fulinaíma

domingo, 20 de fevereiro de 2011

A poesia e a prepotência acadêmica

pipas - foto: artur gomes

Por Sérgio Massucci Calderaro no sitio Cronopios

Não sei se foi coincidência, mas nas últimas semanas caiu nas minhas mãos (na mina tela, melhor dito) um par de artigos espezinhando um monte de gente bacana e não raro talentosa, sempre com o gentil cuidado de não citar nomes. Fiquei chateado e resolvi mandar este texto pro Pipol, para que também circule por aí uma outra opinião a respeito.

Primeiro: ninguém é dono da poesia. Ela é livre e é de todos que a queiram praticar, tenha o sujeito estudos específicos ou não. Uma digressão: nos anos setenta, o punk rock deixou um recado. Esse estilo dos que não sabiam tocar – mas eram, sim, artistas – influenciou sem volta toda a evolução da música pop dali por diante. Mas fechemos parênteses, com a consciência de que já vai ter gente torcendo o nariz para este artigo por eu ter citado o punk, que afinal de contas não é música, é barulho (enquanto eu trabalhava neste texto, li no jornal espanhol “El Mundo” notícia que vem a calhar: “Sex Pistols y The Clash entran en los salones clásicos de Villa Médici – El fastuoso conjunto arquitetônico de Roma se abre a uma exposición sobre el punk”).

Segundo: estar por dentro de redondilhas, decassílabos ou alexandrinos é ótimo. Conhecer as possibilidades e variantes de acentuação e ritmo também. Saber a história, o desenvolvimento, as formas mais usadas em cada época, onde e por quem é bacana para chuchu. É mesmo fascinante (para quem gosta, claro), e digo sem nenhuma ironia. Afirmar que só quem quebra regras é aquele que as domina faz todo o sentido. Quem não as conhece pode até quebrá-las (provavelmente as quebrará), mas não tem consciência disso, ou seja, ele realmente não está infringindo nada, considerando que a falta de conhecimento da norma invalida a intenção da infração. Esse sujeito está apenas escrevendo porque lhe deu na telha, porque tinha algo a dizer, a botar para fora, e enxergou no formato poético um bom meio de se expressar. Ele está apenas escrevendo naturalmente, guiado talvez por ritmo, métrica e acentuação instintivas. Seria o caso de rechaçar sua produção mesmo sem antes dar uma olhadinha, pelo simples fato do praticante dessa poesia não conhecer a teoria poética e supostamente não dominar essa linguagem? Segundo o que tenho lido por aí, sim. Isso se chama preconceito, que, nesse caso, tem origem na prepotência.

A poesia alternativa está mais marginalizada do que nunca. Saiu de moda. Perdeu o glamour. Aliás, esse rótulo de alternativo ou marginal surge não se sabe bem de onde (e também não é neste artigo que vamos atrás dessa resposta). Há muito que se dizer. Leio, por exemplo, que Bandeira ou Oswald podem quebrar regras. Leminski também pode. Isso porque se pressupõe que eles conhecem a Teoria da Literatura de cabo a rabo e, é provável, já se sentaram na mesma mesa de Antonio Cândido para jantar. Aí já é outro patamar. O Pepito da Esquina escreve tudo torto e às vezes usa cu e buceta (assim com u mesmo) no texto. É mais um moleque que não merece atenção. Joga o cara para vala-comum de atuais pretensos poetas alternativos. Um lixo.

A poesia parece estar em mãos erradas. Quando, no início, fiz uma comparação com o “faça você mesmo” punk, a intenção foi mesmo trazer a confecção e leitura do poema ao patamar do chamado pop. Ela, a poesia, merece. A aura de austeridade e de arte para poucos deveria ser, uma vez mais, eliminada.

Apoiar-se em nomes consagrados como os dos modernistas de vinte e dois é fácil e é covardia. Será que se algum acadêmico ou crítico lesse algo ao estilo de “O Capoeira”, assinado pelo nosso já conhecido Pepito da Esquina, iria gostar ou ao menos respeitar esse texto? Eu desconfio que não. Oswald faz pouco caso das regras e é bom; Pepito tampouco as respeita e já é ruim de saída, pois sequer as conhece. Não gosto desse critério. Por isso, o que este artigo pede é somente que se preste mais atenção à molecada, os atuais punks da poesia. Vai que tem coisa boa aí sendo desprezada por puro preconceito.

É necessário e saudável que exista um contraponto aos bons moços reinantes em nosso pobre e enfadonho panorama poético. O bom-mocismo atual acaba tornando-se monótono. Falta-lhe muitas vezes emoção e ímpeto juvenil. E não nos esqueçamos que poesia é arte e, como tal, deveria ser campo mais da emoção do que do intelecto. Ao lado da poesia de régua e compasso, poderíamos dar vez também aos poetas que medem improvisadamente ou que simplesmente não medem nada, seja por falta de conhecimento, de vontade ou por convicção. E que assim tivéssemos no Brasil um cenário pujante e respeitado para essa poesia. Mas isso passa antes pela queda da prepotência de acadêmicos, críticos e inclusive de casas editoriais. Leitores sabemos que não faltam – o fenômeno dos blogs está aí para mostrar que o público lê e seleciona novos poetas; alguns blogs de poesia chamada alternativa têm impressionante número de acesso se consideramos que seu tema é justamente a poesia.

Dizem que a poesia alternativa merece, no máximo, estudos sociológicos. Que ela não transcende. Na verdade, tanto faz. Poesia não é feita para ser estudada. Não é feita para acadêmicos. É, apenas, feita. Acadêmicos e críticos são, ou deveriam ser, somente uma pequena parcela de receptores, e não acho que sua opinião ou sua leitura tenha mais ou menos validade do que a de um médico, um frentista, uma garçonete ou um estudante ginasial. O estudioso, com o olho já viciado, vai inevitavelmente reparar em aspectos formais e comparar a peça poética com outras de seu vasto repertório. Daí ele tira seu julgamento, também viciado, porque seu olhar capta muito, mas também muito deixa escapar.

Sabemos que quem faz o poema é também o leitor. Sem ele, o texto não se completa. Meus poemas têm o sentido que dêem a eles. Algo assim disse Paul Valèry. Estou de acordo. As palavras impressas de um poema são como um manual de instruções, com o qual o leitor monta a sua própria peça poética. Sendo um entre muitos, o acadêmico, que fala e escreve bonito, que sabe persuadir, que tem a horrível facilidade de destruir – Valèry outra vez –, tenta convencer a todos os outros da má qualidade que já de antemão teriam os novos poetas denominados por ele mesmo de alternativos ou marginais. Eu não caio nessa conversa.

Sérgio Massucci Calderaro (São Paulo, 1971). Doutorando em Literatura pela Universidade Complutense de Madri. Assistente de Imprensa da Embaixada do Brasil na Espanha. Autor do romance A Ilha Urbana - amor e concreto cercados de água por todos os lados (Bom Texto Editora, 2005). E-mail: calderaro@quo.com.br

Um comentário:

Sergio Calderaro disse...

Obrigado pela divulgação do artigo.
Um abraço.
Sérgio.

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