terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Os sentidos da honra na distinção entre escravos e senhores

O desenraizamento, antes decorrente do tráfico negreiro, corre hoje bem mais rápido. E a desonra é peça estratégica na escravidão contemporânea: presos por dívidas, trabalhadores se "acorrentam" para evitar "sujar" seus nomes

Por Ivan Paganotti* no sitio http://www.reporterbrasil.com.br/

Violência, desvinculação das raízes e desonra. Desses três fatores fundamentais para o funcionamento da escravidão, já identificados por Orlando Patterson em seu estudo "Slavery and social death", a questão da honra se desdobra como um elemento mais complexo e mutável do que o chicote e o navio negreiro. Para seguir as transformações por que passou o sentido da honra na sua travessia atlântica de Portugal para o Brasil, o historiador Jackson Fergson Costa de Farias analisou a sua relação direta com a manutenção da escravidão na dissertação de mestrado "Honra e escravidão: um estudo de suas relações na América Portuguesa, séculos XVI-XVIII".

Inicialmente, "honra" envolvia a posse de um terreno livre da intervenção e dos impostos reais, uma recompensa por feitos militares. Posteriormente, o termo ampliou-se para ser acessível pela burguesia ascendente, passando a significar um reconhecimento social, respeito e reverência no tratamento de indivíduos dignos, virtuosos ou que detinham boa fama devido a cargos ou ações.

Mas a honra passou a ter um sentido próprio na América portuguesa, relacionando-se intrinsecamente com a escravidão: o novo continente era visto como uma oportunidade para acumular riqueza e status social e os colonizadores que fugiam da pobreza no Velho Continente podiam aqui se apoiar na força de trabalho dos escravos como alavanca para conseguir riqueza, uma vida digna (sem trabalho) e "honrada".

Se na casa grande a honra era garantida pela produção da senzala, para os escravos ela era simplesmente inacessível. O escravo era um indivíduo "desonrado" devido a sua total submissão e sua impossível independência: sem estima pública ou nome público a zelar, não podia ser reconhecido pela sociedade que prosperava com seu trabalho.

Após esse primeiro momento, quando a posse de escravos e o enriquecimento com a exploração de seu trabalho garantiam a honra de um senhor, Farias classifica duas etapas seguintes em que o sentido da honra passou por alterações: o bom governo dos escravos passa a ser também um fator determinante para a honra senhorial; e a honra finalmente pode ser reconhecida como uma característica dos próprios escravos.

Nessas fases posteriores, sermões e escritos de jesuítas como o padre Antônio Vieira passaram a defender uma paradoxal salvação dos escravos por meio da escravidão. A conversão ao cristianismo seria a garantia de uma "carta de alforria" espiritual no além-vida, quando o escravo poderia viver com honra no paraíso. Também o padre Manuel Ribeiro Rocha representa a escravidão brasileira como um "resgate" do paganismo africano que condenaria os negros ao inferno cristão. Dessa forma, os escravos convertidos deveriam servir aos seus senhores como se estivessem servindo ao deus católico, garantindo a salvação como recompensa da conversão e do trabalho submisso.

Outros jesuítas, como o italiano Jorge Benci, tentam também controlar os excessos dos senhores, recomendando que a alocação de trabalho e punições seja feita segundo preceitos cristãos: os escravos passam a ser vistos como parte do corpo do senhor e, portanto, alvo de zelo para evitar a desonra. Assim como o servo tinha obrigação de obedecer sem questionar seu senhor, também seu proprietário deveria cuidar de sua alimentação, sua vestimenta, seu tratamento médico e sacramentos católicos.

Porém, a honra ainda era vista como monopólio do senhor - ainda que mais benevolente e consciente dos motivos religiosos, éticos e econômicos do bom cuidado com o escravo. Farias aponta que somente com Manuel Ribeiro Rocha pode também o escravo ser honrado: o padre português recomendava que melhores vestimentas fossem dadas como recompensa ao servo mais digno, e reconhece uma "honrinha" que o escravo teria ante seus iguais ao exigir que o senhor não o ofenda nem use de injúrias durante os castigos, evitando punições coléricas, injustas ou contra inocentes.

A interpretação de Farias sobre esses textos mostra quão limitada é a representação dos escravos como seres totalmente desprovidos de honra durante a colonização brasileira. Se a honra podia ser usada também para garantir cuidados e evitar abusos, como recompensa no além para uma vida de servidão e até era reconhecida uma honra entre os próprios escravos, começava a se semear o terreno para a emancipação dos cativos a partir do reconhecimento de sua honra.

Além disso, um paralelo atual poderia ser traçado entre os três pilares da escravidão colonial, identificados por Patterson, a partir dos novos sentidos para a honra dos escravos, como sugerido por Farias. A violência do chicote agora alcança mais longe e fere mais fundo com as armas de fogo que ameaçam os trabalhadores em condição análoga à escravidão.

O desenraizamento provocado pelo navio negreiro agora corre mais veloz nos rios de asfalto que levam migrantes a se deslocar por centenas de quilômetros fugindo do desemprego. Em busca de uma vida melhor, escravos contemporâneos se veem acorrentados em situações de exploração das quais não podem escapar. E a desonra é uma nova peça estratégica: presos pela dívida contraída nas fazendas, os trabalhadores estão acorrentados pela força de seu nome a zelar.

Mesmo que baseado em um endividamento ilegal (na cobrança de utensílios, moradia e alimentação que devem ser oferecidos pelos empregadores), os trabalhadores continuam na labuta para quitar suas dívidas, na tentativa de reconquistar pelo trabalho uma honra que lhe foi tomada e difamada pelos que enriquecem com seus esforços.

Acesse "Honra e escravidão: um estudo de suas relações na América Portuguesa, séculos XVI-XVIII", de Jackson de Farias, na Biblioteca Digital da USP

*Jornalista e mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo. E-mail: ipaganotti@usp.br


Lula começa a desencarnar no FSM

por Renato Rovai, no Blog do Rovai

A grande atração de hoje no Fórum Social Mundial foi a mesa da qual participaram o ex-presidente Lula e o presidente do Senegal Abdulaye Wade. Lula falou antes do senegalês. Sorte do público, que teve a liberdade de ir embora depois da fala do brasileiro sem ter de ouvir uma empolgada defesa do liberalismo econômico.

Lula deu sinais no discurso de hoje que começou a desencarnar. Na entrevista concedida aos blogueiros em dezembro ele disse que precisa de um tempo fora da presidência para poder começar a falar alguma coisas. Seu discurso voltou a ser mais petista. E de um petismo fora do governo. O que pode ser muito interessante para puxar o partido para uma linha menos recuada.

Lula falou sem meias palavras que a crise financeira de 2008 comprovou que o consenso de Washington e a agenda neoliberal fracassaram. Que os países ricos sempre trataram a periferia do mundo como problemática e perigosa e que só quando a crise atingiu o centro do capitalismo mundial é que eles buscaram dialogar com esse setor pra tentar resolver o problema deles.

Também deu pau na direita européia e estadunidense “que aponta a imigração como responsável pela corrosão do sistema econômico dos seus países”.

Chamou a elite africana na chincha e deu recados explícitos ao presidente senegalês. “Não há soberania efetiva sem soberania alimentar. As savanas africanas têm 400 mil hectares e só 10% disso é aproveitado para agricultura. Mesmo assim, 1/ 4 de toda a produção de alimentos do continente vem dali. É preciso começar a mudar essa situação”.

O futuro presidente de honra do PT também afirmou que “é fundamental a criação do Estado Palestino que tenha condições de se desenvolver e que conviva em paz com Israel”.

E lembrou que, em 2005, quando visitou a Ilha de Gore, pediu perdão em nome de todos os brasileiros pelo período de escravidão no seu país. Mas acrescentou: “a melhor maneira que temos de fazer essa reparação não é só pedir perdão, mas lutar por uma África justa”.

No âmbito das organizações internacionais, Lula disse que o G20 não tem sensibilidade para o problema da fome e para outras questões que deveriam ser prioridades no mundo. E que enquanto presidente do Brasil nunca foi chamado para uma reunião dos países ricos. “Só fomos chamados quando eles entraram em crise.”

Ao final Lula provocou os presentes dizendo que não bastava ser militante só durante o FSM, mas que era preciso sê-lo durante os 365 dias do ano. Depois desse discurso forte e posicionado de Lula, traduzido pelo sociólogo Emir Sader para o francês, o presidente do Senegal iniciou sua fala também de forma forte e posicionada.

Mas dizendo que era partidário da economia de mercado, porque a economia de Estado havia sido um fracasso onde tinha sido implantada. Mas que achava que a economia de mercado precisava de um regulação do Estado liberal. Para na seqüência perguntar à platéia: “Por que o liberal que eu sou abre as portas do seu país para um evento como Fórum?" Para responder em seguida que é porque ele acha importante o debate de idéias.

A intervenção de Abdulaye Wade só não foi mais constrangedora, porque o público do FSM deu mais uma demonstração de grandeza e sabedoria política e não o deixeou falando literalmente sozinho. Algumas pessoas saíram do auditório durante sua “aula de neoliberalismo”, mas a maioria respeitou o contraditório. E ficou até o final.

Um pouco antes de terminar, Abdulaye Waded decidiu fazer uma pergunta meio boba à platéia, até de forma deselegante, dizendo que achava que nesses 10 ano o FSM não tinha conseguido nada de concreto e se tinha o que era?

Teve de ouvir um grito em uníssono de Lula, Lula, Lula que ecoou por uns 3 minutos na sala. Lula estava no 1º FSM, em 2001, antes de ser eleito presidente da República. E veio ao FSM de Dacar para fazer a seu primeiro discurso político público após deixar a presidência.

A provocação de Abdulaye Wade serviu para muitos altermundistas reivindicarem o ex-presidente Lula também como um símbolo internacional deste processo.

Aliás, não seria nada mal que Lula assumisse bandeiras do FSM e saísse por aí como um mascate de um outro mundo possível.

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