sábado, 27 de agosto de 2011

Dilma faz refundação retórica do governo e tira 'faxina ética' da pauta

Presidenta Dilma Rousseff tenta recolocar governo no rumo do slogan 'país rico é país sem pobreza' e deixar 'faxina' ética em segundo plano. Depois de dar vários sinais, fez a mais enfática declaração de prioridades após jantar com líderes do PMDB, que já perdeu dois ministros e tem um outro acusado. Disposta a ampliar exploração política do combate à miséria, prepara viagem ao Amazonas.
BRASÍLIA – A queda do petista Antonio Palocci da chefia da Casa Civil produziu uma refundação do governo, ao obrigar a presidenta Dilma Rousseff a rever o modelo de relação política que tentara estabelecer de início com partidos aliados. Dois meses depois, de novo por motivos políticos, Dilma promove outra refundação, desta vez retórica, com o objetivo de botar no topo da agenda brasileira aquilo que, afinal, está por trás de seu slogan oficial, “país rico é país sem pobreza”.

A declaração mais enfática de que a prioridade zero do governo é a agenda econômica, que melhora a vida das pessoas e faz o país crescer, e não a agenda moral, que causa atritos com aliados e dá munição a adversários, Dilma deu nessa quarta-feira (24/08).

“Essa pauta de demissões não é adequada para um governo e eu jamais vou assumir. Não se demite nem se faz escala de demissão, nem sequer demissão todos os dias. Isso não é, de fato, Roma antiga”, afirmou a presidenta. “[Faxina] Não é o centro do meu governo. O centro do meu governo é fazer uma faxina contra a pobreza.”

Nos últimos dias, a presidenta já tinha dado diversos sinais de que gostaria de inverter prioridades, como Carta Maior relatara. Mas não havia sido tão incisiva quanto agora.

Na véspera, Dilma participara de jantar na residência oficial do vice-presidente, Michel Temer, com líderes e parlamentares do PMDB. O partido de Temer já perdeu dois ministros (Wagner Rossi, da Agricultura, e Nelson Jobim, da Defesa) e tem um terceiro alvejado por denúncias de corrupção - Pedro Novais (Turismo).

O PMDB é um dos dois maiores partidos governistas. Tem a maior bancada do Senado (20, das 81 cadeiras). E a segunda da Câmara (80, dos 513 assentos). 

As denúncias contra Novais atingiram o outro grande aliado do Planalto, o PT (86 deputados e 13 senadores). Algumas das supostas irregularidades no ministério teriam origem na gestão do PT no ministério, ainda no governo Lula.

Para explorar mais a politicamente a “faxina contra a pobreza”, segundo Carta Maior apurou, Dilma vai botar cada vez mais peso nos atos regionais de assinatura de pactos de erradicação da miséria com governadores. 

A presidenta já tinha encomendado à ministra do Desenvolvimento Social, Tereza Campelo, que organizasse lançamentos do programa Brasil sem Miséria nas cinco regiões. Já ocorreram dois – no Nordeste (Alagoas), dia 25 de julho, e no Sudeste (São Paulo), dia 18 de agosto. O próximo será no Norte (Amazonas), dia 5 de setembro.

O evento em São Paulo teve uma presença até à véspera desconhecida para Dilma, do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Uma fonte do governo disse à Carta Maior que o convite ao tucano não partiu da Presidência, nem do ministério do Desenvolvimento Social, mas do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), em cuja residência oficial o evento aconteceu.

Quando deu as declarações à imprensa sobre faxina e agenda econômica nessa quarta-feira, Dilma tinha acabado de participar de um evento que também se encaixa no esforço de restabelecer prioridades.

Ela e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, haviam anunciado a reformulação de um programa de microcrédito (para pessoas pobres) criado no governo Lula. 

Neste novo formato, os quatro bancos públicos vão cortar a taxa de juros (de 60% para 8% ao ano). Priorizar operações destinadas a atividades produtivas (montar uma barraquinha de pipoca, por exemplo), em vez de consumo (compra de TV, por exemplo). E multiplicar por quatro a clientela beneficiada e o volume de dinheiro emprestado, até 2013.

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