fulinaíma

quarta-feira, 2 de março de 2011

Comunicado - Sobre a Casa de Rui Barbosa

por Emir Sader no Blog do Emir

Consultado sobre a possibilidade de assumir a direção da Fundação Casa de Rui Barbosa, elaborei proposta, expressa no texto “O trabalho intelectual no Brasil de hoje”. No documento proponho que, além das suas funções tradicionais, a Casa passasse a ser um espaço de debate pluralista sobre temas do Brasil contemporâneo, um déficit claro no plano intelectual atual.

Como se poderia esperar, setores que detiveram durante muito tempo o monopólio na formação da opinião pública reagiram com a brutalidade típica da direita brasileira. Paralelamente, o MINC tem assumido posições das quais discordo frontalmente, tornando impossível para mim trabalhar no Ministério, neste contexto.

Dificuldades adicionais, multiplicadas pelos setores da mídia conservadora, se acrescentaram, para tornar inviável que esse projeto pudesse se desenvolver na Casa de Rui Barbosa. Assim, o projeto será desenvolvido em outro espaço público, com todas as atividades enunciadas e com todo o empenho que sempre demonstrei no fortalecimento do pensamento crítico e na oposição ao pensamento único, assumindo com coragem e determinação os desafios que nos deixa o Brasil do Lula e que abre com esperança o Governo da Presidente Dilma.

Rio de Janeiro, 2 de março de 2011
Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro



Especuladores da fome fazem preço dos alimentos aumentar

Não são apenas más colheitas e mudanças no clima; especuladores também estão por trás dos preços recordes nos alimentos. E são os pobres que pagam por isso. Os mesmos bancos, fundos de investimento de risco e investidores cuja especulação nos mercados financeiros globais causaram a crise das hipotecas de alto risco (sub-prime) são responsáveis por causar as alterações e a inflação no preço dos alimentos. A acusação contra eles é que, ao se aproveitar da desregulamentação dos preços dos mercados de commodities globais, eles estão fazendo bilhões em lucro da especulação sobre a comida e causando miséria ao redor do mundo.

John Vidal - The Observer no sitio CartaMaior

Há pouco menos de três anos, as pessoas da vila de Gumbi, no oestede Malawi, passaram por uma fome inesperada. Não como a de europeus,que pulam uma ou duas refeições, mas aquela profunda e persistente fome que impede o sono e embaralha os sentidos e que acontece quando não se tem comida por semanas. Estranhamente, não houve seca, a causa tradicional da mal nutrição e fome no sul da África, e havia bastante comida nos mercados. Por uma razão não óbvia o preço de alimentos básicos como milho e arroz havia quase dobrado em poucos meses. Não havia também evidências de que os donos de mercados estivessem estocando comida. A mesma história se repetiu em mais de 100 países em desenvolvimento.

Houve revolta por causa de comida em mais de 20 países e governos tiveram que banir a exportação e subsidiar fortemente os alimentos básicos. A explicação apresentada por especialistas da ONU em alimentos era de que uma “perfeita” conjunção de fatores naturais e humanos tinha se combinado para inflar os preços. Produtores dos EUA, diziam as agências da ONU, tinham disponibilizado milhões de acres de terra para a produção de biocombustíveis; preços de petróleo e fertilizantes tinham subido intensamente; os chineses estavam mudando de uma dieta vegetariana para uma baseada em carne; secas criadas por mudanças no clima estavam afetando grandes áreas de produção.

A ONU disse que 75 milhões de pessoas se tornaram mal nutridas em função do aumento de preços. Mas uma nova teoria está surgindo entre economistas e mercadores. Os mesmos bancos, fundos de investimento de risco e investidores cuja especulação nos mercados financeiros globais causaram a crise das hipotecas de alto risco (sub-prime) são responsáveis por causar as alterações e a inflação no preço dos alimentos. A acusação contra eles é que, ao se aproveitar da desregulamentação dos preços dos mercados de commodities globais, eles estão fazendo bilhões em lucro da especulação sobre a comida e causando miséria ao redor do mundo.

Conforme os preços sobem além dos níveis de 2008, fica claro que todos estão agora sendo afetados. Os preços da comida está subindo até 10%por ano no Reino Unido e na Europa. Mais ainda, diz a ONU, os preços deverão subir pelo menos 40% na próxima década. Sempre houve uma modesta, mesmo bem-vinda, especulação nos preços dos alimentos e tradicionalmente funcionava assim. O produtor X se protegia contra o clima e outros riscos vendendo sua produção antes da colheita para o investidor Y. Isso lhe garantia um preço e o permitia planejar o futuro e investir mais, e dava ao investidor Y um lucro também. Num ano ruim, o fazendeiro X tinha um bom retorno. Mas num ano bom, o investidor Y se saía melhor.

Quando esse processo era controlado e regulado, funcionava bem. O preço da comida que chegava ao prato e do mercado de alimentos mundial ainda era definido por reais forças de oferta e demanda. Mas tudo mudou no meio dos anos 1990. Na época, após um pesado lobby de bancos, fundos de investimento de risco e defensores do "mercado livre" nos EUA e no Reino Unido, as regulamentações no mercado de commodities foram abolidas. Contratos para comprar e vender alimentos foram transformados em “derivativos” que poderiam ser comprados e vendidos por negociantes que não tinham relação alguma com a agricultura. Como resultado, nascia um novo e irreal mercado de “especulação de alimentos”.

Cacau, sucos de fruta, açúcar, alimentos básicos e café agora são commodities globais, assim como petróleo, ouro e metais. Então, em 2006, veio o desastre das hipotecas podres e bancos e especuladores correram para jogar os seus bilhões de dólares em negócios seguros, alimentos em especial. “Nós notamos isso [especulação de alimentos] pela primeira vez em 2006. Não parecia algo importante então. Mas em 2007, 2008 aumentou rapidamente”, disse Mike Masters, gerente de um fundo no Masters Capital Management, que confirmou em testemunho ao Senado dos EUA em 2008 que a especulação estava inflando o preço mundial dos alimentos. “Quando você olha para os fluxos, se tem uma evidência forte. Eu conheço muitos especuladores e eles confirmaram o que está acontecendo. A maior parte do negócio agora é especulação – eu diria 70 a 80%.” Masters diz que o mercado agora está muito distorcido pelos bancos de investimentos. “Digamos que apareçam notícias sobre colheitas ruins e chuvas em algum lugar. Normalmente os preços vão subir algo em torno de 1 dólar (por bushel). Quando se tem 70-80% de mercado especulativo, sobe 2 a 3 dólares para levar em conta os custos extras. Cria volatilidade. Vai acabar mal como todas as bolhas de Wall Street. Vai estourar.”

O mercado especulativo é realmente vasto, concorda Hilda Ochoa-Brillembourg, presidente do Strategic Investment Group de Nova York. Ela estima que a demanda especulativa para o mercado agrícola de futuros tenha aumentado entre 40 e 80% desde 2008. Mas a especulação não está apenas em alimentos básicos. No ano passado, o fundo Armajaro, de Londres, comprou 240 mil toneladas – mais de 7% do mercado mundial de cacau – ajudando a elevar o preço do chocolate ao seu mais alto valor em 33 anos. Enquanto isso, o preço do café pulou 20% em apenas três dias, resultado direto de aposta de especuladores na quebra do preço do café.

Olivier de Schutter, Relator da ONU para o Direito à Alimentação, não tem dúvidas que especuladores estão por trás do aumento de preços. “Os preços do trigo, do milho e do arroz tem aumentado de modo significante, mas isso não está ligado a estoques ou colheitas ruins, mas sim a negociantes reagindo a informações e especulações do mercado”, ele diz. “As pessoas estão morrendo de fome enquanto os bancos estão se matando para investir em comida”, diz Deborah Doane, diretora do Movimento Global de Desenvolvimento de Londres.

A FAO, órgão da ONU para agricultura, se mantém diplomaticamente evasiva, dizendo, em junho, que: “Fora mudanças reais em oferta e procura em alguns commodities, o aumento dos preços pode também ter sido amplificado pela especulação no mercado de futuros”. A [visão da] ONU tem o apoio de Ann Berg, uma das mais experientes negociantes do mercado de futuros. Ela argumenta que diferenciar commodities dos mercados de futuro e os relacionados com investimento sem agricultura é impossível. “Não existe maneira de saber exatamente [o que está acontecendo]. Tivemos a bolha das casas e o não-pagamento dos créditos. O mercado de commodities é outro campo lucrativo [onde] os mercados investem. É uma questão sensível. [Alguns] países compram direto dos mercados. Como diz um amigo meu. “O que para um homem pobre é um problema, para o rico é um investimento livre de riscos”.

Tradução: Wilson Sobrinho



Barracos que serviam de alojamento foram construídos pelos próprios trabalhadores (Foto: MPT)
Indígenas são explorados em condições degradantes

Fiscalização flagrou 16 índios Terena na Fazenda Vargem Grande, que fica a 10 km na Aldeia Lalima, no município de Miranda (MS). Grupo estava há 15 dias no local e dormia em barracos precários de lona, cobertos com folha de bacuri

Por Bianca Pyl no Reporter Brasil

Um grupo de 16 índios foi encontrado em situação análoga à escravidão na Fazenda Vargem Grande, que pertence à Agropecuária Rio Miranda Ltda e fica em Miranda (MS). Os trabalhadores eram responsáveis pela limpeza de área destinada à formação de pastos para criação de gado bovino.

Os indígenas são da etnia Terena e vivem na Aldeia Lalima, em Miranda (MS), a 10 km da propriedade. A ação ocorreu em 25 de janeiro deste ano e contou com a participação do Ministério Público do Trabalho (MPT), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e da Polícia Federal (PF).

A equipe de fiscalização fazia uma operação de rotina para verificar as condições de trabalho em carvoarias, iniciada no último dia 24 de janeiro. Contudo, no meio do caminho que dava acesso a uma carvoaria que seria fiscalizada, os agentes públicos encontraram os 16 indígenas. As vítimas foram contratadas diretamente pela administradora da fazenda.

Os indígenas estavam há 15 dias no local e dormiam em barracos feitos de lona e cobertos com folha de bacuri (espécie de palha). Eles receberiam por produção e foram recrutados para trabalhar por 45 dias.

Não havia fornecimento de água potável às vítimas, que utilizavam água de um córrego para consumir e tomar banho. Não havia instalações sanitárias no local. Durante a execução dos serviços, os empregados não utilizavam nenhum equipamento de proteção individual (EPI). Os próprios trabalhadores preparavam as refeições em um fogão a lenha improvisado.

O local foi interditado. E, segundo Antonio Maria Parron, auditor fiscal do trabalho que coordena a fiscalização rural da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego do Mato Grosso do Sul (SRTE/MS), os próprios trabalhadores acabaram destruindo as barracas.

Tanto o auditor fiscal Antonio como o procurador do trabalho Rafael Salgado, que atua em Corumbá (MS) e também esteve na área, os trabalhadores manifestaram a intenção de seguir realizando o serviço. Diante disso, a opção, como explica Rafael, foi pela "empregabilidade".
"Não é comum não realizar o resgate. Contudo, achamos que essa era a melhor solução para o caso, pois a aldeia fica muito próxima da fazenda e os indígenas poderiam voltar a trabalhar escondido no local",
complementa Antonio. Segundo ele, as Carteiras de Trabalho e da Previdência Social (CTPS) dos 14 empregados que quiseram continuar trabalhando foram assinadas com data retroativa (início do trabalho) e a empresa contratante também providenciou um ônibus para transportar os empregados diariamente.

A sócia-administradora da fazenda, Ana Paula Nunes da Cunha, firmou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), no dia 31 de janeiro, na sede do MPT em Corumbá (MS), por meio do qual se compromete a pagar multa de R$ 5 mil por cláusula descumprida e por trabalhador prejudicado

Se a empresa cumprir as cláusulas quanto ao oferecimento de água potável, áreas de vivência adequadas e EPIs, poderá funcionar sem a construção de novos alojamentos - desde que ofereça, sem custo para os empregados, condução ao local de trabalho e de volta à aldeia.

Foram lavrados, ao todo, oito autos de infração em relação às irregularidades encontradas. Para checar in loco se as irregularidades foram sanadas, o MPT solicitou ao MTE que nova fiscalização ocorra em 30 dias.

O proprietário Rubens Nunes da Cunha disse à reportagem que essa foi a primeira vez que tiveram problemas porque, antes do episódio em questão, nunca deixaram os trabalhadores alojados no empreendimento rural.

"A fazenda é nossa desde 1939. Nunca tivemos problemas. Nossos trabalhadores permanentes são registrados. E, quando precisávamos de temporário, fazíamos um contrato simples. Já regularizamos a situação", adiciona Rubens. "Vamos utilizar mais maquinário e menos recursos humanos".

Fazendeiro cobra até lona de barraco dos escravizados

Aliciadas em Paragominas (PA), as vítimas foram encontradas no fim de janeiro em São João do Carú (MA), nas Fazendas Asa Branca I e II. Entre os escravizados, havia três adolescentes com 16 anos de idade e duas mulheres

Por Bianca Pyl

O grupo móvel de fiscalização e combate ao trabalho escravo libertou 20 pessoas que eram obrigadas a pagar até pela lona que cobria o barraco improvisado como alojamento. As vítimas foram encontradas no fim de janeiro em São João do Carú (MA), nas Fazendas Asa Branca I e II. Entre os escravizados, havia três adolescentes com 16 anos de idade e duas mulheres.

Todos foram aliciados em Paragominas (PA) por um "gato" (intermediário na contratação). Eles faziam a "limpeza" da área, retirando arbustos e ervas daninhas, para expansão da atividade pecuária.

Os empregados eram obrigados a viver em dois barracos cobertos por lona preta e folhas de bananeiras que eles mesmo construíram. A estrutura dos barracos era de madeira roliça, facilmente encontrada na mata nativa. "O custo era zero para o empregador, já que a madeira e as folhas de palmeira ainda podem ser colhidas gratuitamente", explica Klinger Moreira, auditor fiscal do trabalho que coordenou a operação do grupo móvel.

O metro de lona preta custa R$ 0,50. Mas nem com essa despesa o empregador Francisco Costa da Silva arcou. Ele pretendia descontar o valor do material dos vencimentos dos próprios empregados.

Para preparar a comida, os trabalhadores construíram um fogão de barro, para ser alimentado a lenha. O objeto dividia espaço com as redes. Não havia instalações sanitárias e as vítimas utilizavam as imediações dos barracos como banheiro. As pessoas se banhavam em um igarapé. Para garantir um mínimo de privacidade, o grupo fincou palhas de palmeira para cercar o espaço em volta do local que permitia acesso às águas.

As roupas de cama utilizadas, compara Klinger, era semelhante às de moradores de rua. "Eram sujas e esfarradas. Mesmo assim, eram as únicas que eles dispunham para se proteger à noite. Ressalto que essas roupas de cama foram trazidas de suas casas", conta o auditor fiscal.

O empregador cobrava também pela péssima comida que fornecia aos empregados. Não havia local adequado para armazenar os alimentos. A água consumida vinha de caçambas cavadas diretamente na terra ou em córregos próximos ao acampamento. Nas frentes de trabalho, não havia água potável, banheiro e local para refeições.

Nenhum trabalhador possuía registro em Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS). O empregador pagou mais de R$ 63 mil referentes à rescisão do contrato de trabalho. As vítimas retornaram ao Pará, tendo suas viagens custeadas pelo empregador. Parte dos libertados estava na propriedade há cerca de um mês, desde 26 dezembro.

Os 17 adultos terão direito às três parcelas do Seguro Desemprego para Trabalhador Resgatado. Foram lavrados 12 autos de infração. O procurador do trabalho Marcos Rosa também participou da ação.

A Repórter Brasil não conseguiu localizar o fazendeiro para comentar o caso


Contag quer que Código Florestal defina melhor tamanho de propriedade da agricultura familiar

Por: Ivan Richard, da Agência Brasil

Brasília – A Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) apresentou nesta quarta (2) aos parlamentares da Câmara um documento com propostas para alterar o projeto de lei do novo Código Florestal Brasileiro, de autoria do deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP). A principal sugestão de mudança entre as 18 emendas colocadas pela Contag trata da definição da agricultura familiar.

De acordo com o presidente da Contag, Alberto Broch, no relatório apresentado por Aldo Rebelo a agricultura familiar é definida apenas pelas propriedades com área até quatro módulos fiscais, o que poderia beneficiar, além dos pequenos produtores, os grandes agricultores e donos de sítios e chácaras.

“Entendemos que, principalmente, a conceituação da agricultura familiar sendo colocada no novo código vá fortalecer o setor e fazer mais justiça. Entendemos que a grande propriedade, que tem 40, 50, 1000 hectares de terra, não necessita de ter quatro módulos fiscais que se beneficiariam da flexibilização da legislação ambiental. Acreditamos que toda a diferenciação da legislação seria para as propriedades que se enquadram na lei da agricultura familiar”, argumentou Broch.

Para Rebelo, a reivindicação da Contag já está inserida no seu relatório. Contudo, o comunista prometeu rever os pedidos dos pequenos produtores. “Já incluímos a isenção para a recomposição de reserva legal nos quatro módulos fiscais. O que há é discussão em torno da questão de biomas, como a Amazônia. Isso tudo vamos conversar e buscar soluções”, afirmou.

“A Contag já apresentou algumas sugestões na época da discussão do relatório na comissão especial, algumas foram acolhidas e outras não. É provável que eles estejam retomando as que não foram acolhidas. Agora vamos examinar “, acrescentou Rebelo.

O deputado Celso Maldaner (PMDB-SC) afirmou a necessidade de se encontrar logo um denominador comum para o assunto e votá-lo antes de 11 de junho, quando entram em vigor as determinações do Decreto Presidencial 7029 de 2009, que instituiu o Programa Federal de Apoio à Regularização Ambiental de Imóveis Rurais, denominado Programa Mais Ambiente.

“Temos pressa e queremos que em março possamos votar as mudanças no Código Florestal Brasileiro que vai beneficiar o setor produtivo, tanto a agricultura familiar quanto os agricultores comerciais”, ressaltou.

Já o coordenador de Políticas Públicas do Greenpeace, Nilo D`Avila, diz que é preciso analisar as mudanças no Código Florestal sem pressa. Para ele, as sugestões apresentadas pela Contag significariam melhoras ao relatório apresentado por Aldo Rebelo.

“Se é para ter tratamento diferenciado no que diz respeito à área consolidada, melhor que seja para os agricultores da agricultura familiar”, afirmou. Segundo D`Avila, se continuar da forma como está, os grande produtores receberiam os mesmos benefícios concedidos à agricultura familiar.







A construção de "inimigos internos", o medo e a impunidade

Situação em Cidade Juárez, no México, preocupa pela quantidade de assassinatos, especialmente de jovens e mulheres, pelo clima de insegurança que vive a população e pelo aumento da militarização para resolver problemas que tem mais a ver com questões estruturais do que com o narcotráfico propriamente dito.

Por Pablo Ruiz na Revista Forum

No México, em fins de janeiro, na Cidade Juárez, organizações sociais e de direitos humanos organizaram uma greve de fome para atrair a atenção e exigir do governo ações mais decisivas para frear as mortes e a violência que ali se vive.

A situação é preocupante pela quantidade de assassinatos, especialmente de jovens e mulheres, pelo clima de insegurança que vive a população e pelo aumento da militarização para resolver problemas que tem mais a ver com questões estruturais do que com o narcotráfico propriamente dito.

Parte da população excluída acabou por se unir ao narcotráfico, e o fizeram até mesmo aqueles encarregados de fazer com que a lei fosse cumprida. Por isto, as palavras corrupção, cumplicidade e impunidade soam fortes aqui.

Conversamos com David Barrios Rodriguez, que é parte do Observatório Latino-Americano de Geopolítica da Universidade Autônoma do México (UNAM), sobre estes temas.

- Qual é a situação do México atualmente em matéria de militarismo e direitos humanos?

O Estado e as Forças Armadas do México têm uma longa história de repressão aos movimentos sociais e de violações aos Direitos Humanos na qual, em termos gerais, se destaca a impunidade mais absoluta. No entanto, a partir de 2006 entramos numa nova fase. De acordo com as informações oficiais, desde aquele ano até esta data foram assassinadas no México mais de 34 mil pessoas. Vários relatórios de Direitos Humanos, como o do Human Rights Watch, demonstram que no México as Forças Armadas recorrem de maneira sistemática às execuções exra-judiciais, violações sexuais e torturas. Recentemente a ONU expressou sua preocupação porque nos últimos quatro anos foram assassinadas mil crianças mexicanas nesta guerra. Estima-se que anualmente são seqüestrados no México, em média, 18 mil migrantes. E neste lapso de tempo, nosso país se converteu em uma das regiões mais perigosas para os defensores dos Direitos Humanos e jornalistas, dos quais centenas estão desaparecidos ou foram assassinados. Ao mesmo tempo, começamos a observar no México fenômenos como a aparição de grupos paramilitares que parecem realizar massacres com objetivo de “limpeza social”.

- O Plano Mérida teve efeitos negativos?


O Estado mexicano e o governo norte-americano são cúmplices neste banho de sangue. A guerra contra o narcotráfico e a Iniciativa Mérida foram implantadas com um marco de corrupção em todos os níveis, o que permite muita opacidade na informação e que assegura impunidade em relação às violações generalizadas contra as garantias da população. A conduta do governo norte-americano tem sido oscilante, já que, apesar de em determinados momentos ter ameaçado cortar a injeção de recursos pelas denúncias de violações aos Direitos Humanos no México, sempre sustentou (como ocorreu com Hillary Clinton há algumas semanas em Guanajuato) que respalda a Guerra contra o narcotráfico ainda que seus efeitos sejam “dolorosos”.

- Por que a Cidade Juárez vive tantos crimes e violência?

Isto se deve à conjugação de vários fatores. Recordemos que a partir do ano de 1993 se desenvolveu nesta cidade um fenômeno de violência contra as mulheres, conhecido como feminicídio, que até hoje segue impune. Trata-se do assassinato de centenas de mulheres, que em muitos casos foram anteriormente torturadas, mutiladas e violentadas sexualmente. Além das explicações oferecidas pelas investigações (assassinos em série e violência intra-familiar), é possível perceber um clima de violência generalizada, diria até capilar, contra as mulheres. Tenho a sensação de que nos últimos anos essa experiência se ampliou ao resto da população, no sentido de que se trata de distintas violências que se articulam e onde, obviamente, a sustentação parte da violência estrutural do modelo econômico e social que gera cada vez maiores níveis de exclusão. Por outro lado, Juárez tem uma grande importância estratégica por sua condição de fronteira e de passagem natural para os Estados Unidos. Nos últimos anos, quando os antigos cartéis da droga se fragmentaram em várias facções, a “praça” de Juárez se transformou em um lugar de disputa importantíssima e por isto concentra enormes níveis de violência. No entanto, como te dizia agora a pouco, muitas das execuções são dirigidas contra centros de reabilitação de viciados, trabalhadores da construção e em geral gente muito humilde, e isto nos leva a pensar que estão atuando grupos de limpeza social. O que é verdadeiramente preocupante é que todas estas mortes são incluídas nas estatísticas de mortos pela guerra contra o narcotráfico (algo que Marisela Escobedo denunciava sobre as estatísticas de feminicídio antes de ser assassinada em dezembro).

- Você acredita que se está conspirando para criar artificialmente um clima para ter a justificativa para militarizar o México?

Acredito que a militarização também está sendo empregada com objetivos de controle social, tanto para preservar a desigualdade dominante bem como para reprimir os movimentos sociais do país. Estes seriam os objetivos velados do aumento da presença militar nas ruas. Quer dizer, este estado de guerra é funcional para a pilhagem de recursos estratégicos, para o ataque à classe trabalhadora, e é muito importante para tentar legitimar uma classe política parasitária e corrupta. A construção de inimigos (como o terrorismo ou o narcotráfico) ou a sensação de caos sempre são recursos disponíveis para criar sociedades tolerantes ou mesmo cúmplices com o autoritarismo. A repressão em Atenco ou Oaxaca em 2006 mostra também a intenção do Estado mexicano de silenciar a divergência no país através dos métodos mais violentos.

- A situação da Cidade Juárez se dá também em outros lugares?

Infelizmente a violência e a militarização se espalharam a praticamente todos os estados do país. A situação é especialmente delicada em Nuevo León, Michoacán, Guerrero e Tamaulipas, mas em todos os estados há execuções e uma crescente presença militar.

- Como resultou a greve de fome em Juárez? Houve alguma conquista?

Primeiro é preciso destacar que o jejum se fez com o objetivo de comemorar o primeiro aniversário da morte de 15 jovens da cidade que foram massacrados em 31 de janeiro de 2010 no fracionamento Villas de Salvárcar. Também teve como marco o aniversário da morte de Mahatma Gandhi e a reivindicação da resistência ativa não violenta. Considero que são louváveis os esforços em Cidade Juárez que tenham como horizonte a demanda de paz com justiça, porque também existe um movimento “branco” que exige mais militarização. Ainda assim, neste momento é bastante ampla a indignação com a presença da Polícia Federal e do Exército na cidade. Durante o jejum, a reflexão que se fez foi de que é necessário enfrentar o medo que se espalha entre a população e começar a organizar-se para exigir o retorno do exército e da Polícia Federal aos quartéis. Neste sentido, o jejum foi uma conquista, porque acampamos no centro da cidade e éramos cerca de 60 ou 70 pessoas. Porém, algo que cabe dizer é que entre 30 e 31 de janeiro, isto é, enquanto realizávamos o jejum, foram assassinadas 7 mulheres no estado de Chihuahua. Entre elas uma jovem de 16 anos em Villas de Salvárcar, que recebeu 6 tiro por parte da Polícia Federal quando saía de uma festa. Similarmente à agressão a Darío Álvarez em outubro de 2010, seria ingênuo pensar que se trata de uma coincidência. O Estado mexicano tenta amedrontar a incipiente organização da população contra a militarização.

- Algum outro comentário…

Algo que me parece crucial é difundir o que está acontecendo no meu país, e neste sentido é muito importante que organismos como o Observatório da Escola das Américas (SOAW, por seu nome em inglês) e as distintas redes internacionais contra a militarização e a favor dos Direitos Humanos levantem sua voz contra o que acontece no México. Particularmente, creio que é necessário prestar cobertura aos ativistas da Cidade Juárez e de outros lugares de país. A maneira como foram assassinadas Marisela Escobedo e Susana Chávez mostra o tamanho do cinismo e da impunidade que vivemos no México. A opinião pública internacional tem uma grande responsabilidade porque pode pressionar de maneira efetiva os governos do México e dos Estados Unidos. No que diz respeito à sociedade mexicana, cada vez há mais iniciativas para deter a guerra, mas é indispensável articulá-las. Todos os esforços para deter esta guerra são necessários se queremos evitar uma catástrofe ainda maior.

Tradução de Cainã Vidor. Publicado por Alainet. Foto por http://www.flickr.com/photos/scazon/.

Nenhum comentário:

CAMPOS DOS GOYTACAZES

Quem sou eu

Minha foto
meu coração marçal tupã sangra tupi e rock and roll meu sangue tupiniquim em corpo tupinambá samba jongo maculelê maracatu boi bumbá a veia de curumim é coca cola e guaraná