segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

A pedagogia do verso




"Quem lê poesia entende qualquer texto", diz Fernando Freire, 45 anos, diretor do Centro de Ensino Fundamental nº 8 do Gama.

Maria Júlia Lledó in http://www.correiobraziliense.com.br/

Fernando Freire com as alunas Maria Luiza, Juliana e Natália
A frase citada pelo diretor é dita pela atriz Michelle Pfeiffer no filme Mentes Perigosas. Na ficção, a bela interpreta uma professora às voltas com alunos desinteressados pelo estudo. O mesmo pensamento também serviu de inspiração para Fernando. Formado em História e poeta há mais de 20 anos, ele acredita no perfil multidisciplinar da poesia. Seu maior desejo é desmistificar essa arte e aproximá-la da vida dos cerca de mil alunos que frequentam o colégio.

Atento a outras iniciativas — como a valorização do rap como expressão poética em escolas de São Paulo —, o diretor propôs um novo projeto. No ano passado, graças a uma verba do Ministério da Educação, a escola editou a primeira edição do livro Eu conto, tu versas. O livro reúne poesias e contos de 70 alunos de 5ª a 8ª séries com o objetivo de “desenvolver a autoestima deles e mostrar que eles também são capazes de produzir”, destaca Fernando. Maria Luiza Vietes Pedrosa, 13, Juliana Monteiro, 14, e Natália Oasis, 15, tiveram textos selecionados para a publicação e deram autógrafos na noite de lançamento, em novembro último.

Orgulhosas do resultado, as três estudantes defendem que a poesia não é algo inalcançável e restrito a poucos. “Dá para ver poesia em tudo, até em coisas que não têm nada a ver. Vejo poesia na escola, em casa, com meus amigos. De tudo podemos tirar poesia”, exalta Juliana. Maria Luiza confessa que é fã da prosa poética de Clarice Lispector, enquanto Natália gosta das letras de música do ex-Titãs Nando Reis.

Esse encantamento das alunas é comum a muitos adolescentes, segundo a poeta Marina Colasanti. “Quando os hormônios galopam e surgem os primeiros amores, a ligação com a poesia pode ser muito intensa.” No entanto, para que esse laço exista, a escritora pondera: “É preciso ter sido apresentado — e bem apresentado — a ela. Daí a responsabilidade dos adultos, que podem mediar esse encontro.”

Ciente da importância da poesia nessa fase de vida e do papel da escola na formação dos jovens, Fernando sonha com outras edições do Eu conto, tu versas. “Lembro-me de uma música do grupo de rap Facção Central que questiona: ‘Quantos Drummonds na maca de alumínio?’ Ou seja, quantas pessoas com potencial ficam alijadas de um futuro, em decorrência da situação econômica? Cabe à escola não só passar conteúdo. Ela pode alavancar ou atravancar a vida de uma pessoa”, alerta.

Maria Luiza, Juliana Monteiro e Natália acabaram de se formar no ensino fundamental e levam a poesia na mochila. Maria Luiza pensa em cursar relações internacionais e Natália, publicidade. Juliana ainda tem dúvida quanto à carreira, mas gostaria de ser escritora. “Só sei que vou continuar escrevendo porque acho que entendo um pouco mais de mim ao colocar uma história no papel”, diz a jovem.


LEIA UM TRECHO
do livro Eu conto, tu versas


Mar
(Amanda Xavier da Silva, 5ª B)

O mar corre
Corre o mar
Junto das águas
No rio Paranoá

Dia e noite
Corre o mar
Vai correndo
Com vontade de voar

Mas não voa
Nem sequer sai do chão
Somente sai correndo
Feito um fugitivo ladrão


O Futebol
(Gabriel Skolymowisk, 5ª B)

O país do futebol
É um país de adoração
Todo mundo torcendo
Pra ganhar o bolão

Várias pessoas
Se reunindo nesses tempos
Umas vêem o primeiro
E outras o segundo

O primeiro não pode ser bom
Mas o segundo é fascinante
O momento que a bola entra
É mágico e brilhante

Muita comida no estádio
Torcedores com suas bandeiras
Torcendo para os seus times
São Paulo, Flamengo, Palmeiras
O futebol contagia
Com muita alegria
Paz no coração e muita harmonia

Amo-te, Brasília
(Gabriel Matos Cruz, 8ª B)

Devo dizer: amo-te Brasília
Aprendi a amar minha cidade
A cada momento, a cada minuto

Não estava aqui quando inaugurada
Agora que me acolheu,
Sei que é mãe, pai, tia...

É uma família que você adotou!!!
Adotaste, também, tantos outros
que aqui chegaram

Você já tem 50...
Maravilhosa é você
Adotaste a nação inteira!
E verdadeiramente quero dizer
Amo-te, Brasília!


federico baudelaire - viagens insanas

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