fulinaíma

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

no meio do caminho tinha uma pedra



"No meio do caminho" é o que se pode chamar de poema-escândalo. Publicado pela primeira vez na modernista Revista de Antropofagia, em 1928, deflagrou uma saraivada de críticas na imprensa. 

Violentos, irônicos, corrosivos, os críticos simplesmente desancavam o autor dos versos e diziam, em suma, que aquilo não era poesia.

Reacionários e gramatiqueiros, eles se sentiam provocados pelas repetições do poema e pelo "tinha uma pedra" em lugar de "havia uma pedra". 

Em 1967, para marcar os 40 anos do poema, Drummond reuniu o extenso material publicado sobre ele no volume Uma Pedra no Meio do Caminho -- Biografia de um Poema (Editora do Autor).  

Vale aqui fazer apenas uma pergunta. Havia milhares de poemas modernistas que a crítica conservadora achava ruim ou desqualificava como literatura.

Por que, então, detonaram todas as suas baterias contra a pedra no caminho?

Seria talvez pelo fato de que Drummond — o mais completo modernista — pôs realmente o dedo na ferida e incomodava mais?


no meio do caminho


No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.



Carlos Drummond de Andrade
In Alguma Poesia
Ed. Pindorama, 1930
© Graña Drummond



Fonte: http://www.algumapoesia.com.br/drummond/drummond04.htm


Um comentário:

Eliane Alcântara. disse...

De início acredito que o 'pegar no pé' foi pelo fato da clara interpretação estar tão visível que de singular passou a extraordinária. E olha, benditos os poetas que nessa jornada descobrem que "tinha uma pedra no meio do caminho". Só somos quando assumimos que existimos no meio do caminho e, extirpando ou não essa pedra, o que interessa é que ela é essencial para nos conhecermos e prosseguirmos. Beijinhos, Artur e bela semana.

CAMPOS DOS GOYTACAZES

Quem sou eu

Minha foto
meu coração marçal tupã sangra tupi e rock and roll meu sangue tupiniquim em corpo tupinambá samba jongo maculelê maracatu boi bumbá a veia de curumim é coca cola e guaraná