fulinaíma

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O bode expiatório

Mino Carta

Os antigos donos do poder preparam-se para jogar sobre os ombros de José Serra a culpa pela próxima derrota. Por Mino Carta

Bom pai José Serra é. Mas basta isso para ser candidato à Presidência da República? Espantado, ouço estranhas, surpreendentes conversas pelos locais das horas felizes, os mesmos onde, até há pouco, pouquíssimo tempo, Serra era apontado como o aspirante “preparado”, concorrente, imbatível contra Dilma, “a guerrilheira” sem experiência eleitoral. Dramaticamente despreparada. Pois o tucano, conforme as falas que me cercam, começa a ganhar as inconfundíveis feições de bode expiatório. De certa forma, um Dunga da política.

Os cavalheiros e suas damas faiscantes de berloques e pedrarias buscam uma explicação para o desastre que se esboça. É com melancolia que tomam seu vinho de rótulo retumbante, a girar o copo em curtas evoluções aprendidas não sem fadiga psicossomática nos últimos anos. Aplicados discípulos do up-to-date, substituíram o uísque que os acompanhava horas a fio até ao jantar, enquanto, na hora do almoço, surgem de gravata amarela nos restaurantes finos e caríssimos.

Salvo raras e honrosas exceções, entraram na parada com a certeza da vitória. Seria o seu próprio triunfo, por sobre os escombros de Lula e do lulismo, perdão, de Lulla e do lullismo. Se a Seleção Canarinho perde, é por vontade divina, ou porque o técnico errou. E se perde o candidato Serra, de quem a culpa?

Não faltam os técnicos, ou seja, os marqueteiros, uma corte de especialistas não se sabe com exatidão em que matéria, tidos, porém, como indispensáveis nas nossas paragens. Às vezes me pego a imaginar Roosevelt ou Churchill, ou mesmo Zapatero e a senhora Merkel, que invocam a presença de peritos à sua volta para instruí-los como diretor de teatro faz com seus atores.

Os marqueteiros nativos são iguais à mítica fênix. Imortais, reaparecem sempre porque sempre perdoados. Vai sobrar para o próprio Serra, não ficou à altura das esperanças. Caiu em incertezas e confusões que seus eleitores cativos, tão fiéis, tão dedicados, não imaginavam. Não mereciam.

Já está em elaboração a listagem dos erros do candidato tucano. Demorou demais para anunciar a candidatura. Não soube cativar Aécio. Imprimiu à campanha direções diversas e até opostas. Etc. etc.

Não é que a mídia não tenha colaborado para a vitória tucana. Formidável mídia, de tucanagem ampla, geral e irrestrita. Um instituto de pesquisas, o Datafolha, também participou do esforço.

Surgiu ainda a denúncia, também apelidada de dossiê, a lembrar histórias de aloprados e mensalões. E nada? Culpa do Serra, dirão os senhores e suas damas. E me vejo, de improviso, a me compadecer, sinceramente, do futuro, iminente derrotado, em quem reconheci, e reconheço, muitas qualidades.

O erro de Serra foi ter caído na esparrela urdida por Lula, a do plebiscito inescapável, sem perceber, além da força dos adversários, a mudança que o ex-metalúrgico guindado à Presidência acarretou para o País, acima e além de alguns bons e inegáveis resultados alcançados por seu governo. A situação, precipitada em grande parte pela identificação entre a maioria e seu presidente plebeu, digamos assim, acabou por empurrar Serra para a direita como nesta página foi observado inúmeras vezes. O ex-presidente da UNE, perseguido pela ditadura, tornou-se representante de um partido fadado a ocupar o mesmo espaço outrora preenchido pela UDN velha de guerra.

Sublinhei também que Serra nunca recomendou “esqueçam o que eu disse”. Mesmo assim, na alternância contraditória das rotas da sua campanha, o candidato tucano amiúde, e lamentavelmente, permitiu-se tons udenistas adequados à exposição de ideias idem. Vivêssemos outro tempo, nada disso importaria, está claro. Empenhada em assustar a minoria privilegiada, a mídia nativa teve êxito em 1989, 1994 e 1998, contra o espantalho do Sapo Barbudo. Faz oito anos, contudo, que os argumentos da chamada elite não logram os resultados de antanho, mas Serra e os seus eleitores não se deram conta disso até hoje.

Esta incapacidade de compreender um Brasil diverso daquele sonhado, esta ignorância, é que confere um toque patético à derrota da minoria privilegiada, dos herdeiros e cultores de um passado que os fez donos do poder. Não são mais, a despeito da descoberta do vinho servido em taças, como dizem os maîtres.

Mino Carta
Mino Carta é diretor de redação de CartaCapital. Fundou as revistas Quatro Rodas, Veja e CartaCapital. Foi diretor de Redação das revistas Senhor e IstoÉ. Criou a Edição de Esportes do jornal O Estado de S. Paulo, criou e dirigiu o Jornal da Tarde.

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Em comício, Lula diz que Serra no poder é ameaça a BB e Petrobras

Sem a candidata à Presidência Dilma Rousseff (PT) ao lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez nesta quinta-feira (9) à noite duras críticas aos governos tucanos, em comício realizado em Ribeirão Preto, a 320 quilômetros de capital paulista. Lula relembrou as privatizações do governo FHC e acusou o PSDB de incompetência administrativa.

“Na verdade eles não gostam e não têm competência para governar porque a única coisa que eles aprenderam a fazer foi vender o que não era deles, que era o bem público produzido por este país”, disparou Lula.

“Essa gente que era metida e sabida, que andava de nariz em pé, ficava todo dia de quatro diante do FMI.”

O presidente também condenou os extorsivos pedágios das rodovias paulistas concedidas pelos governos do PSDB. “Eles têm que explicar o pedágio daqui (Ribeirão Preto) para São Paulo: 300 quilômetros custam R$ 46. Nós, do governo federal, fazemos de São Paulo a Belo Horizonte, 560 quilômetros — e são R$ 7,60”, comparou Lula.

“Com esse pedágio, dá para fazer estrada até com meio-fio de diamante”, ironizou. “O povo de São Paulo paga até o ar que respira. O marido pega a estrada, olha para o lado para falar com a mulher e já está pagando pedágio.”

Segundo o presidente, os tucanos privatizaram as estradas e a telefonia, auferindo lucros incalculáveis — mas onerando o povo. Por pouco não venderam também patrimônios públicos como a Petrobras, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal. Para Lula, uma derrota do candidato José Serra (PSDDB-SP) é a maior garantia de que essas empresas continuarão nas mãos do Estado e a serviço dos brasileiros.

Em todo discurso, Lula comparou os resultados de sua gestão aos do governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e do PSDB em São Paulo. Segundo Lula, foi preciso um presidente sem diploma universitário para que o Brasil tivesse um número recorde de escolas técnicas e de faculdades.

“Alguém vai ter que explicar por que todas as vagas das universidades estaduais de São Paulo não chegam a 100 mil e como o Prouni já colocou 224 mil alunos para fazer universidade.”

“Heroína”

Ao falar de Dilma — que acompanhou em Porto Alegre o nascimento de seu primeiro neto —, Lula afirmou sua ex-ministra “não é bandida como dizem. Ela é uma heroína que lutou pela liberdade deste país”. O presidente também pediu confiança nas eleições de 3 de outubro. “Está na hora do ‘pão, pão, queijo, queijo’. De as pessoas pararem de blasfemar na televisão”, disse Lula — que no domingo acusara os tucanos de fazer “baixarias” nos protestos contra a violação de dados fiscais na Receita.

A atividade reforçou a campanha de Aloizio Mercadante ao governo estadual. “São Paulo não pode ficar nas mãos dos tucanos a vida toda. O século 21 precisa de coisa melhor”, disse Lula. No berço político de Palocci, o deputado não discursou, mas foi aplaudido quando anunciado.

Também participaram do evento vice de Dilma, deputado Michel Temer (PMDB), os candidatos da coligação ao Senado Marta Suplicy (PT) e Netinho de Paula (PCdoB), além dos ministros da Agricultura, Wagner Rossi, e de Relações Institucionais, Alexandre Padilha.

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