fulinaíma

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

TOdos os cachorros são azuis

Estou lendo esta instigante metáfora do Rodrigo Souza Leão, meu amigo virtual de longos papos pelas madrugadas frias, e a sua muitas vezes repetida pergunta não me sai da cabeça: com quando poemas se faz uma metáfora?

O livro me chegou às mãos, através de uma grande amiga Laura Pereira Pinto, e um convite muito especial, conhecer o trabalho que a equipe de psicólogos da qual ela fazs parte,d esenvolve em uma das CAPS em Campos dos Goytacazes.

Ler Todos os Cachorros São Azuis, é um soco no estômago, uma porrada na cara, você não tem como se certificar se a sua narrativa é pura ficção, metárofas e mais metáforas, ou se os seus pungentes relatos teriam sido realmente vividos entre paredes de mancômios como ele narra neste fragmento abaixo:

[trecho]


(...) Na minha voz, um grito.
Mas o Haldol me segura. Segura meus gritos, sussurros. Eu, que já escondi muito remédio debaixo da língua, hoje tomo todos sem problemas. Sei lá se adianta. Sei apenas que sinto falta dos meus dois amigos. Rimbaud aparece e me diz que está com aids. Quer fazer um pacto de sangue comigo. Aceito o que ele pede e corto meu dedão. Baudelaire aparece e diz que quer fazer parte do pacto. Só o fato de morrer de outra coisa que não seja o chip (ou o grilo), já me deixa alegre. Morrer com Rimbaud e Baudelaire. Melhor, impossível. Acugêlê banzai!

Já estive na China. Contando assim, parece que viajei muito. Era um lugar muito bonito, cheio de gente, bicicletas e muitas nuvens. As nuvens, nuvens. Ali tive fome, tive sede, era estrangeiro e loucamente amei as nuvens longe, lá muito longe, as maravilhosas nuvens! Desenhos no céu. Quando o dia está assim, um dia de sol, um dia como este, não quero mais sair daqui. Vou dormir no verde calmo de um Lexotan seis miligramas. Me agarrar ao meu cachorro azul e fazer pactos com a felicidade. Lembrar-me da China, das suas bicicletas, da sua bandeira vermelha cor-de-sangue e finalmente, das incríveis nuvens do céu chinês. Acho que depois do pacato pacto de sangue, serei mais feliz. Quero morrer de tudo, menos por causa de um chip que engoli. Engulo os remédios.

Um dia, engoli três. Outro, engoli quatro. Não sei ao certo o que devo fazer para melhorar. Simplesmente, porque sou um pterodátilo numa gaiola. Um corvo bicando o ventre de um espantalho. Um homem sem medo do terror que é viver sem medo. Never more, todos aqui não têm medo. Inclusive o Procurador Geral da República. Ele me lembra um personagem de faroeste e de filmes de gangster. Mesmo com sua senilidade, ele utiliza uma colher ao invés da faca. Aqui só tem colher. Procurador faz aquela brincadeira perigosa de percorrer todo o caminho entre os dedos com uma faca, no caso, uma colher. O velho faz isso com habilidade, como se treinasse isso há muito tempo. Pra se divertir. Deixar os ventos de adrenalina brisar.

Rimbaud aparece na hora dos vendavais. São ventos que o trazem e me fazem viver enrolado em seu cachecol. Fuma maconha. Desmancham perto de mim as baforadas que Baudelaire dá no seu cachimbo. Ele me diz que é um pai de santo. Ele me diz que tem poderes. Renova minha linguagem. Eu acredito piamente nele. Rimbaud é a tempestade. Baudelaire é o vento. Um toma éter. O outro, cocaína. Triste, sou apenas aquele que descobre que os remédios coloridos engordam e fazem, cada vez mais, eu não conviver com estes meus amigos de longa data. O que é a vida sem amigos? Sou como Emmanuel Bove que secretamente amava os amigos que não tinha. Sou amigo dos meus olhos. Eles só vêem o que quero. Olho pelos meus óculos coloridos e vejo tudo em preto-e-branco. Tudo parece um filme de Bergman.

A propósito, me pareço um pouco com Charles Laughton.

Por pouco tempo, espero. Por que estar gordo e beber café com açúcar? Tudo com muito açúcar. Vejo relógios e as xícaras de café. Cuspo bolas de sabão. Viro um trem que vai indo sem saber onde parar. Me transformo numa máquina que escreve e ela escreve o que quer que eu escreva. Ataco uma formiga vorazmente e vou arrancando pêlos do meu sovaco. Faço uma depilação. Tiro de mim pegadas. Calafrios. Certezas. Coisas que deveria fazer. Tiro de mim enguias ferozes e cubro meu abdômen com algodão doce.

É junho.

Tem festa junina no hospício.
A quadrilha de loucos está em fila. Os que tomam Gardenal não falam. Outros tomam Haldol. Outros são dependentes químicos. Outros estão doidos por uma cachaça e jogam sinuca de bico. Ninguém quer entrar na fila pra dançar. Nenhum psicótico quer dançar. Nenhum oligofrênico quer deixar de dar cabeçadas na parede. Mas Rimbaud está contente e dança sem tristeza. Está, com o perdão da palavra, com a faca entre os dentes. É um espírito cigano, espírito de índio. Espírito de porco. Espinho. Lepra. Aids. Silêncio de cal e mirto, malvas nas ervas finas. Rimbaud borda alelis sobre um pano palhiço. Voam na aranha gris sete pássaros do prisma. Pelos olhos de Rimbaud galopam dois cavaleiros: Baudelaire e eu. Todas as coisas que matam passam por mim. O que é isso? Cocaína ou éter? Que novo som é este? Tambores. Não sei dançar, não sei dançar. Ele é meu amigo, um amigo, enfim. Acugêlê banzai! Cuspo pro alto e abro um guarda-chuva. Baudelaire fala cuspindo. Uso o guarda-chuva pra me proteger. Perdigotos.

Fui obrigado a estar aqui. Não queria vir. Não quero ficar, porra! Avisem pra eles que eu sou o Charles Laughton, porra! Será que nunca viram um filme? Aqueles que estão abandonados teriam uma vida melhor lá fora, inclusive eu. Digamos que estou passando uma temporada no inferno, uma temporada nas têmporas com meus amigos poetas e atores. Amanhã me esqueço deles, mas voltam depois de amanhã. Sei que nunca vão me abandonar, amigos são para isso, não? Gari da Comlurb me convida para comer uma caixa de biscoitos Segredo. A vida é um segredo para mim.

Não sei exatamente o que ela significa. No mundo de fora, procuro no obituário todo dia meu nome. Já decidi: não quero ir ao meu enterro. Como será o céu dos objetos? O céu dos relógios, das tevês, do computador, do estilingue, do garfo, da faca, das colheres? Aqui só tem colher: ninguém come com garfo e faca. Comem de boca aberta, menos a Lembra-vovó. Lembra-vovó come um pouco igual a minha avó, é magra, mansa, meiga. E ainda tem um detalhe muito importante: me dá um beijo toda a vez que passa por mim. Não sou muito chegado a beijos. Rimbaud já me forçou a lhe dar um beijo na boca. Já disse pra ele, não vale a pena, não posso ser o que não sou.

Quem sabe, Rimbaud, o Verlaine chega aí e resolve isso.
Baudelaire aparece com as luvas de boxe. Quase sempre Baudelaire é chato, ranzinza, pentelho e forte. Quase, quase nunca digo sim a Baudelaire. Rimbaud está sujo. Precisa de um banho. Focault já dizia: banho bom é banho frio. Todo louco devia tomar banho frio antes de dormir. O eletrochoque vem do choque térmico.

É o frio que convida o fogo. Pula a fogueira, Rimbaud.

Pula, filho da puta!

O casamento de um oligofrênico com uma bipolar de humor é feito por uma psicóloga gostosa. Há bons médicos. A maioria dos médicos é legal. Meu pai vem. Minha irmã vem. Meu irmão, minha irmã, Adélia e Anália, nossas doces domésticas, com a força de mil Haldois.
Estou triste e todos estão felizes.

Me lembro até das festas juninas da infância.
Por eu ser mais gordo, danço com a garota mais gorda. A vida é assim. Gordo com gordo. Magro com magro. Feio com feio. Bonito com bonito. Queria a garota mais bonita. Queria comer a psicóloga. A vida é assim: louco com louco.

Fizeram uma fogueira enorme com papel e fraldas sujas dos loucos.

As labaredas enormes de merda comiam o rabo daquele que se aventurava a pular as chamas. Ontem foi assim. Hoje é assim, nada muda. Quando criança. Quando adulto. A vida escoa por um esgoto que leva pro mar. Ainda bem que o mar é verde: a cor dos olhos do meu irmão Bruno. São olhos limpos de sofrimento. Quem não sofre, não vive. Quem vive, come batata frita. O bom é que sempre tem batata frita pra aliviar o fardo. Os dias são sempre iguais e vão se repetindo. Ninguém pede licença pra entrar na minha vida, mas arruma sempre uma desculpa pra sair. Veias fabricadas de néon lembram letreiros que vi com Rimbaud em Nova York. Aliás, é um bom título de capítulo: os poetas em Nova York. Imagino eu perdido na Columbia University ou mesmo no Harlem. Vamos lá: eu seria o rei do Harlem: comeria as pequenas judias e mataria os vendedores irlandeses de aguardente. Então eu diria: esse é o meu território, porra!

Tomo remédio com refrigerante. A cocada sobe em minhas veias. O pé-de-moleque chegou sujo. Algum idiota pode pensar que estou perdido nesta festa junina, dançando com a garota mais gorda da sala. Queria dançar com Clarissa. Queria dançar com a psicóloga. Mas Lembra-vovó se assanha e vai descendo até o chão. Será que ela consegue se levantar? Só com um guincho.
Chamem os paramédicos, rápido, por favor. Melhor, chamem a polícia.


[ + detalhes clique aqui ] fonte: http://www.rodrigodesouzaleao.com.br/

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