segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Boemias e análises pró-Dilma de um blogueiro com grana

By Miguel Osório em http://oleododiabo.blogspot.com/

Tenho lutado contra o pessimismo, até porque, de fato, este não é um sentimento favorável à mobilização e pode atrapalhar. Por outro lado, não há como negar uma espécie de perplexidade geral na esquerda com a força do serrismo nesta reta final de campanha.

Ontem eu não consegui ficar em casa e decidi passar o dia na rua, tentando captar alguma coisa e ter idéias novas que pudessem fazer diferença. Trabalhei em lanhouses do Centro e comprei por apenas 10 reais uma bela edição do Decameron em italiano, num sebo do Largo do São Francisco, a qual me levou a adquirir também um dizionario (por 79 reais) e a passar algumas horas num charmoso café ao lado da faculdade de filosofia, lendo sobre os efeitos da peste negra em Florença, no ano de 1348.

Este não é mais um artigo pessimista, mas assim como Bocaccio antes de relatar suas histórias picantes e hilárias (sem querer me comparar ao gênio italiano, hehe), preciso fazer uma introdução quiçá sombria antes de mencionar as novas esperanças que senti hoje, ao ler sobre a acomodação de Dilma Rousseff no Datafolha, oito pontos (ou 11 milhões de votos) acima de Serra.
Ao final da tarde, aconteceu um evento na Cinelândia organizado pelo PT e encontrei alguns conhecidos. Um deles confessou-me que estava muito "bolado" e conversamos a respeito dos erros da campanha, mesmo admitindo que no momento esta discussão não tem mais grande valia para o que pode acontecer no dia 31 de outubro. É um papo sobre futuras estratégias.

Contei-lhe minha tese sobre a classe média: que o PT não entendeu as mudanças que o próprio governo Lula promoveu na sociedade e manteve um discurso voltado apenas para os pobres, esquecendo que 52% da população brasileira, segundo o IBGE, já pertence aos estratos médios. Falei-lhe também sobre esse sentimento difuso contra o partido, escondido sob o manto da popularidade recorde de Lula. Ele me lembrou do conceito "espiral do silêncio", segundo o qual as pessoas seguem a opinião da maioria com medo de rejeição social, e que a aprovação esmagadora do presidente aplica-se perfeitamente neste caso.

Trata-se de uma tese sociológica famosa e que, fui ver na internet há pouco, a direita tem brandido há tempos como explicação para o sucesso de Lula. A espiral do silêncio tem o poder de abafar um sentimento de oposição, o qual, por isso mesmo, aflora repentinamente, silenciosamente, de uma forma meio que inexplicável. Os vinte milhões de votos em Marina e o aumento dos votos em Serra viriam, portanto, desse fenômeno.

Fomos tomar um chop no Amarelinho e especulamos mais um pouco sobre um cenário de vitória de José Serra. Concluímos que o PMDB pularia para o colo de Serra no dia seguinte, e as centrais sindicais voltariam para a oposição. O PT teria que voltar às ruas e às suas bases, o que seria o lado positivo. Lembramos, no entanto, dos recursos provenientes do pressal, das Olimpíadas, da Copa do Mundo, e voltamos a ficar apavorados com a possibilidade da direita assumir ao poder justo agora.

Despedi-me desses amigos, com intenção de assistir Tropa de Elite 2 no Odeon, mas estava lotado. A fila para entrar no cinema contornava o quarteirão. Seguramente tinha bem mais gente interessada em assistir às aventuras do capitão Nascimento do que na manifestação do PT na Cinelândia. Isso também é meio assustador.

Então nos dirigimos à Lapa, compramos um lanche para viagem e comemos em casa. Mas eu ainda estava inquieto e voltei à rua. Queria ver pessoas, conversar. Minha mulher ficou em casa assistindo tv e me encontraria mais tarde. Zanzei um pouco pra lá e pra cá na Lapa, bebendo latinhas de cerveja, e parei para conversar com uns militantes reunidos junto aos Arcos. Já estava me sentindo um pouco mais otimista porque havia visto, horas antes, na TV do restaurante oriental onde compramos nosso lanche, a já citada pesquisa de intenção de voto que dava Dilma oito pontos à frente de Serra. Mas um rapaz com quem conversei, militante do PT, mostrou-se muito pessimista, descendo o sarrafo no próprio partido, o qual, segundo ele, seria o principal responsável por uma eventual derrota de Dilma Rousseff. Ele argumentava que se na hora das eleições houver empate entre os candidatos, Serra ganha, porque - como se pôde ver no primeiro turno - a boataria antiDilma pega no mesmo dia e a mídia com certeza virá não com uma bala de prata, mas com uma verdadeira rajada de escândalos.

Saí de lá novamente cabisbaixo e já pensando em escrever um post intitulado "Serra ganhou", repleto de ironia mórbida, pessimismo, e ao mesmo tempo desempenhando uma função importante a essa altura do campeonato, que é construir, cientificamente, uma blindagem psicológica e política para enfrentar o pior. Se há possibilidade de vitória de José Serra, e não se pode mais negar que há, é importante se preparar para isso, digo, como estratégia política, já pensando em como lidar da melhor forma possível com essa nova realidade.

Vou beber, pensei, desesperado. Havia recebido - finalmente - uma certa quantia pela reportagem que fiz para a Revista do Café, e como já consegui pagar as contas mais importantes (incluindo a do meu 3G, que voltou, ufa, a funcionar), tive uma daquelas noites de milionário inconsequente que somente os miseráveis sabem se autoproporcionar. Entrei num dos bares sofisticados da Mem de Sá com meu adesivo da Dilma colado no peito, ao lado de uma linda moça de microssaia também adesivada (além de uma estrelinha vermelha bem charmosa), e pedi uma dose de Jack Daniels, o drink mais caro do estabelecimento. Tive a impressão que o garçom e nós éramos os únicos eleitores de Dilma ali e por isso mesmo ele (o garçom) olhou-me com orgulho, como que pensando "estão vendo, quem vota na Dilma também é chique e toma uísque importado".

A partir daqui a história se acelera. Pedi mais duas doses, paguei uma casquinha de siri de quinze reais para a moça de minissaia, ligamos para uns amigos, e encerramos a noite num show do Teatro Rival em homenagem ao grande músico e político nigeriano Fela Kuti (ontem foi o "Fela Day"). De manhã, diante de um céu azul esplendoroso, estávamos num quiosque do Leme, comendo sardinha frita, bebendo cerveja, eu ainda com a cabeça cheia de idéias mirabolantes - a maioria irrealizáveis - de como derrotar José Serra.

Peguei um táxi e voltei pra casa. Acordei cheio de culpa por gastar o equivalente a quatro assinaturas da Carta Diária mas bem menos pessimista, sobretudo depois que li os jornais. Por duas razões bem concretas:

O Datafolha (depois do primeiro turno, me desculpem, não acho mais prudente menosprezar nenhum instituto de pesquisa) não apenas mostrou estabilidade em relação aos votos válidos (Dilma 54% X 46% Serra), como mostrou crescimento da petista (e queda de Serra) junto ao público com ensino superior e junto às classes mais altas, sinalizando um arrefecimento importantíssimo no fluxo da "espiral de silêncio", que vinha (e ainda vem) com muita violência dos estratos superiores da pirâmide social. O mesmo instituto detectou AUMENTO da popularidade de Lula, que bateu novo recorde histórico, atingindo de 81% de ótimo/bom. Lógico que isso é um ótimo sinal.

Há uma matéria de Mônica Bergamo, na Folha, confirmando, com detalhes, depoimentos e entrevistas, uma história que corre há dias na internet, e que eu mesmo me recusava a acreditar, achando ser uma armadilha tucana: Mônica Serra, mulher do candidato à presidência da República, fez aborto nos anos 70. Que ela é mau-caráter já sabíamos, por sua manifestação absurda num corpo-a-corpo na periferia do Rio, quando falou a um cidadão que havia declarado voto em Dilma, na frente de vários repórteres, que a petista era a favor de "matar criancinhas". Agora sabemos que ela é uma cretina. Os moralistas mais extremados são invariavelmente grandes hipócritas. Depois dessa confirmação, não há mais porque esconder essa história, que desmascara o maniqueísmo vulgar que o PSDB e algumas lideranças religiosas vinham tentando imprimir à campanha.

Resumindo: acho que o pior já passou. A onda verde que estremeceu o cenário político no dia 3 de outubro, e que quase afogou Dilma, já está refluindo. A "espiral do silêncio" antipetista perdeu força, e a popularidade de Lula, segundo o Datafolha divulgado hoje, bateu novo recorde. Assim como a esperança venceu o medo em 2002, a razão derrotará o ódio em 2010. São 15:42 aqui no Rio de Janeiro. O sol não brilha muito forte, mas brilha.

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