fulinaíma

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Entrevista com Coletivo Dolores Boca Aberta Mecatrônica de Artes

O Jornal INVERTA entrevista Coletivo Dolores Boca Aberta Mecatrônica de Artes, grupo de trabalhadores que fazem arte da Zona Leste de São Paulo.



INVERTA - Sabemos que o capitalismo não possibilita a existência do teatro. No entato, o Dolores Boca Aberta vem há algum tempo contestando tanto o sistema capitalista, como a produção teatral que faz parte desta sociedade. Gostaríamos que comentassem um pouco sobre a história da companhia, e o porquê de ela ter se juntado.

Dolores - Nos juntamos por não ter espaço no circuito tradicional e suas formas de recepção a novos integrantes eram demasiado mercadológicas. Nos juntamos por não sermos “os melhores”, por não nos enquadrarmos na cartilha sistêmica da eficácia e empreendedorismo individual, por querer fazer teatro e depois de rechaços entender nossa função rebelde e que o “direito” à poesia se inscreve em nossa condição humana. Surgimos em luta.

O coletivo Dolores existe há mais de 10 anos e habita as cercanias do Jardim Triana e Cidade Patriarca, zona leste de São Paulo. A maioria de seus componentes é da zona leste, mas pessoas de todas as regiões da cidade compõem o grupo. Hoje, somos 25 pessoas.

INVERTA - Vocês pensam que nos dias de hoje o fazer teatral pode ser não apenas uma forma de protesto contra o capitalismo, mas também uma forma de luta? Se sim, como é
que esta luta deve ser organizada?

Dolores – Sim, o fazer teatral pode se caracterizar como uma forma de luta. Ao empreendermos uma ação contra o capitalismo podemos fazê-la de maneira vazia, superficial ou buscar vigor, radicalidade e coerência na ação. O enfrentamento vazio se espraia por todos os lados e nos deparamos com discursos bem estruturados de diversos segmentos da esquerda, porém, sem aplicabilidade prática. Como narrativas de processos revolucionários saudosistas tentando reviver tempos de outrora.

Não que a análise minuciosa do legado revolucionário da classe trabalhadora não nos inspire, pelo contrário, mas a análise de nossa história deve correr ao lado da análise da atual conjuntura propiciando escolha de ações e lutas imediatas. Entender teatro como forma radical de luta significa trazer para o cotidiano o nosso fazer. Adentrar as malhas da vida como vivente em choque e dessa fornalha moldar a representação estética.

Uma obra pode se encher de sentido com a força de seus fazedores que em luta imprimem a força e verdade necessárias ao ato estético. Não nos referimos à representação dramática de personagens que revivem mimeses de luta, nada disso, atentamos a uma condição de entendimento do que está em jogo, uma compreensão revolucionária do tema apresentado que se alastra por toda a obra, esta verdade já experimentamos inúmeras vezes e a atribuímos às cargas vividas por nossos trabalhadores artistas.

A repulsa à divisão social do trabalho aplicada internamente no coletivo, a não contratação de força de trabalho alienada, os mutirões como método de trabalho, a paridade de salários onde a hora trabalho tem o mesmo valor para qualquer tipo de tarefa, manual ou intelectual, as lutas em ocupações de terra, fábricas, órgãos públicos assim como a apresentação de cenas e canções nestes espaços, a construção de nossas moradias coletivas, a produção coletiva de alimentos, a luta contra o machismo e outras tantas frentes são parte cotidiana de nosso fazer. Estes militantes só podem produzir um outro teatro, um teatro da classe em luta.

INVERTA -  Acompanhamos a entrega do prêmio "Shell", e em primeiro nossas mais sinceras saudações de luta. Entre as recepções da "ação" realizada pelo Dolores, estiveram comentários contra e a favor, mas sempre num tom muito supérfluo (jovens revoltados, bonitinho, ar de protesto, etc). Gostaríamos que utilizassem esta última pergunta para explicar a ação que realizaram e os motivos que levaram vocês a agir de tal forma.

Dolores – Com relação à ação, pensamos muito em como aproveitar a “oportunidade” que poderia facilmente se converter em cooptação. Entendemos que a hegemonia é dinâmica e que precisávamos de uma resposta estética. Durante um mês levantamos várias possibilidades do que chamamos de estética de combate e chegamos a síntese de uma trabalhadora ironicamente despejando óleo sobre outro personagem. A força do ato se deve à total compreensão dos agentes envolvidos, evidente que a movimentação, a ocasião, o texto compuseram um conjunto de fatores que potencializaram o ato. Fizemos teatro e luta, talvez esta simples cena dê conta da resposta da pergunta anterior. Abaixo segue nossa nota pública:


É evidente para quem acompanha a trajetória do Coletivo Dolores que somos avessos às premiações como instrumento de eleição dos "melhores". Este mecanismo, além de naturalizar hierarquias e competições, faz com que determinados grupos detenham o poder de decidir o que é ou não é arte.

Atualmente, em nosso país, o fazer cultural é dominado por grandes empresas privadas que, baseadas em critérios falsamente neutros e na força do dinheiro, ditam qual filme devemos ver, qual música devemos escutar, qual peça teatral devemos assistir. O financiamento privado exclui e, até mesmo, inviabiliza o fazer artístico que não se enquadre em seus critérios, sejam eles estéticos ou mercadológicos.

A liberdade de expressão, tão amplamente defendida, é restringida quando meia dúzia de financiadores domina a produção cultural. Muitas vezes, esses financiadores privados se utilizam de dinheiro público por meio de isenções fiscais e ainda se beneficiam do marketing propiciado. Esta engrenagem é viabilizada pela Lei Rouanet, à qual nós e inúmeros outros coletivos artísticos frontalmente nos opomos.

Também não deixa de ser tristemente irônico que uma das premiações mais conceituadas no meio artístico seja patrocinada por uma empresa que participa ativamente da lógica de produção de ditaduras perenes, guerras e golpes de Estado. Assim sendo, publicamente nos irmanamos a todas as lutas de emancipação de povos que possuem a riqueza do petróleo, mas que não podem usufruir deste recurso devido à ingerência de potências militares em seu território e à presença de empresas petrolíferas nacionais e transnacionais que usurpam essa riqueza.

Aproveitamos para declarar publicamente que aceitamos o prêmio. Em nosso entendimento, esta é uma forma de restituição de uma ínfima parte do dinheiro expropriado da classe trabalhadora. Recebemos o que é nosso (enquanto classe, no sentido marxista) e debateremos um fim público para esta verba.

Um comentário:

Mr Gayrrisson disse...

Bom dia de combate à homofobia! http://bit.ly/j7ZpMW

CAMPOS DOS GOYTACAZES

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