terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

A destruição do contemporâneo

enquanto isso dilma discursa na festa da falha de são paulo


.por Ana Peluso,

terça, 22 de fevereiro de 2011 às 03:29.

É inacreditável que a subprefeitura do bairro da Lapa, da cidade de São Paulo não pense um momento sequer no bem estar de seus moradores. A começar pela limpeza, quase inexistente. Da rua Fábia pra baixo (sentido Lapa de Baixo), é lixo puro. As árvores, a maioria com cupins, não são removidas, nem podadas. A que está em frente de casa, vai cair. E não vai demorar muito.

Oca, com as entranhas totalmente devoradas por cupins. Leve. Um perigo. Gigante. Outro perigo. Se cair, vai cair pro lado do prédio da frente, que apesar de abrigar várias empresas, é baixo. O suficente para ter todos os vidros das suas várias janelas, detonados, e a árvore deitada por algum tempo em cima do seu telhado.

A base da ávrore virou mini-lixão. Todo mundo que passa em frente, deixa alguma coisa: sacola, garrafa pet, cocô de cachorro, pote de danone vazio, travesseiro, cabo de vassoura, armário de banheiro, sapatinho de bebê, garrafa de pinga, lata de cerveja, e a lista é infinda. Um funcionário veio limpar o que sobrou do recapeamento da rua (acontecido há duas semanas atrás) e jogou o resto de piche e pedra... na base da árvore, claro!

Ele tinha com ele um carrinho de mão exatamente para isso: carregar a sujeira que o recapeamento fez. Mas pra quê carregar peso, se você pode deixá-lo na porta da casa de alguém?

O recapeamento - e é necessário dizer - esse de duas semanas atrás - aconteceu entre 1h e 4h15 da manhã. Ou seja, de madrugada.

Em vez da equipe de mapeamento logístico da subprefeitura da Lapa lembrar que cone existe para ser usado, e que o seu uso é interditar uma área, eles preferem colocar suas empresas terceirizadas para trabalhar de madrugada, afinal, desviar trânsito pode gerar menos dinheiro, e tem gente ganhando muito dinheiro nesse país, só com a burrice institucionalizada do povo.

De quê adianta ter uma Hilux e ser obrigado a andar a 20Km por hora, num trânsito infernal, e mal distribuído?

Repito: por falta de mapeamente logístico do trânsito da subprefeitura, da prefeitura, do governo do estado, e do governo federal.

Ou vai ver, a subprefeitura não conta com uma equipe de mapeamento logístico, e por isso esse bairro é a bagunça que é. E, respectivamente, a cidade, o estado, e o país.

Dei a idéia de vender logística para o governo, para o Eike Batista, mas ele não me deu a menor bola. Fingiu que eu não existo. E quer que eu acredite nisso. Tá.

Pois bem, voltando para a esfera sem podere$, há mais ou menos quatro horas atrás, ou seja, às vinte pra meia-noite do dia 22 de fevereiro de 2011, eles voltaram. Os meninos do recapeamento, monitorados por dois chefes da empresa terceirizada que a subprefeitura contrata. E voltaram com tudo.

Eu sou hipotensa. Sempre fui. O que aconteceu de uma hora para a outra, foi algo tão indescritível, que minha pressão, eu, que sou hipotensa, foi para 17 por 9. Eu juro que achei que fosse ter um AVC. Porque sou propensa. Apesar de ser hipotensa, tenho ateroscleorse. E uma mãe, doente crônica, hipertensa, usando oxigênio caseiro. E um filho que precisa acordar cedo.

Um barulhão infernal, indescritível, inadmissível, estrondoso, feito por uma máquina de recapeamento de vias, e seus operadores, igualmente infernais, estrondosos, inadmissíveis, e indescritíveis.

Quando outra empresa terceirizada veio religar a luz da rua, outro dia, e deixou minha casa na escuridão, desci para pedir que religassem a fase da minha casa, e um dos funcionários ameaçou me dar um tapa.

Ninguém merece. Cidadania não é só o dever de participar, é também o direito de SER cidadão. E não podemos afirmar que somos cidadãos, quando somos tratados como peças de um mecanismo descartável, sem noção de vida, de limites, e de responsabilidade e respeito para com o próximo. Tanto faz se alguém morrer de AVC ou embaixo da árvore — que vai cair. É mais um número na estatística. E como o mundo tem sido dos espertos, mas o inferno também é, é bom lembrar que para a Geometria Sagrada, o número das estatísticas funciona em outra escala, sob outros conceitos. E ao contrário da pressa terrena, ele tem toda a eternidade para elencar "quem é quem".

Respira.

Com o coração a não sei quanto, e a pressão a 17 por 9, eu chamei a polícia. Vai que levo outra ameaça de bofetão?

E, se as leis devem ser aplicadas a todos igualmente, entendo que a subprefeitura também deva cumprir com a lei. No caso, a do silêncio. Ou me indenizar pelos danos que seu desacato à essa lei venha me causar. É assim que eu entendo a lei, e é assim que ela se aplica.

Pede RG, nome, chama o responsável pela terceirizada, faz o mesmo com ele, tudo meio pro forma, tenta me intimidar com "aí, a senhora está exagerando ...", quando argumento que, caso desse uma festa à meia-noite de uma terça-feira, eu estaria errada (como "exagerando, senhor?"), que o direito do outro termina quando começa o meu, mas eu nunca me fodo à toa, e aproveito, dou idéias para isso ser feito de dia, mas afinal: o quê que a polícia tem a ver com a péssima administração da subprefeitura da Lapa, e da prefeitura de São Paulo? O que a polícia tem a ver com o estado, com o cumprimento das leis (deveria, né?), comigo, e com a minha hipertensão súbita? Ele, policial militar, talvez nem se sinta cidadão... Ganha tão pouco, que provavelmente não se sente, mesmo.

Sem contar que quando não rola grana, rola vontade de potência, e pra policial militar só tem graça: separar briga doméstica, dar porrada em pichador de muro, tomar baseado de adolescente, e, agora, a nova modalidade: apartar briga por causa de animal doméstico. Uma lástima. Os animais têm quase mais direitos do que nós. É capaz da polícia conter uma lide entre vizinhos que brigam pelos latidos dos seus cães, do que fazer um geiser sintético - e por isso passível de - calar a boca.

Depois de muito blá, blá, blá humanista, e uma frase que faz um dos policiais me olhar de forma um pouco mais... "humana", conseguem convencer o responsável pela terceirizada a parar a obra. Afinal, segundo ele, David (ele pronunciou Dêividi), só falta mesmo "amaciar o glacê" da pista. Que por sinal, foi muito bem feita do lado de lá, onde a árvore vai cair, e onde fica um prédio de classe média alta "altíssima", que toma conta de metade do quarteirão — e que por uma dessas coincidências da vida, é o local em que eles estão fazendo o reparo —, e que ficou uma droga do lado de cá, que é onde as casinhas mais humildes se enfileiram geminadas.

Dá vontade de vomitar, eu sei. Eu quase vomitei. Mas foi pela pressão alta, que embrulha o estômago imediatamente. Súbita. Subitamente alta. Um horror. Nunca tinha passado por isso.

O próprio policial, o que se "humanizou com a frase humanista", disse que daria tranquilamente para fazer o reparo, e mesmo o recapeamento que foi feito até as quatro da matina, há duas semanas atrás, baseado nas minhas idéias (que vêm lá dos anos 70, ou seja, não são minhas de todo): isolar a área, fazer o trabalho, e o adequar o trânsito usando cones e faixas, durante o DIA. Oras, são só quase cinco horas para finalizar o recapeamento de uns dez quarteirões.

O trânsito é um ir e vir de gente em suas máquinas. Eu sou só gente.

Pois bem, voltando: bastou a polícia entrar em entendimento, entrar na viatura, e ir embora, e eles começaram tudo de novo. E aos brados. Pareciam possuídos.

Aí eu não aguentei. Coloquei o gravador do PC para gravar, porque não tenho câmera, e pensei que tivesse registrado as quase três horas e meia de um barulho insuportável, como se um geiser estivesse jorrando vapor direto do meio da rua na cara, olhos, e o pior: no ouvido da gente. Imagine uns mil botijões de gás vazando ao mesmo tempo, mais dez escolas de samba da Mangueira socando o pé no afasto com salto plataforma, de aço. É mais ou menos isso.

Mas infelizmente o PC — apesar de agraciado com a marca da maçã mordida — já não anda essas coisas, e não gravou um só ruído de quase uma hora e meia de barulho insuportável. Quando terminei a gravação, imaginando colocá-la imediatamente no Youtube, e peitar a subprefeitura, o Kassab, e o Papa, nenhum som saía do arquivo.

Supondo que eu poderia ser processada, caso tudo o que disse sobre o que eu penso da política, da estrutura da política, e do mundo em geral, e alguns adendos, fosse publicado em viva voz no Youtube, em meio à barulheira, é melhor que tenha sido assim. Porque impulsiva do jeito que eu sou, eu ia colocar no Youtube, mesmo, e terminaria processada por quem está tentando acabar comigo sem ser processado.

Desnecessário dizer que passei quase três horas me sentindo no meio de um vulcão. E eu continuo sendo só gente. Lava é outra coisa.

Mas o que mais me indignou é que vizinho nenhum saiu para ajudar a reclamar. E quando o sussurro do bem se cala diante do berro do mal, é que as coisas ficam preocupantes, já disse alguém, que depois desse stress todo, não me lembro quem é.

Se você começou a ler esse texto impressionado pelo título, explico: ao levantar para buscar café, afinal o que sobrou para ser feito à mão ainda está sendo feito pelos trabalhadores da tercerizada, e eles não calam a boca, nem as risadas, eu vi que a Cultura acabava de exibir um doc chamado "Invenção do Contemporâneo", e pensei: Mas que raio de invenção, quel nada. Estamos é destruindo o contemporâneo. Porque só o homem é contemporâneo. O resto é pangrafia pura, iconoclastia de uma época, que amanhã deixará, sem melindres, de ser contemporânea. E por outro lado, se já construímos essa iconoclastia contemporânea, agora é hora de lucrar destruindo.

O homem é contemporâneo. É cidadão. É pagador de impostos. É quem mantém essa geringonça toda em pé, mas ele é o último na escala de interesses. E parafraseando melhor o infeliz do Bóris Casoy: o homem, do alto de sua gigante estatura, rendendo graças diariamente à máquina que o destrói.

*
Em tempo: um dos policiais (o "humanizável") me disse que isso acontece em São Paulo inteira, mas seu quisesse podia fazer um B.O., e "subir para inquérito", para em seguida abrir um processo contra o prefeito.

Isso deve acontecer em outras regiões do país, todo santo dia. Se cada cidadão abrir um processo contra a prefeitura, subprefeitura de seu bairro, governo do estado, e quetais, o que vai ser do judiciário? Sem contar que o Kassab tem muito mais grana do que eu, infinitamente mais, para contratar os melhores advogados do país, enquanto eu teria que me virar com um defensor público recém-formado, que obviamente não conseguiria montar uma acusação que cobrisse todas as brechas que os advogados da prefeitura encontrariam para explicar o que não tem explicação, nem faz o menor sentido.

E eu teria que arcar com as custas dos melhores advogados do Brasil, porque certamente perderia a ação.

Isso não é crescimento, isso é estupro progressista. E faz muito mal à saúde. Do homem. Esse, que rende graças às máquinas que o destrói.

*
Três e meia da manhã de terça-feira: eles ainda não acabaram de destruir o homem, e não sei se acabam tão cedo. Ou se acabam cedo.

*
E eu sinceramente acho que devemos começar a cobrar qualidade de vida. A indústria farmacêutica que vá à falência. Seria um favor, inclusive.

Vai chegar o dia em que ficará caro demais manter um ser humano vivo, são.

E ninguém faz NADA.

Estou fazendo modestamente a minha parte. Colocando a boca no trombone. Nada melhor do que a internet para resolver coisa alguma, mas para “viralizar” uma idéia.

Estou tentando dizer NÃO à dinamite sobre o homem.

Ficar parado não dá.

Até porque ela vai explodir, mais dia, menos dia.

*

Obs: O texto é longo porque dizer "o governo não presta" não surte efeito. É mais ou menos o que as manchetes dos jornais pregam todos os dias, com outras palavras, e não muda nada.

Obs2: Desculpem quaisquer erros de português, digitação, "começão" de letra, mas considerando o estado em que me encontro, nem sei como esse texto saiu.

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