fulinaíma

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Pontal - Projeto

muda

a memória sai da toca
sobe pela palafita
ainda escorrendo lama
e me fita
com olhos de caranguejo
entre as tábuas do piso
do bar do espanhol
quando o pontal era ponta
tinha fé de igreja
e luz de farol

na boca do mangue
passei minha rede de arrasto
mas só peguei filhotes de bagre
que me ferraram o pé
ao chutá-los de volta à água
até que pedro me ensinou
a pegar pitu de mão
entre raízes do mato
na beira do alagadiço

hoje passo no mangue
e não piso na lama
mas na asfixia lenta
dos aterros do homem
e do avanço do mar
perto das ilhas da convivência e pessanha
siamesas da mesma terra
onde ficou minha casca da muda
de caranguejo a espera-maré

atafona, 06/2000
aluisio abreu barbosa

INTRODUÇÃO

Desde tempos remotos o Pontal de Atafona sensibiliza e afeiçoa aqueles que o conhecem. Oriundo da confluência do rio com o mar é na realidade um resquício do que foi um dia a foz deltaica do rio Paraíba do Sul. Em constante movimento este delta, com suas ilhas da Convivência e Pessanha; com seus pescadores loiros e de olhos azuis, supostamente de origem holandesa, possibilita uma paisagem única a cada momento que se a observa. Há muito, sanjoanenses e turistas, em especial os campistas, que fizeram de Atafona e Grussaí parte de sua terra natal, nutrem por esta ponta de areia um carinho todo especial, assim como pela lua cheia nas noites claras de verão.

Embora mantenha a mesma energia, o Pontal não tem mais a magia de outrora. Com o desvio de suas águas para alimentar o sistema Guandu, o Paraíba perdeu dois ter-ços de sua vazão e consequentemente sua força no embate com o mar, que mais avança, a retomar o que um dia lhe pertenceu. Nostálgicos, ficamos a reviver os momentos vividos num pontal em sua plenitude.

Muitos causos e conversas de pescadores são rememorados por todos aqueles que têm o Pontal na memória. Muitos fatos, ficcionais ou não, são eternizados em linguagem poética por aqueles que têm o dom da palavra ou da estética visual. O certo é que o pontal grita por socorro em nossos corações e mentes.

Traduzir nosso amor pelo pontal através da poesia de Aluysio Abreu Barbosa, Artur Gomes e Adriana Medeiros é a forma que encontramos de clamar pela busca de uma alternativa para preservá-lo. Sabemos que a questão possui uma ordem de grandeza que está muito além de nossa possibilidade de resolvê-la. Mas entendemos que nós, atafonenses de nascimento ou de coração temos por obrigação lançar este grito de alerta na busca da preservação de nosso habitat. Muitos são os exemplos das lutas que foram vencidas com o uso da palavra. Acreditamos que também assim devemos proceder: sensibilizando a comunidade, os turistas e o poder público em todas as suas instâncias.

O projeto em tela, mais que um manifesto é uma declaração de amor ao pontal, com a qual pretendemos resgatar na memória de todos a importância do Pontal não somente em nossas vidas, mas também nas de nossos ancestrais e quiçá nas de nossos descendentes, pois

“aqui onde rio e mar se beijam.
Aqui no fim do mundo
onde terra e céu se abraçam
num ato sexual,

aqui no fim do dia
um barco preso na corda
um peixe preso no anjol
a terra varrida ao vento
casas varridas ao temporal

aqui no mesmo teto
pássaros sobre os calcanhares
homens sobre os girassóis
onde rio e mar se beijão
re-nascem nossos filhos
quando terra e céu se abraçam
sem ter nem mães nem pais

onde o teu refúgio
é nu / meu peito aflito
e a minha solidão
no teu corpo é paz

artur gomes
In Ato 5 - Grupo Universo 1979

PROJETO DE MONTAGEM

O ORÁCULO - Centro de Educação Continuada e de Qualificação Profissional , afeita ao seu mister precípuo, tendo produzido através do Oráculo Produções diversas atividades teatrais, entre as quais a montagem dos espetáculos “MEDÉIA”, de Eurípedes e “CONSELHO DE CLASSE”, de Adriano Moura, propõe a montagem do espetáculo “PONTAL”, coletânea poética de Aluysio Abreu Barbosa, com co-autoria de Adriana Medeiros, Antonio Roberto Kapi e Artur Gomes, que será apresentada sob a forma de recital teatralizado, pelos atores campistas Yve Carvalho, Sidney Navarro e Artur Gomes. O texto em pauta é composto por quinze poemas de Alusyo Abreu Barbosa, um de Adriana Medeiros, dois de Artur Gomes e dois de Antônio Roberto(Kapi) totalizando vinte poemas que contextualizam o universo atafonense, mais especificamente o Pontal.

ARGUMENTO

Três pescadores dão início à lida adentrando o mar, onde jogam a tarrafa em busca de sustento. Enquanto aguardam os peixes caírem na rede, contam causos, rememoram fatos, distraindo o tempo e refletem sobre as desventuras de suas vidas e de seu habitat.

CONCEPÇÃO CÊNICA

A partir de uma interpretação alegórica do texto, concebemos uma montagem lúdica em que o uso de uma interpretação calcada no simbolismo nos permita uma depuração das sutilezas inerentes ao tema em foco. Entendendo a vida como um norteamento, em que a busca de respostas para a grande pergunta, que o próprio sentido da vida, não encontra bússola, vemos os personagens como sendo a personificação alegórica de Fernando Pessoa ao escrever “Navegar é preciso, viver não é preciso” .

CONCEPÇÃO CENOGRÁFICA

Tendo por espaço cênico o Bar do Bambu, último reduto boêmio do pontal, a concepção cenográfica pretende-se também simbolista na ocupação do espaço, como forma de possibilitar uma interação entre o espetáculo e o público, de forma que este, através da poesia faça uma viagem ao pontal que existe dentro de cada um.

CONCEPÇÃO DE FIGURINO

Pretendendo ressaltar os aspectos lúdicos inerentes ao texto, o figurino será realista. Desta forma possibilitar-se-á o entendimento de que o texto que se apresenta embora traga questiona-mentos existenciais é a tradução dos sentimentos do homem comum. Os personagens são reais, mas suas leituras de mundo beiram ao absurdo para o senso comum.

CONCEPÇÃO DE LUZ

Buscando uma consonância com a concepção cenográfica, para valorizar a concepção cênica, pretendemos uma luz minimalista, usando para tanto técnicas de luz expressionistas, com o que, a partir do uso de lampiões e lamparinas, obter-se-á maior densidade dramática com o uso do jogo claro/escuro na cena.

CONCEPÇÃO SONORA

Da mesma forma que a concepção de luz, a sonora, no intuito de emprestar uma certa ludicidade à montagem e ao mesmo infundir no público uma dimensão intimista do espetáculo, optamos por usar músicas compostas a partir dos textos que compõe o espetáculo e fragmentos de interferências sonoras que sublinhem a densidade dramática de cada poema cada.

FICHA TÉCNICA

Autores: Aluysio Abreu Barbosa
Antonio Roberto Kapi
Artur Gomes
Adriana Medeiros

Intérpretes: Yve Carvalho
Sideney Navarro
Artur Gomes

Trilha Sonora: Saullo Oliveira
Marcelo Crispim

Ambientação: Neivaldo Bambu

Produção: O Grupo

Direção e Iluminação: Antonio Roberto Kapi

pontal.foto.grafia

Aqui,
redes em pânico
pescam esqueletos no mar
esquadras - descobrimento
espinhas de peixe convento
cabrálias esperas
relento
escamas secas no prato
e um cheiro podre no AR

caranguejos explodem
mangues em pólvora
Ovo de Colombo quebrado
areia branca inferno livre
Rimbaud - África virgem
carne na cruz dos escombros
trapos balançam varais
telhados bóiam nas ondas
tijolos afundando náufragos
último suspiro da bomba
na boca incerta da barra
esgoto fétido do mundo
grafando lentes na marra
imagens daqui saqueadas
Jerusalém pagã visitada
Atafona.Pontal.Grussaí
as crianças são testemunhas:
Jesus Cristo não passou por aqui

Miles Davis fisgou na agulha
Oscar no foco de palha
cobra de vidro sangue na fagulha
carne de peixe maracangalha
que mar eu bebo na telha
que a minha língua não tralha?
penúltima dose de pólvora
palmeira subindo a maralha
punhal trincheira na trilha
cortando o pano a navalha
fatal daqui Pernambuco
Atafona.Pontal.Grussaí
as crianças são testemunhas:
Mallarmè passou por aqui.

bebo teu fato em fogo
punhal na ova do bar
palhoças ao sol fevereiro
aluga-se teu brejo no mar
o preço nem Deus nem sabre
sementes de bagre no porto
a porca no sujo quintal
plástico de lixo nos mangues
que mar eu bebo afinal?

Artur Gomes
http://juras-secretas.blogspot.com/

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CAMPOS DOS GOYTACAZES

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