segunda-feira, 14 de março de 2011

Governo Dilma: maus humores à esquerda

artigo de Mauricio Dias, publicado na revista CartaCapital: via Bloog do Miro

A presidenta Dilma Rousseff aproxima-se do centésimo dia de governo. A data é antecedida pela inquietação que afeta setores do Partido dos Trabalhadores. Uma angústia que se reflete na bancada petista do Congresso, que, por sua vez, transmite o desassossego embutido em dúvidas correntes nas bases do PT.

Centésimo dia é data emblemática. Sugere, por exemplo, o balanço do que tem sido feito até agora. Embora seja um tempo curto demais para julgamentos profundos, permite, no entanto, delinear contornos das ações que marcaram esse começo, indicativas dos rumos seguintes.

O mais forte sinal seria, segundo os descontentes, a desidratação na identidade ideológica de esquerda, mantida ao longo do governo Lula. Isso, não por acaso, teria fortalecido a influência do ministro da Casa Civil, Antonio Palocci.

Ao contrário de Lula, a sucessora é que tem vínculos históricos com a esquerda, mas a presença de Palocci contrasta com a ausência de quadros de influência no governo Lula, a sinalizarem um viés político mais à esquerda. As figuras mais citadas são: Celso Amorim, Franklin Martins, Luiz Dulci e Marco Aurélio Garcia, o qual, embora mantido no Planalto, teria perdido parte do seu peso de conselheiro influente.

Essa agitação, em razão de outros problemas, se alastra por diversos setores da base governista. Nesses casos, é sequela da queda de braço na fixação do novo salário mínimo que deixou desnorteado o titubeante ministro do Trabalho, Carlos Lupi. Somem-se a isso o aumento da taxa de juros e o corte de 50 bilhões de reais no Orçamento.

Existe dificuldade entre os petistas para assumir as alianças que levaram Dilma ao poder. Desta vez há um parceiro forte que, desde o início, marcou como ponto fundamental do acordo político-eleitoral a partir da indicação do candidato a vice.

Nas entranhas do PT há reflexo a partir de mudanças expressivas nas ações da chancelaria desde a restrição da violação dos direitos humanos no Irã. A objeção é estranha. Como sustentar a condenação da violação dos direitos humanos durante a ditadura no Brasil e se omitir quando isso ocorre além-fronteira? Observe-se que a presidenta também se referiu a Guantánamo.

Os murmúrios de insatisfação também aludem a um pretenso realinhamento com a política externa americana, em oposição às relações com a Venezuela.

A rigor, a referência feita por Dilma às violações cometidas pelos americanos contrasta com essa suposição. Sabe-se, porém, que depois de receber Obama, visitante iminente, a presidenta irá à Venezuela para encontrar-se com Chávez.

A mineira Dilma não se aproxima depressa demais desse país para não criar açodamento, mas, também, nem tão devagar para evitar distanciamento.

Embora tenha deixado para trás os tempos do “assembleísmo”, alcançando com Lula o poder máximo do País há oito anos, o PT ainda guarda uma estreita relação com os movimentos sociais que sempre exigem prestação de contas. Ao fim, é o ingrediente mais importante nesse fermento que se forma no partido.

Os petistas estão escabreados com a corte que, no momento, a mídia faz a Dilma. Eles ainda guardam as marcas deixadas pela “guerra suja” em que foi transformada a campanha presidencial em outubro de 2010.

Essa reação projeta, certamente, o receio de que a regulação dos meios de comunicação, guardada com zelo pelo ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, seja esquecida pelo caminho. Essa é uma medida necessária para fortalecer a democracia e não para coibir a liberdade de expressão.


Os ditadores

Os ditadores na literatura chegam a ser tão monstruosos como os da vida real

Leandro Konder no sitio Brasil de Fato

É conhecida a história da chamada colonização. Nos Estados Unidos, ela foi feita por ingleses protestantes que planejavam enriquecer. Na América do Sul, especialmente no Brasil, proliferaram aventureiros portugueses e espanhóis, em busca de ouro, com o objetivo de enriquecer e retornar à Europa o mais rapidamente possível.

O filósofo alemão Hegel previu que um contraste entre as duas Américas resultaria, inevitavelmente, numa guerra entre ambas. Mesmo sem a guerra (o filósofo se enganou), os Estados Unidos assumiram agressões militares a seus vizinhos do sul. Ao longo de décadas e de séculos, os estadunidenses impuseram seus critérios aos sul-americanos. E a imposição se deu por meio de setores das classes dominantes, que se reuniram organizadamente para exercer o poder de cima para baixo: os ditadores “modernos”.

No mesmo período Garcia Marques publicou o Outono do Patriarca; Augusto Roas Bastos publicou Eu, o Supremo; e Alejo Carpentier publicou O recurso do método. Todos por volta de 1975. Esses ditadores criados pelos três escritores nos ajudavam a compreender porque os personagens dos romancistas eram tão abomináveis. E mentiam e matavam sem qualquer escrúpulo. Mas não eram burros. Não lhes faltava cultura. O leitor, ao lê-los, podia ter dúvida quanto à competência dessa galeria dos ditadores.

O ditador paraguaio de Roas Bastos ameaçava punir severamente seu chefe de polícia se não identificasse e prendesse imediatamente quem, de madrugada, havia afixado no portão da catedral um manifesto contra o governo (isto é, ele mesmo).

O patriarca de Garcia Marques zela pelo cumprimento de suas ordens: para liquidar um bando de crianças que sabiam como o governo roubava na Loteria, mandou colocá-las em um navio e fazê-lo explodir e afundar. O coronel incumbido de matar as crianças cumpre a ordem recebida, mas também se mata, fazendo explodir uma banana de dinamite enfiada em seu próprio corpo.

O ditador justificou o castigo dizendo: “Há ordens que não podem ser acatadas. No entanto, também não podem deixar de ser cumpridas”.

O ditador, que é o principal personagem de O recurso do método, criado por Alejo Carpentier, lê muito. Não tem nenhuma vergonha de repetir ideias liberais e mesmo pensamentos libertários. Confessa-se admirador de um dos seus assessores, que era considerado de “esquerda”. Citava sempre Bakunin, Kropotkin e Proudhon.

Em seu cinismo drástico e em sua brutalidade assumida, os ditadores dos três escritores lembrados (há outros) rivalizavam com o estilo doentio que os tiranos mostravam no início do século 20, na vida real. Nas atuais condições, a classe dominante cobra de seus líderes políticos que eles sejam pragmáticos e não se exponham com demasiada facilidade, ao ódio popular ou ao sarcasmo da classe média.

Mudou a situação histórico-política. Isso não significa que as velhas formas de autoritarismo, prepotência, crueldade e intimidação não existem mais. Ao contrário, elas ainda são fortíssimas. Os hábitos que pautam a vida cultural, as fantasias e os critérios usuais das pessoas, os sentimentos formados diante da televisão, os compromissos com a preservação dos princípios democráticos (mesmo quando são proclamados hipocritamente), tudo isso contribui para que a burguesia fale de valores a serem preservados e reivindique para ela certa respeitabilidade não merecida.

A ficção não se limita a refletir a realidade: ela a recria. Os ditadores na literatura chegam a ser tão monstruosos como os da vida real. Um pouco da Colômbia, bem como um pouco de Cuba e do Paraguai, só passaram a existir depois que os escritores, sobre os quais acabamos de falar, escreveram seus romances brilhantes e expuseram seus criminosos ditadores.

Leandro Konder é colunista semanal do Brasil de Fato.

Publicado originalmente na edição 416 do Brasil de Fato.

Adicionar novo comentário
Comentários
O erro de Hegel
David Soares da Silva junior - 2011-03-10 13:32
É compreensivo que ele tenha errado,ele até pode ver o contraste,o que ele provalvelmente não quis ou não esperava ver era que a guerra não se daria norte- sul mas aconteceria sul-sul com a influencia clara do norte que por motivos vários não se mostrou diretamente.

responder.



.
Edição 419 - de 10 a 16 de março de 2011

Edições anteriores
Receba nosso boletim
E-mail

Nenhum comentário:

CAMPOS DOS GOYTACAZES

Quem sou eu

Minha foto
meu coração marçal tupã sangra tupi e rock and roll meu sangue tupiniquim em corpo tupinambá samba jongo maculelê maracatu boi bumbá a veia de curumim é coca cola e guaraná