fundamental de um blog, que são os comentários das pessoas. Nem que se filtrassem as coisas que ofendam e xinguem. Mas não, virou mais um instrumento de propaganda. É um uso hipócrita.
Globo FM – O sir João Grandão, o seu anti-herói que abre o “Memórias de um Herege Compulsivo”, foi baseado em alguma dessas figuras com quem você trabalhou?
Elenilson Nascimento – Todos os personagens que eu crio têm alguma coisa de “figuras” que eu já conheci ou conheço. Já o sir João Grandão é uma soma de muita gente que conheci, mas não é nenhum em especial. Eu me baseei em homens paranóicos que se acham importantes. E é o que mais tem por aí. Criei-o antes mesmo de ter pensado em ser escritor. Minha primeira dúvida era se ele seria um profissional ou um amador. Ora, há muito amador na literatura, e um cara paranóico nunca poderia trabalhar num mundo concreto. Por isso, decidi que o sir João Grandão fosse antes de tudo um profissional, que se comportaria segundo os procedimentos de sua classe, mas completamente louco. Depois, quis que ele fosse correto, corajoso, decente, galante... e que tivesse pendores artísticos. Por isso transformei-o em um poeta, mesmo sendo maluco.
Globo FM – Por que aparecem poucos poemas no seu blog?
Elenilson Nascimento – Porque não sou “poeta direito” como o Vinicius ou o Drummond. Sou “poeta errado” e investigativo, e não há pesquisa que faça a gente fazer um bom poema! (risos) Tenho três livros de poemas publicados e até um trecho de um deles no meu romance “Clandestinos” e nada mais do que isso. Portanto, ainda não sou nada e não sei nada. Deixo os outros poemas para a imaginação dos leitores. Eu sou um bom poeta, não posso atribuir meus versos ruins a minha falta de agilidade em trabalhá-los. Mas eu quero ser mais do que isso.

Globo FM – Você sempre se esforça para elevar a literatura. Acha que colaborou na união da arte culta com a literatura popular?

Elenilson Nascimento – Literatura popular, não. Literatura, por favor! Esse foi sempre meu desejo, mostrar que a narrativa deve ser valorizada como obra literária. Eu já disse uma vez que uma história de primeira classe tem de ser literatura de primeira classe. Acho que conquistei isso, e os prêmios que eu já recebi são as provas de que é possível fazer alta literatura. Mesmo que esse prêmios não paguem as minhas contas.

Globo FM – Qual é seu método preferido para escrever?

Elenilson Nascimento – Tenho hábitos arraigados. Tenho que trabalhar com outras coisas porque preciso sobreviver e ainda não tenho condições de viver da minha literatura. Mas quando estou em casa e não tenho compromissos, sempre acordo às 7 horas da manhã, preparo meu suco e me sento diante da escrivaninha, do computador, onde estão o dicionário, o meu caderno de folhas pautadas e canetas esferográficas de tinta preta. Começo a escrever calmamente. Já tive períodos de desespero porque queria publicar e não tinha onde. Hoje faço as minhas coisas com mais cuidado, mesmo que nunca venham a ser publicadas.

Globo FM – Você segue o método de Gustave Flaubert, para quem o bom estilo nasce do texto lido em voz alta?

Elenilson Nascimento – Sim. À medida que dito, vou cortando os excessos, e o texto ganha fluência e leveza. Odeio ornamentos inúteis, palavras rebuscadas e essas “merdas” que muitos autores adoram colocar só para mostrarem o quanto são inteligentes e como a gente percebe isso depois de ler o que escreveu pela terceira e quarta vez! Escrever é reescrever.
fotos: divulgação
artwork: Ewerton Thiago
Leminski, de bigode, autointitulado "Kamikase", defende-se de "golpe" aplicado pelo amigo, compositor, poeta e cantor Jorge Mautner. Crédito: Divulgação.



Haikais em forma de twitter e saraus celebram Leminski


Artistas vão interagir com o público criando "twitcais" em tempo real e público será convidado a fazer o mesmo
Jotabê Medeiros, de O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO - Em Curitiba, a islandesa Björk cantou seus mantras pop na Pedreira Paulo Leminski. O britpop desgarrado dos Arctic Monkeys também deu as caras por lá. Mas será que a bela plateia imberbe dos grandes shows de pop e rock lembra quem foi o tal Leminski que deu nome à gélida pedreira curitibana?

A próxima semana será uma boa ocasião para desvendar-se o poeta-samurai que também amava o rock, mas não só. Morto há 20 anos, Leminski era ainda tradutor de japonês, inglês, francês, latim, espanhol, judoca faixa-preta, monge iniciante, compositor popular, biógrafo, professor de história e de redação, publicitário, contista e trotskista que sonhou dar o nome de Leon ao filho (o neto ganhou o nome).

A obra múltipla de Paulo Leminski (1944-1989) é o foco da mostra Ocupação Paulo Leminski: Vinte Anos em Outras Esferas, no Itaú Cultural, de 1º de outubro a 8 de novembro - com leitura de poemas por Alice Ruiz, viúva do autor, e o dramaturgo Mário Bortolotto, para convidados, na próxima quarta-feira, dia 30 de setembro. Outras atrações são Moraes Moreira e uma brigada de escritores "em processo, criando poemas ao vivo. Ocupações é uma série do Itaú Cultural que já teve como "hóspedes" o diretor José Celso Martinez Correa e do artista plástico Nelson Leirner.

Em julho, o curador da mostra Ocupações Paulo Leminski, o jornalista, poeta e cantor Ademir Assunção, esteve em Curitiba, acompanhado do cenógrafo da exibição, o fotógrafo Miguel Paladino. Foi pesquisar nos "baús" do autor, 18 caixas mantidas no centro da capital paranaense por uma das filhas do artista, Áurea Leminski, com cadernos, folhas soltas, recortes de jornal, livros, fotografias e até carteirinha de clube.

"Se perguntarem a alguém o nome de um escritor curitibano, certamente os mais citados serão Dalton Trevisan e Paulo Leminski. Mas não há na cidade uma única instituição, um único centro cultural destinado à divulgação da obra de Leminski", admira-se Assunção.

A tarefa de fazer circular o legado leminskiano fica por conta dos esforços da família. A filha Áurea Leminski, de 38 anos, é mãe de Lorena, 5 anos (o poeta tem outro neto, Leon, filho de Estrela, de 28 anos). Ela acha que o pai "aos poucos se torna mais um mito ou um personagem, e não se renova o interesse pela obra dele, o que é fundamental". Ela tenta organizar e disponibilizar virtualmente o acervo do poeta em Curitiba, mas ainda não encontrou interessados em financiar ou participar de tal projeto. "Eu estou muito preocupada agora com a formatação disso, o jeito como tudo será disponibilizado. Não há ainda um custo, um orçamento", explicou Áurea.

"É claro que a poesia nunca atingiu a grande massa. A fama do meu pai se deu muito mais por meio da música, da inclusão de uma canção numa novela da Globo. O interesse, no entanto, persiste, tem muito estudante que procura a gente para obter informações. Não seria correto dizer que ele está esquecido."

Cantora, baterista e compositora, Estrela Ruiz Leminski vai cantar na quarta-feira, na abertura da exposição no Itaú Cultural - ela integra as bandas Dona Zica, Casca de Nós e Trash pour 4. Os shows musicais terão as participações especiais de Moraes Moreira e Vitor Ramil. Durante a "ocupação", escritores como Elson Fróes, Nelson de Oliveira, Marcelino Freire, Ricardo Aleixo, Maria Esther Maciel, Frederico Barbosa, Paulo Scott, Izabela Leal, entre outros, vão interagir com o público criando em tempo real uma série de "twitcais" (haicais em forma de mensagem do twitter), e o público será convidado a fazer o mesmo.

Leminski teria 65 anos. Experimentar era seu credo. "A velocidade da lógica ultrapassa o limite da linguagem, atrás da linguagem, na frente de quê? Tem tudo que ser igual ao eco... só falta equar! Posso ser útil se me vendo claro mas entendo e entendendo me fazendo de meu entendedor de meias colcheias e colmeias cheias. Quem dá o que falar, não dá para fazer o mesmo?", diz trecho do seu livro Catatau.

A poeta Alice Ruiz (que foi casada com o escritor durante 20 anos, deu-lhe três filhos e foi parceira em boa parte da sua obra) divertiu-se ao imaginar como seria se o poeta fosse confrontando com as novas mídias sociais e tecnologia. Ela e Leminski chegaram a trabalhar com o artista visual Julio Plaza, mas considera o experimento apenas um trabalho "à parte" na obra de Plaza, e não uma experiência particular sua.

"É muito difícil pensar nisso (Leminski no Twitter). Ele nem chegou perto do computador, fazia em máquina de escrever. O Paulo era louco pela palavra, por escrever. Mas, ao mesmo tempo que era de vanguarda, cultivava grande apreço pelos velhos sistemas. Não sei se faria poemas na internet, não sei responder a essa questão, mas desconfio que não. Acho que ele preferiria criar do jeito tradicional e passar para alguém processá-los."

A "pilhagem" que os curadores fizeram nas caixas de Leminski, minuciosa e respeitosa, revelou preciosidades que deixaram até os pesquisadores boquiabertos. "Em uma dessas pastas encontrei um caderno espiral, daqueles de estudante, com nada menos que os manuscritos do Catatau. Quando abri esse caderno e vi a letra de Paulo Leminski e comecei a ler e saquei a gênese desse que é um dos livros mais geniais da literatura brasileira, fiquei emocionado pra caramba. Mais de 30 anos depois, eu tinha a oportunidade de ler a gênese do Catatau!", admira-se Assunção.

"Mas não tinha nada perdido lá. Tava tudo muito bem guardadinho", ressalta Alice Ruiz, responsável pelo armazenamento dos documentos após a morte do artista. Nada do que foi garimpado será publicado, o seu uso será apenas visual, para dar uma ideia do processo de criação do autor. Alice pensa da seguinte forma: se Leminski não publicou, é porque tinha plena certeza de que não queria aquilo publicado.

Ter acesso aos inéditos garimpados, de qualquer forma, é um saboroso exercício: "feliz/ macaco do passeio público/ nas tardes de domingo/ os guris / jogam pipocas/ a mão dos pais/ pinga esmolas/ na pata dos mendigos."

"Leminski é a síntese de um poeta e intelectual que sofreu o impacto das rebeliões, de linguagem e comportamentais, da contracultura, do rock’n’roll, da Segunda Guerra Mundial, da comunicação de massas, de um lado, mas também com uma forte erudição, o domínio de várias línguas, o conhecimento profundo do zen-budismo, a prática de artes marciais. Na minha visão, ele não é somente o resultado disso tudo, mas a síntese e ao mesmo tempo a atuação crítica no cenário contemporâneo", diz Ademir Assunção.

Obras Fundamentais

POESIA
Polonaises. Ed. do Autor, 1980
Não Fosse Isso e Era Menos/ Não Fosse Tanto e Era Quase. Zap, 1980
Tripas. Ed. do Autor, 1980
Caprichos e Relaxos. Brasiliense, 1983
Hai Tropikais. Fundo Cultural de Ouro Preto, 1985
Um Milhão de Coisas. São Paulo, Brasiliense, 1985
Caprichos e Relaxos. São Paulo, Círculo do Livro, 1987
Distraídos Venceremos. São Paulo, Brasiliense, 1987
La Vie en Close. Brasiliense, 1991 (reimpresso em 1999)
Winterverno. Fundação Cultural de Curitiba, Curitiba, 1994. (2.ª edição Editora Iluminuras, 2001)
O Ex-Estranho. Iluminuras, São Paulo, 1996

PROSA
Catatau. Curitiba, Ed. do Autor, 1975
Agora É Que São Elas. São Paulo, Brasiliense, 1984
Gozo Fabuloso. São Paulo, Editora DBA, 2004

CAMPOS DOS GOYTACAZES

Quem sou eu

Minha foto
meu coração marçal tupã sangra tupi e rock and roll meu sangue tupiniquim em corpo tupinambá samba jongo maculelê maracatu boi bumbá a veia de curumim é coca cola e guaraná