fulinaíma

sábado, 8 de janeiro de 2011

*A CULTURA, A ARTE E A POLÍTICA CULTURAL*

por Almandrade

Nas chamadas políticas culturais emergenciais, na maioria das vezes, são
discursos onde a cultura não passa de uma fantasia, uma miragem no fim do
túnel. Como ela não é assunto prioritário, foi transferida para a iniciativa
privada. Os investimentos visam retornos, fala-se em números, percentuais,
nas leis de renúncia fiscal, sem uma idéia clara de cultura e seu papel na
sociedade. Todo mundo se acha no direito de opinar, o patrocinador, o
empresário, o político, o produtor cultural, o professor universitário, o
curador etc. menos o artista e os que trabalham diretamente com as práticas
artísticas, os operários da linguagem.

Depois da descoberta tardia que a cultura não se restringe às linguagens
artísticas, as práticas acionadoras do pensamento crítico passaram a ser
vistas com desconfiança, "coisas de elite", foram marginalizada e o
entretenimento passou a ser o centro do financiamento público. A festa
passou a ser o alvo dos investimentos públicos e privados em detrimento da
cultura pensamento.

O que deveria ser uma política pública de cultura? Uma pergunta oportuna em
momentos de transição política, quando as reivindicações reaparecem e as
disputas por cargos públicos emergem. Antes de ser um problema de economia,
de leis de incentivo, de política partidária, a cultura é um dispositivo da
cidadania, um direito básico que deve fazer parte da formação do sujeito. "A
cultura é coisa do homem que mora num certo lugar e num certo tempo" (Gerardo
Mello Mourão). Portanto, antes de falar dos reduzidos recursos econômicos
destinados à área cultural, é estratégico se pensar em intervir
culturalmente no modelo de desenvolvimento que afeta o meio ambiente, as
condições materiais, sociais e culturais de uma comunidade.

Uma política de cultura deve primeiramente levar em conta o quanto ela
contribui para o imaginário das pessoas, tornando-as capazes de assumir
decisões nas suas vidas. Que ela é uma forma de relacionamento com o mundo e
seu cotidiano, antes de ser uma mercadoria e um objeto da política. Relegada
à condição de entretenimento, passou a fazer parte das diversões, regida
pela economia da cultura. E tudo que faz a economia crescer, que gera
emprego e renda é ético nesta sociedade onde o emprego é cada vez mais
difícil. Mas a ética e lógica da cultura é outra. Se a diversão faz a
economia crescer, atende a demanda de habitantes, e turistas carentes de
lazer, poucas vezes contribui para o aumento e transformação do repertório.

O homem vive entre a natureza e a cultura. E a cultura é uma construção do
homem. Um trabalho. Resultado de um longo caminho. Cada cidade, estado ou
região tem uma cultura que lhe é própria e múltipla. Uma política de cultura
deve garantir a liberdade das diversas manifestações, sem qualquer
interferência, e transferir as decisões para quem faz cultura, quem conhece
as particularidades das linguagens, quem diretamente lida com o patrimônio
material e imaterial que faz o acervo de uma cultura.

E quando se fala de artes, produtos diversificados e delicados e ao mesmo
tempo conhecimentos específicos que fazem parte de uma cultura, o político,
o produtor ou o atravessador deve ser substituído pelo técnico ou o
especialista do metié. E uma instituição que trabalha com as artes tem como
princípio estimular a liberdade de expressão e não servir com extensão de
outras políticas ou de outras instituições.

*Almandrade *
*(artista plástico, poeta, arquiteto e presidente da Associação de Artistas
Visuais da Bahia)*

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