quarta-feira, 14 de abril de 2010

Mário Faustino e a poesia

Fabio Silvestre Cardoso

A poesia requer do leitor uma atenção diferente da dispensada para apreciação de um texto em prosa. Apesar da sonoridade rítmica, há um sem número de disposições que o leitor deve obedecer não somente para a compreensão do que está escrito, mas também para o aproveitamento da poesia como sensação estética.
Com isso, desenvolvem-se fórmulas e técnicas a fim de facilitar esse processo intelectual, como a divisão silábica e até mesmo a leitura em voz alta de poesia. Há, no entanto, uma outra saída, não tão comum, mas ainda assim mais prazerosa, que é a seleção e o comentário rigoroso feito por um crítico exigente e, na mesma medida, apaixonado por poesia. É o que fez o jornalista Mário Faustino (1930-1962), no já célebre SDJB (Suplemento Dominical do Jornal do Brasil), entre 1956 e 1959, quando assinava a página semanal Poesia-Experiência.
Parte dessa produção é agora lançada, (2003), pela Cia. das Letras, em De Anchieta aos Concretos, sob a organização da professora de Literatura da Unicamp Maria Eugênia Boaventura.
Com efeito, o texto da organizadora pondera, logo no início da obra, acerca dos acertos e dos equívocos de Mário Faustino. Só com base neste prefácio, pode-se ter a impressão de que, talvez por poder discorrer com certa facilidade sobre poesia, Faustino é seduzido pelo polemismo fácil que se encontra corriqueiramente nos jornais. Entretanto, a partir da leitura das análises do jornalista, o leitor começará a tomar conhecimento da propriedade com que ele tecia comentários sobre a produção poética nacional. E não só. Ainda que alguns de seus julgamentos soem definitivos “A poesia brasileira – com duas ou três exceções – só atinge o nível internacional já em pleno século XX”, as reflexões do autor superam os inumeráveis lugares-comuns pré-concebidos, preenchendo, assim, tanto uma lacuna crítica como uma ausência introdutória no que se refere ao estudo da poesia luso-brasileira.Isso se dá, principalmente, pela franqueza e pelo talento com que Faustino se expressava.
No livro, esses elementos se transformam em artigos claros, sem o pedantismo medíocre dos ensaístas acadêmicos, tampouco com as generalizações populistas da crítica dos não-iniciados. É aí que se encaixa o brilhantismo de Mário Faustino, uma vez que ele se manteve (e sua obra se mantém) na linha tênue entre esses dois extremos; elaborava, assim, textos de qualidade, mas que conseguiam alcançar a todos os leitores interessados.
Nesse sentido, o jornalista ensaiava um diálogo entre os primeiros poetas brasileiros – como é o caso de Anchieta; Gregório de Matos e Manuel Botelho de Oliveira – e os modernistas – como Cecília Meirelles; Jorge de Lima e Manoel Bandeira. E essa relação não era feita apenas com poetas brasileiros, pois Faustino acreditava que, para se avaliar a produção do presente, era fundamental o conhecimento dos clássicos: “Quem quiser conhecer o extremo oposto, isto é, poesia só poesia mesmo, sem nada a ver com as tais ‘coisas bonitas’, leia [William] Blake, leia [John] Donne”.
Além disso, ele buscava apresentar as influências dos primórdios da poesia brasileira. Sobre esse ponto, inclusive, assinalava o alto nível técnico com que principiou a poesia por aqui: “A poesia começou, entre nós, como uma arte, como algo que pode ser ensinado pelos competentes e praticado por quem possui um mínimo de habilidade para os fins em vista”.
Contudo, Faustino não iludia o leitor e vaticinava a respeito da principal característica da poesia brasileira, desde o seu início: “No Brasil a poesia tem sido, desde os primeiros versos compostos aqui, [...] uma poesia imitadora, ‘diluidora’”. O jornalista advogava a idéia de que a poesia brasileira limitava-se a seguir os passos de Portugal, sem necessariamente apresentar avanço em relação ao modelo original.
Essa característica não elimina a qualidade de alguns poetas-maiores, bem como de outros tantos excelentes versos de autores desconhecidos. Mário Faustino conseguia extrair os grandes momentos de poiésis da produção nacional. Exemplo disso acontece com a autora de Romanceiro da Inconfidência: “Cecília Meirelles escreveu os melhores poemas-canções da língua desde a renascença portuguesa”. Ou então com Drummond, o ‘poeta-maior’: “A poesia de Carlos Drummond de Andrade é um momento central não só de nossa poesia, como de nossa literatura”.
Não obstante os elogios, o jornalista rechaçava o que considerava de baixa qualidade dos mesmos autores. Sobre Cecília, por exemplo: “Por que D. Cecília publica tanto? – Cabe aos psicanalistas responder”. Já acerca de Drummond, não se conformava com as crônicas publicadas por este na imprensa diária. (Faustino certamente teria uma síncope se ainda fosse vivo, posto que as croniquetas pululam nos jornalões brasileiros).
Em que pesem as análises citadas no parágrafo acima, foi na obra de Jorge de Lima que Faustino mergulhou com mais rigor e mais método. Reconhecia nele, aliás, o mais original dos poetas brasileiros de todos os tempos. É interessante observar que, a partir dessa constatação, o crítico parecia exigir mais de Jorge de Lima como poeta, não admitindo qualquer deslize. Por outro lado, destacou com igual rigor os trechos de melhor realização. Nesse sentido, vale a pena ressaltar que o jornalista sempre buscava um “confronto” constante entre os pontos positivos e negativos da obra dos autores analisados.
Ensaiava, portanto, o que mais tarde diria o jornalista Sérgio Augusto (em entrevista concedida ao programa Umas Palavras): “O papel do crítico não é dizer se uma obra é boa ou ruim. Quem deve decidir isso é o leitor. Ao crítico cabe iluminar determinados pontos do livro, filme ou obra analisada”. Ou, ainda, nas próprias palavras de Faustino: “Lembramos que não estamos escrevendo nos papiros da eternidade e sim no barato papel de um jornal vivo: o que nos interessa é instigar, provocar, excitar, em certas direções, a mente do leitor competente”.
Concretismo e crítica
Em sua análise sobre o movimento concretista, num dos últimos textos do livro, Mário Faustino ressalta o talento dos irmãos Campos e de Décio Pignatari. Adverte, ainda, para o inegável preparo intelectual dos concretos, verdade factual que boa parte da intelligentsia brasileira insiste em refutar. Entretanto, cabe lembrar que Faustino também confessa não ter qualquer interesse pessoal na “experiência” concretista. A leitura desta seção faz-se necessária para que se tenha uma visão mais abrangente da poesia e do mundo das artes, no Brasil, no fim da década de 50.
Vinícius de Moraes
Em 2003, ele completaria 90 anos. Foi, para além do que diziam os detratores, um dos maiores poetas que o Brasil já teve. E não escrevo aqui sobre as famosas, e não menos belas, canções da Bossa Nova. Mas, sim, dos Poemas, Sonetos e Baladas; livro que mostra Vinícius em dia com o soneto, sua forma – ou fôrma – de composição favorita. Para comemorar, a obra completa do escritor está disponível para acesso gratuito no site; uma elegia aos amantes da poesia. Para ir além

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