fulinaíma

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Carlos Careqa lança novo CD em show com participação de Letícia Sabatella.

Alma boa de lugar nenhum

Um projeto de Carlos Careqa

Faça parte disto e compartilhe este projeto


‘Três Apitos’, de Noel Rosa, e ‘Nana’s Lied’, de Bertolt Brecht e Kurt Weil, estão entre as canções escolhidas por Letícia Sabatella. Careqa mostra as novas ‘Estou cheio de arte’, ‘Sucessão de Fracassos’ e ‘Balada da dependência sexual’ e ‘Alma boa de lugar nenhum’, entre canções de seus trabalhos anteriores, como ‘Guaraná Jesus’ e ‘Chorando em 2001’.
serviço


Alma boa de lugar nenhum Lançamento do CD homônimo de Carlos Careqa, com Letícia Sabatella e Paulo Braga
14/5 (sábado), às 21h
15/5 (domingo), às 18h

Teatro do Sesc Ipiranga,
Rua Bom Pastor, 822 rua Bom Pastor,
Ipiranga, São Paulo. Telefone: 11 3340-2000

Onde estão as imagens de Geraldo Vandré?

 Maria do Rosário Caetano
Especial para o Brasil de Fato

No dia em que completou 75 anos (12 de setembro do ano passado), o cantor e compositor paraibano, Geraldo Vandré, sugeriu ao repórter Geneton Moraes Neto que procurasse, nos arquivos da Rede Globo, o VT (videotape) com a as imagens do imenso coro que acompanhou, no Maracanãzinho, os versos de “Caminhando” ou “Prá Não Dizer Que Não Falei das Flores”.
“Aquilo (o Maracanãzinho lotado) foi bonito, muito bonito. Pena que eu não possa ver o VT”, lamentou a Geneton, que o entrevistava na sede carioca do Clube da Aeronáutica. E prosseguiu: “estão guardando o VT não sei para quê. Quero ver o VT. Lá na sua estação (Rede Globo) devem ter. Procure lá. Consegue o VT para ver!”

Geneton procurou o registro da participação de Vandré no FIC 1968 (Festival Internacional da Canção) com muito empenho. E procurou não só as imagens do imenso coro que entoou os versos de “Caminhando” com Vandré, mas também o registro de depoimento que o compositor prestou “por sugestão” da Polícia Federal (e que foi retransmitido por emissoras de TV de todo país) quando de seu regresso do exílio, em 1973.

O autor de “Vandré – Dossiê Globonews”, apresentado no canal a cabo, no final do ano passado, procurou no arquivo da Rede Globo, no Arquivo Nacional, nos arquivos da Polícia Federal e nada. Além de Geneton, outros cineastas e caçadores de imagens buscaram, e continuam buscando, há anos, filmes e VTs do autor de “Disparada”.

Por enquanto, uma constatação se impõe: não resta praticamente nada - pelo menos em solo brasileiro - dos registros cinematográficos ou televisivos da curta (1961-1968) carreira de Geraldo Pedrosa de Araújo Dias, que primeiro se chamou Carlos Dias (um cantor de acento bossanovista) e depois optou, em homenagem ao pai, o médico José Vandregísilo, pelo nome artístico de Geraldo Vandré.

Paranoia?
Teria a paranoia dos anos Médici levado emissoras de TV a destruir as imagens em movimento do artista paraibano? Onde estão as imagens de Vandré cantando nos festivais das TVs Excelsior, Record e Globo? Onde estão as imagens gravadas pela produtora de Dino Cazzola, no Aeroporto de Brasília, quando o artista regressou de seu exílio no Chile (com breves passagens por Peru, Argélia, Alemanha e França)?

Onde estão as sobras do longa-metragem “Quelé do Pajeú”, lançado em 1969, de Ancelmo Duarte (1920-2000), que teve o cantor como ator secundário (interpretando um cangaceiro)? Ricardo Duarte, filho de Ancelmo, está empenhado em resgatar a obra completa do pai. Por enquanto, não encontrou nem uma cópia inteira do filme. Que dirá de suas sobras.

O documentarista Cleisson Vidal, da produtora Terra Firme, está preparando documentário de longa-metragem sobre o cinegrafista ítalo-brasileiro Dino Cazzola (que chegou a Brasília em 1959 e lá faleceu em 1998). Cazzola integrou a geração de pioneiros dos cinejornais brasilienses e produziu o registro de histórico depoimento de Vandré, exigido pela Polícia Federal, em troca da permissão de seu regresso. O compositor já não suportava o exílio, estava deprimido e Santiago do Chile vivia os derradeiros (e conturbadíssimos) dias do governo Allende. Vandré prestou seu depoimento à equipe de Dino Cazzola em julho de 1973. Menos de dois meses depois, em 11 de setembro, o general Pinochet depunha Salvador Allende.

“Busco incansavelmente, nos últimos anos” – conta Cleisson Vidal – “os registros do depoimento que Vandré deu à equipe de Dino Cazzola, pois este é um dos momentos mais importantes da trajetória da produtora”. Apesar das buscas, Vidal não conseguiu encontrar nenhuma imagem. “Nestas alturas”, diz ele, “eu me daria por satisfeito se conseguisse ao menos o “áudio” para usar no documentário sobre o acervo de Dino Cazzola”.

Jornais da época transcreveram trechos da fala do autor da “Marselhesa brasileira” (assim Millor Fernandes definiu “Prá Não Dizer que Não Falei das Flores”):

Vandré: “Olha, em primeiro lugar, eu acho que minhas canções de hoje são mais enunciativas que denunciativas. E eu espero integrá-las à realidade nova do Brasil, que espero encontrar em um clima de paz e tranquilidade. Mesmo porque a vinculação do meu trabalho, até hoje, com a utilização por qualquer grupo político, ocorreu sempre contra a minha vontade. Eu tratei que esses trabalhos estivessem sempre vinculados à realidade brasileira, em termos de melhor representar a cultura nacional”.

Memória apagada?
Marília Santos, viúva do cineasta Roberto Santos, autor do longa “A Hora e Vez de Augusto Matraga” (trilha sonora de Vandré), lembra que foram realizados “três programas com o compositor paraibano e o Quarteto Novo, na TV Record”. Coube a Vandré “interpretar um personagem chamado Zezinho Disparada, pois o programa nasceu do imenso êxito da toada nordestina “Disparada”, que dividiu o primeiro lugar, no Festival da Record (1966), com “A Banda”, de Chico Buarque”. Marília, que cuida do resgate da obra de Roberto Santos, não acredita que os programas tenham sido preservados no acervo da emissora. Não tem notícias nem de fragmentos do material.

A mesma opinião tem o cineasta Marcelo Machado, que está finalizando documentário em longa-metragem sobre a Tropicália. “Não encontrei imagens em movimento de Vandré” – testemunha – “no material que acessei nos arquivos da TV Record, em especial trechos da final do Festival de 1966, uma eliminatória e as finais de 1967 e 1968”. O realizador lembra que “não existe muito material nas matrizes quadruplex (video-tape de duas polegadas) dos festivais”. E mais: “os rolinhos de filmes em 16 milímetros dos cinejornais de 1968 desapareceram todos”.

Marcelo encontrou, “no Youtube, esta fonte inesgotável e informal, imagens de Vandré cantando "Arueira" em 1967, com o selo da Record”. Já as imagens em movimento de "Para Não Dizer que Não Falei das Flores", feitas para o Festival Internacional da Canção, de 1968, pela Rede Globo, “parecem não existir mais”. Até onde foram minhas pesquisas” – arremata -- “só vi fotos fixas”. Por isto, “para ‘Proibido Proibir’, de Caetano Veloso, apresentada no mesmo festival, estou animando fotos”.

Caçadores de imagens
Para levantar os registros audiovisuais do filme “Tropicália” (Vandré se entrasse na narrativa o faria na condição de antagonista do grupo tropicalista, já que filiava-se ao núcleo duro da MPB, aquele ligado às raízes nordestinas), Marcelo Machado buscou ajuda de dois grandes “caçadores de imagens”, Antonio Venâncio e Eloá Chouzal, ele no Rio, ela em São Paulo.

Antônio Venâncio garante, depois de buscas infindáveis, que “não existe” registro do Vandré cantando ‘Prá Não Dizer que Não Falei das Flores’ no FIC de 1968. “Já vasculhei em diversas direções e não há um traço deste material”. “A TV Globo tem uma gravação dele já no começo dos anos 1970, num estúdio na Alemanha, cantando esta música” (material mostrado no “Dossiê GloboNews”, de Geneton Moraes Neto).

“Perdemos a maioria dos arquivos de TVs registrados nos anos 1960”, lamenta o pesquisador. “O curioso é que a Globo tem o registro de ‘Sabiá’, de Tom Jobim e Chico Buarque, vencedora do FIC 1968. Na minha opinião, a perda da música favorita do público da badalada edição do FIC tem ligação direta com a ditadura militar. É possível que o medo tenha levado a emissora a apagar o registro”, diz Antônio Venâncio.

O pesquisador conta que “uma outra emissora de TV (que não a Globo) em operação nos dias atuais dispõe de arquivo em película, no qual estão filmetes de 1963, 64, 65, 66, 67, ... 1969, etc. Mas do ano de 1968 não há um único rolinho de filme. Isto é sintomático, não?”

Venâncio observa “a recorrência/repetição dos mesmos materiais em toda produção cinematográfica que se propõe a mostrar a repressão em 1968. Notamos em todos os documentários, sejam de cinema ou TV, sempre com as mesmas imagens. No exterior – e isto demanda novas pesquisas e custos – existem algumas imagens diferentes e com qualidade muito melhor do que estas que vemos sempre nas produções nacionais”.

O “caçador de imagens” lembra que “a culpa pela calamidade de nossos arquivos audiovisuais não é só da repressão dos governos militares. “Incêndios, enchentes, falta de cuidados e de interesse reduziram nossa memória televisiva dos anos 1960 a poucas horas de material”.
 
Mais sobre o assunto: 

I Encontro Estadual de Blogueiros do Rio de Janeiro

Data: 6, 7 e 08/05

Local: Memorial Getúlio Vargas (Praça Luís de Camões, ao lado do Hotel Glória - Metrô Estação Glória)

Presenças confirmadas de Altamiro Borges, Arthur William, Bemvindo Sequeira, Beto Mafra, Brizola Neto, Claudia Santiago, Cris Rodrigues, Eduardo Guimarães, Emir Sader, Hélio Paz, Jandira Feghali, José de Abreu, Luiz Carlos Azenha, Marcos Dantas, Paulo Henrique Amorim, Renato Rovai, Sergio Amadeu, Sr. Cloaca.

Acompanhe neste blog a evolução da organização e mais notícias sobre atrações. Deixe suas idéias em nossos comentários, colabore, pois esse evento é de todos os blogueiros e internautas em geral interessados em um Brasil e um mundo cada vez mais democrático e com maior acesso à pluralidade de opiniões e versões dos fatos.

Apoio:
Coordenadoria de Juventude da Prefeitura do Rio de Janeiro
RioTUR
Centro de Estudos da Mídia - Barão de Itararé
Rede Brasil Atual
DCE-Facha


Como se inscrever?
IMPORTANTE ESCLARECIMENTO: A INSCRIÇÃO SÓ ESTÁ CONCLUÍDA APÓS A INFORMAÇÃO JUNTO À ORGANIZAÇÃO DO EVENTO SOBRE SEU DEPÓSITO DA TAXA DE INSCRIÇÃO. SIGA RIGOROSAMENTE AS INFORMAÇÕES DESCRITAS ABAIXO.

As inscrições podem ser feitas até o dia 30/04 por aqui: http://www.jotform.com/migueldorosario/rioblogprog
Se quiser ajudar a divulgar, divulgue o link de inscrição no seu blog, acrescentando as seguintes informações:
A taxa de inscrição será de R$ 20,00. Enviar comprovante do depósito para o email (encontroblogsrj@gmail.com). No caso do Paypal, o comprovante é enviado automaticamente para a organização do encontro.

- Pagamento por depósito:

Caixa
...agencia: 0995
Conta: 00010392-9
Digito de Conta Poupança: 013

Banco do Brasil
agencia 0087-6
Conta Corrente 25018-x
Substitua o "x" pelo zero (0) em alguns sites de transferência.
- Para pagar com paypal (aceita todos os cartões):
https://www.paypal.com/cgi-bin/webscr?cmd=_s-xclick&hosted_button_id=DFYTF3RY8JNN4

IMPORTANTE: Neste caso, o preço é de 24,00 porque tem uma taxa administrativa do site que faz o serviço.


Programação
I Encontro Estadual de Blogueiros do Rio de Janeiro

Local: Memorial Getúlio Vargas (Ao lado do Hotel Glória)

Sexta-Feira – 06/05


18 horas – Abertura do credenciamento


19 horas – Palestra: “Democratizar a comunicação para democratizar o Brasil”
Palestrantes: Altamiro Borges, Eduardo Guimarães, Emir Sader, Luiz Carlos Azenha, Paulo Henrique Amorim e Renato Rovai. 
Mediação: Miguel do Rosário (Blog Óleo do Diabo).


22 horas: Coquetel de Confraternização.


Sábado – 07/05


08:30 horas – Oficina: Construção de blogs e redes sociais (Miguel do Rosário e Sergio Telles)
Painel 1: Rentabilidade e regulamentação da profissão de blogueiro (Suzana Blass)
Painel 2: Direito Autoral (Helio Paz)
Painel 3: Experiências locais de blogs (Cris Rodrigues e Marcio Kerbel)


11 horas – Palestra: “O marco regulatório e o Conselho Estadual de Comunicação”.
Palestrantes: “Paulo Ramos, Marcos Dantas (ECO-UFRJ), Jandira Feghalli, João Brant (Intervozes).
Mediação: Sergio Telles (Blog Opiniões - Sergio Telles).


13 horas – Ato político "Contra o monopólio da mídia" em frente a sede da Globo na Glória.

14 horas - Almoço


15 horas – Palestra: “O plano nacional de banda larga e a universalização da internet”
Palestrantes: Brizola Neto, Cláudia Santiago (NPC), Sergio Amadeu e Ricardo Negrão (Rede Brasil Atual).
Mediação: Theófilo Rodrigues (Blog Fatos Sociais).


17 horas – Lanche.


18 horas – Palestra: "Arte e humor na Blogosfera"
Palestrantes: Sr. Cloaca, Bemvindo Sequeira, Beto Mafra e José de Abreu.
Mediação: Flávio Lomeu (@Porra_Serra_)


22 horas - Festa de Confraternização


Domingo – 08/05


09 horas – Palestra: "A televisão que queremos: TV privada; TV pública; TV estatal; e TV comunitária".

Palestrantes: Arthur William (Intervozes), Ivana Bentes (ECO-UFRJ), Rodrigo Vianna (Record) e Marcos Oliveira (TVComunitária e ABCCOM).
Mediação: Marcos Pereira (Portal Vermelho)


12 horas – Assembleia Final.
--
#RioBlogProg - Política
Movimento dos Internautas Progressistas do Estado do Rio de Janeiro
Grupo de discussão sobre Política

Inscreva-se ou mude suas configurações em:
http://groups.google.com.br/group/rbp-politica?hl=pt-BR

Nossas outras listas:
#RioBlogProg: http://groups.google.com.br/group/rioblogprog?hl=pt-BR
Entretenimento: http://groups.google.com.br/group/rbp-entretenimento?hl=pt-BR

Outros contatos:
Blog: http://rioblogprog.blogspot.com
Twitter: http://www.twitter.com/rioblogprog
Facebook: http://www.facebook.com/profile.php?id=100001659780834
Orkut (comunidade): http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=106277133

Para postar neste grupo, envie um e-mail para
rbp-politica@googlegroups.com
Para cancelar a sua inscrição neste grupo, envie um e-mail para

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Manifesto: Banda Larga é um direito seu!

 


Uma ação pela internet barata, de qualidade e para todos

Banda Larga é direito de todas e todos, independentemente de sua localização ou condição sócio-econômica. O acesso à internet é essencial porque permite o mergulho na rede que integra diferentes modalidades de serviços e conteúdos, funcionando como um espaço de convergência de distintas perspectivas sociais, culturais, políticas e econômicas. Elemento central na sociedade da informação, a inclusão digital, entendida de forma ampla, é condição para a concretização de direitos fundamentais como a comunicação e a cultura e se coloca como passo necessário à efetiva inclusão social, já que ela é essencial para o desenvolvimento econômico do país.

A internet incrementa a produtividade e gera riquezas, sendo fator de distribuição de renda e de redução de desigualdades regionais.

Nós, organizações da sociedade civil e ativistas envolvidos no debate da democratização da comunicação e da produção colaborativa da cultura, reconhecemos a relevância das metas e políticas presentes no Plano Nacional de Banda Larga, sendo imprescindível, contudo, avançar.

Mas, é necessário que se faça uma vigília permanente para que as políticas de banda larga estejam pautadas no interesse público, o que já sofre reveses. Os rumos recentes tomados pelo governo reforçam o abandono da ideia de serviço público como concretizador de direitos e privilegia soluções sob uma lógica de mercado.

Com base no acúmulo conquistado nas Conferências Nacionais de Comunicação e Cultura, no Fórum de Cultura Digital e nas articulações relativas à constituição do Marco Civil da Internet e à reforma da Lei de Direitos Autorais, apresentamos as seguintes propostas guia e suas ações:

1. EFETIVA PARTICIPAÇÃO DA SOCIEDADE CIVIL NO PROCESSO DE INCLUSÃO
DIGITAL

Rever a participação da sociedade civil no Fórum Brasil Conectado, ampliando a sua representação e democratizando seu processo de escolha;
Convocar, em conjunto com entidades da sociedade civil, um Fórum Participativo de Acompanhamento do Plano Nacional de Banda Larga, criando canais legítimos e públicos de consulta mútua que permitam a efetiva participação da sociedade nos processos decisórios do Plano;

Criar mecanismos públicos de consulta que contemplem a convergência de mídias e redes sociais buscando de todas as formas a tradução do debate para toda população.

2. PRESTAÇÃO DA BANDA LARGA SOB REGIME PÚBLICO

Reconhecer o caráter essencial da banda larga, definindo-o como serviço público, sujeito a metas de universalização, controle de tarifas garantindo seu baixo valor, obrigações de continuidade voltadas à sua prestação ininterrupta e garantia da prevalência do interesse público na utilização da infraestrutura necessária ao serviço;

Integrar ações das esferas Federal, Estadual e Municipal para universalização da Internet da banda larga, possibilitando o acesso de qualquer pessoa ou instituição ao serviço e otimização do uso da infraestrutura, inclusive por meio da reserva de espaço eletromagnético livre de licenças para aplicações comunitárias;

3. GESTÃO PÚBLICA DAS REDES PARA GARANTIR A IGUALDADE ENTRE PROVEDORES E O INGRESSO SUSTENTÁVEL DE NOVOS AGENTES

Implementar mecanismos de controle público da gestão das redes, garantindo o acesso não discriminatório e competitivo à infraestrutura;
Utilizar a Rede Nacional na geração de maior competição a partir da entrada de pequenos e médios provedores, bem como efetivar políticas de incentivo e financiamento possibilitando a sustentabilidade dos mesmos;

Democratizar as licenças para prestação do serviço de banda larga fixa (Serviço de Comunicação Multimídia) no âmbito do PNBL, permitindo que qualquer organização, inclusive as sem fins lucrativos, possa recebê-las;

Efetivar a prestação do serviço ao usuário final pela Telebrás;

Incentivar o uso de tecnologias diversificadas para distribuição da última milha (wi fi, wi max, eletricidade, redes mesh, incorporando novas tecnologias que surjam ao longo do tempo);

Regular a utilização do espectro livre, espaços inutilizados do espectro para evitar interferências na transmissão analógica de televisão, permitindo a sua utilização por cidadãos e comunidades;

Fortalecer instrumentos de regulação e fiscalização com independência em relação ao mercado, participação social e atuação rápida e eficaz, não só com relação à competição, mas também quanto à qualidade do serviço. Estes instrumentos devem atuar sobre todo o sistema, incluindo a Telebrás, grandes e pequenos provedores privados;

4. AMPLIAÇÃO DA DEFINIÇÃO DE PARÂMETROS DE QUALIDADE DA BANDA LARGA

Delimitar as condições de prestação adequada do serviço por meio de critérios objetivos que visem à efetiva proteção do consumidor e a utilização das redes em toda a sua potencialidade;

Assegurar o atendimento adequado ao consumidor e a não abusividade na publicidade e nos contratos, com especial atenção ao cumprimento do dever de informação;

Garantir a paridade de banda para download e upload, imprescindível para o uso multimídia alternativo, fiscalizando o cumprimento das taxas de transmissão contratadas e disponibilizando meios tecnológicos para verificação deste cumprimento pelo próprio usuário;

Definir a proteção à privacidade e à liberdade de expressão e de acesso a conteúdos como parâmetros de qualidade do serviço, em consonância às previsões do Marco Civil da Internet e à discussão do anteprojeto de lei de proteção de dados;

Assegurar a neutralidade da rede, propiciando o acesso igualitário a serviços, aplicativos e informações a todas e todos ao impedir interferências discriminatórias das operadoras na velocidade de navegação;

Implantar no PNBL velocidades de download e upload compatíveis com os conteúdos e aplicações disponíveis na rede, que realmente possibilitem o cidadão ser um agente do processo de produção da cultura digital.

5. APOIO À CULTURA DIGITAL

Estimular a Cultura Digital, Software Livre, Transparência e Princípios da construção colaborativa de conteúdos (ex: wiki);
Promover o uso da rede para produção, compartilhamento e distribuição de conteúdos, por meio de políticas públicas para produção de conteúdos culturais, científicos e educacionais, bem como o apoio a licenciamentos livres e à reforma da Lei de Direito Autoral;

Definir políticas concretas de fomento e desenvolvimento da indústria de inovação cutural e aplicações web baseadas em conteúdos culturais;

Estimular entidades e iniciativas voltadas à Alfabetização Digital, incluindo escolas de todos os níveis, Lan Houses e Programas de Inclusão dos governos e sociedade civil, possibilitando a apropriação e qualificação do uso da rede;

Criar espaços de acesso público e comunitário gratuito inclusive através de redes abertas (WI FI);

Incentivar a integração de acessos comunitários de ações do governo (telecentros, pontos de Cultura, acessos abertos por redes sem fio municipais) com a sociedade civil, englobando um conjunto de iniciativas públicas do Terceiro Setor na área de Cultura Digital e iniciativa privada.

Conecte-se com esta campanha <
http://campanhabandalarga.org.br/ >
fonte: Palavras-Diversas

sábado, 23 de abril de 2011

Brisa - Cinema Possível

Brisa – um Filme de Jiddu Saldanha – Projeto Cinema Possível

Brisa é o primeiro filme do projeto Cinema Possível em HD, finalizado em Abril de 2011. No elenco: May Pasquetti, Artur Gomes e Jorge Ventura. Música de Marko Andrade, direção de Jiddu Saldanha. Poemas de Eliakin Rufino, Herbert Emanuel, Artur Gomes, etc... Este filme é dedicado àqueles que amam a poesia!

Jiddu Saldanha – Palavras do Diretor

pele grafia 

meus lábios em teus ouvidos
flechas netuno cupido
a faca na língua a língua na faca
a febre em patas de vaca
as unhas sujas de Lorca
cebola pré sal com pimenta
tempero sabre de fogo
na tua língua com coentro
qualquer paixão re/invento

o corpo/mar quando agita
na preamar arrebenta
espuma esperma semeia
sementes letra por letra
na bruma branca da areia
sem pensar qualquer sentido
grafito em teu corpo despido
poemas na lua cheia


por que te amo
e amor não tem pele nome ou sobrenome
não adianta chamar
que ele não vem quando se quer
porque tem seus próprios códigos e segredos
mas não tenha medo
pode sangrar pode doer
e ferir fundo
mas é razão de estar no mundo
nem que seja por segundo
por um beijo mesmo breve
por que te amo
no sol no sal no mar na neve


saiba mais sobre Brisa aqui: http://curtabrisa.blogspot.com

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Pescadores sofrem com tragédia ambiental no Golfo do México

Batalha de pescadores do Golfo do México segue contra efeitos de vazamento de óleo de plataforma da British Petroleum. Na primeira reunião de acionistas da BP depois do vazamento do ano passado, ativistas, pescadores e ambientalistas protestam contra a falta de ação e auxílio da gigante britânica. “Nossas regiões de pesca estão esvaziadas, nossas ostras estão mortas e nós não estamos recebendo os fundos necessários para nosso sustento. Pela primeira vez na vida eu vejo pescadores terem que tomar pílula para dormir”, diz pesquisador de Lousiana (EUA).

Os quase 5 milhões de barris de petróleo que se espalharam pelo Golfo do México no ano passado em decorrência da explosão em uma plataforma da gigante petrolífera britânica BP podem ter saído das pautas dos jornais, mas não das vidas das pessoas afetadas. Na quinta-feira última, menos de uma semana antes do primeiro aniversário do início do vazamento na plataforma Deepwater Horizon, ativistas aproveitaram a primeira reunião de acionistas da BP em Londres desde o acidente para verbalizar suas angústias e cobrar ações mais rápidas e profundas da companhia.

“Alguns dos nossos pescadores não tiveram mais nenhuma receita desde derramamento de petróleo”, justificou Byron Encalade, da associação dos produtores de ostras de Louisiana, que viajou para a Inglaterra especialmente para o evento. “Nossas regiões de pesca estão esvaziadas, nossas ostras estão mortas e nós não estamos recebendo os fundos necessários para nosso sustento”, afirmou o pescador norte-americano. “Pela primeira vez na vida eu vejo pescadores terem que tomar pílula para dormir”.
Alguns ativistas chegaram a adquirir ações da empresa para tentar obter acesso à reunião e poder se manifestar, mas foi do lado de fora, fazendo barulho com instrumentos de percussão e sopro, carregando cartazes e faixas, que ganharam as páginas dos jornais e minutos nos noticiários noturnos.

“Eu vim lá da região da Costa do Golfo. Minha comunidade se foi e não me deixam entrar [na reunião]”, disse Diane Wilson, uma ativista que tentou acessar a sala onde acionistas ouviam da empresa os números do ano passado, quando aproximadamente 25% do valor de mercado da BP se perdeu devido ao acidente. Apesar de ter ações da empresa, o acesso lhe foi negado sob alegação de que ela – parte da quarta geração de uma família de pescadores – poderia representar um risco para os outros acionistas. Para chamar a atenção dos fotógrafos, ela espalhou pelo rosto e nas mãos um líquido preto e viscoso, como se fosse petróleo. “É a única linguagem que eles entendem”. No ano passado, ela já havia feito um movimento semelhante, na mesma sala em que o então presidente da BP testemunhava a uma comissão do Congresso dos EUA.

Entre as pessoas que conseguiram acessar a reunião, um grupo de dez ambientalistas canadenses, cada um vestindo uma camiseta com uma letra diferente e que juntas formariam a fraseno tar sands”, uma referência à exploração de petróleo nas areias betuminosas canadenses. Espalhados em locais diferentes da sala, eles planejavam levantar-se, formar uma fila e revelar o conteúdo das camisetas de modo que a mensagem fosse passada aos acionistas. A ação de seguranças porém impediu o movimento e eles foram retirados da sala antes que pudessem completar a ação.

Um fundo de 20 bilhões de dólares foi criado pela empresa para compensar os atingidos pelo vazamento de petróleo. Uma reportagem do The Independent publicada neste sábado revela que mais de meio milhão de pedidos de compensação já chegaram ao escritório que gerencia esse fundo nos EUA.

“Temos visto dinheiro indo a todos os lugares, menos para as comunidades no centro disso tudo. E nós somos essas comunidades, os primeiros a ficar sem trabalho e seremos os últimos a ter de volta os nossos trabalhos e sustentos”, criticou Encalade.

“ Queremos ter a certeza de que o petróleo, que ainda está no fundo do oceano, e os químicos dispersantes, que ainda estão na água, não serão esquecidos”, disse Antonia Juhasz, diretora do programa de energia do Global Exchange e autora do livro “Black Tide: The Devastating Impact of the Gulf Oil Spill”. “Essa é uma história que deve servir de alerta para outros investimentos da BP, como as areias betuminosas. Isso é o que acontece quando uma empresa de petróleo opera irresponsavelmente em um meio tecnicamente complicado e ecologicamente sensível”.
O vazamento do Golfo do México no ano passado durou quase três meses e foi o maior da história da indústria.

Cordel do Fogo Encantado



Ai Se Sêsse
Composição : Zé Da Luz

Se um dia nois se gostasse
Se um dia nois se queresse
Se nois dois se empareasse
Se juntim nois dois vivesse
Se juntim nois dois morasse
Se juntim nois dois drumisse
Se juntim nois dois morresse
Se pro céu nois assubisse
Mas porém acontecesse de São Pedro não abrisse
a porta do céu e fosse te dizer qualquer tulice
E se eu me arriminasse
E tu cum eu insistisse pra que eu me arresolvesse
E a minha faca puxasse
E o bucho do céu furasse
Tarvês que nois dois ficasse
Tarvês que nois dois caisse
E o céu furado arriasse e as virgi toda fugisse



Chover (ou Invocação Para Um Dia Líquido)

Composição : Lirinha; Clayton Barros


"O sabiá no sertão
Quando canta me comove,
Passa três meses cantando
E sem cantar passa nove
Porque tem a obrigação
De só cantar quando chove*

Chover chover
Valei-me Ciço o que posso fazer
Chover chover
Um terço pesado pra chuva descer
Chover chover
Até Maria deixou de moer
Chover chover
Banzo Batista, bagaço e banguê

Chover chover
Cego Aderaldo peleja pra ver
Chover chover
Já que meu olho cansou de chover
Chover chover
Até Maria deixou de moer
Chover chover
Banzo Batista, bagaço e banguê

Meu povo não vá simbora
Pela Itapemirim
Pois mesmo perto do fim
Nosso sertão tem melhora
O céu tá calado agora
Mais vai dar cada trovão
De escapulir torrão
De paredão de tapera**

Bombo trovejou a chuva choveu
Choveu choveu
Lula Calixto virando Mateus
Choveu choveu
O bucho cheio de tudo que deu
Choveu choveu
suor e canseira depois que comeu
Choveu choveu
Zabumba zunindo no colo de Deus
Choveu choveu
Inácio e Romano meu verso e o teu
Choveu choveu
Água dos olhos que a seca bebeu

Quando chove no sertão
O sol deita e a água rola
O sapo vomita espuma
Onde um boi pisa se atola
E a fartura esconde o saco
Que a fome pedia esmola**

Seu boiadeiro por aqui choveu
Seu boiadeiro por aqui choveu
Choveu que amarrotou
Foi tanta água que meu boi nadou***


*Zé Bernardinho
**João Paraíbano
***Toque pra boiadeiro


O Cão Sem Plumas


Ficha Técnica


Inspirado no poema de João Cabral de Melo Neto "O Cão Sem Plumas"
Encenação - Jiddu Saldanha
Elenco - Bruno Peixoto
Iluminação - Nina Rodrigues
Sonoplastia - Júlia Faria e Tatianna Rivero
Fotografia - André Amaral
Apoio de Pesquisa - Tatianna Rivero e Nina Rodrigues
"O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão,
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.
"
"Porque é na água do rio
que eles se perdem
(lentamente
e sem dente).
Ali se perdem
(como uma agulha não se perde).
Ali se perdem
(como um relógio não se quebra).

Ali se perdem
como um espelho não se quebra.
Ali se perdem
como se perde a água derramada:
sem o dente seco
com que de repente
num homem se rompe
o fio de homem."

O cão sem plumas (poema), de João Cabral de Melo Neto

http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/analises_completas/o/o_cao_sem_plumas_poema

O universo poético de João Cabral de Melo Neto, autor inserido no , o da zona da mata e do sertão nordestino. Sua poesia remete o leitor constantemente às cidades de Olinda e de Recife com seus casarões antigos, seus mares e rios importantes como o Beberibe e o Capibaribe, e aos canaviais da zona da mata pernambucana. Mas também remete para a vegetação escassa da caatinga e à dor do agreste brasileiro. Por isso mesmo, dois de seus livros, Pedra do sono, de 1942 e A educação pela pedra, de 1966, trazem no título a idéia de pedra, símbolo da secura sertaneja e do solo pedroso da região.

As produções iniciais de João Cabral de Melo Neto, contudo, ressentem-se de uma matéria-prima mais significativa. Apenas com este poema longo, O cão sem plumas, a linguagem depurada parece encontrar uma temática a altura: o rio Capibaribe, que corta a cidade de Recife, rio-detrito, com sua sujeira, seus detritos com a população miserável que lhe habita as margens, trágico espelho do subdesenvolvimento. O cão desemplumado, portanto, é a metáfora de Cabral para o rio Capibaribe e sua cinzenta convivência com os homens-caranguejos, que também são cães sem plumas.

"Difícil é saber/ se aquele homem/ já não está/ mais aquém do homem".

O poema foi publicado em 1950, em Barcelona, e inicia um ciclo de poemas em que o poeta explicita sua preocupação com a realidade nordestina e a denúncia da miséria. Busca, em meio uma atmosfera mineral, a vida possível. Ressalta-se na redundância, na duplicação de palavras e ritmos, o poema sugere a cadência da prosa e a monotonia das águas barrentas do Capibaribe, cão sem pêlo ou pluma, reduzido só a detritos e lama.

Anterior à peça em versos Morte e Vida Severina (escrita em 1954-55), esse cão despossuído de adornos representa um dos momentos mais altos da criação cabralina.

Poema soberbo, O Cão sem Plumas é a descrição das condições sub-humanas nas palafitas e mocambos do Recife. A dicção é dura, como convém ao tema, mas nunca resvala para o panfleto.
“Só mesmo um grande artista poderia assumir ecos de um discurso social sem ser panfletário, romântico ou esteticista”, escreve o colunista Daniel Piza (Gazeta Mercantil, 18/10/1999). É um longo e hermético poema que denuncia não só o estado do rio, mas também a situação de exclusão da população ribeirinha, à margem de tudo.

O poema se constrói em duas instâncias geográficas: a da geografia física, que reflete sobre as questões regionais propriamente ditas (a descrição do rio, sua desembocadura, seus mangues e o processo de seu desaguamento no mar), e a da geografia humana, que nos faz pensar não só sobre as condições sociais e econômicas do homem que habita suas margens, mas também sobre o que faz de um homem um homem, ou seja, o poema parte de uma reflexão sobre a região e se completa com outra de caráter mais universal.

Há ainda, para a compreensão do poema, de se relevar uma oposição: a que o autor criou entre as coisas como deveriam ser e as coisas como na realidade se apresentam. Assim, ao falar da água do rio, ele sonha com a água perfeita (a água do copo, a água da chuva azul, a água que se abre aos peixes, a águaA? que teria os enfeites ou as plumas das plantas), ao mesmo tempo em que sofre ao constatar que ela não existe no rio Capibaribe, cuja água tem lodo, ferrugem e lama. Também, ao se referir ao habitante das margens do rio, o autor reflete sobre o que um homem devia ser (sonho e pluma) e se revolta diante da dificuldade de achar, naquele ser, um homem.

Outro ponto que se pode ressaltar é a pertinente análise do meio ambiente, sem isolá-lo das questões humanas - rio e homem são entidades indissociáveis no poema, tão confundidos que não é possível saber onde um começa e outro termina; a pobreza e a negritude do rio é causa da pobreza do homem negro de lama.

No poema, que se compõe de quatro momentos (Paisagem do Capibaribe, I e II; Fábula do Capibaribe, III e Discurso do Capibaribe, IV), os versos a seguir, extraídos do IV momento, ilustram com precisão o que foi dito acima:
Como o rio
aqueles homens
são como cães sem plumas
(um cão sem plumas
é mais
que um cão saqueado;
é mais
que um cão assassinado.
Na paisagem do rio
difícil é saber
onde começa o rio;
onde a lama
começa do rio;
onde a terra
começa da lama;
onde o homem,
onde a pele
começa da lama;
onde começa o homem
naquele homem.


Por fim, há um claro posicionamento do poeta no sentido de chamar o leitor à reflexão sobre o fato de que o rio será aquilo que o homem fizer dele, como a ave que conquista o seu vôo, e sobre a sociedade, que transforma o rio num não-rio, o mar num não-mar, o mangue num não-mangue e o homem num não-homem.

Poema na íntegra
I. Paisagem do Capibaribe
A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada.

O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão,
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.

Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.

Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.
Sabia da lama
como de uma mucosa.
Devia saber dos polvos.
Sabia seguramente
da mulher febril que habita as ostras.

Aquele rio
jamais se abre aos peixes,
ao brilho,
à inquietação de faca
que há nos peixes.
Jamais se abre em peixes.

Abre-se em flores
pobres e negras
como negros.
Abre-se numa flora
suja e mais mendiga
como são os mendigos negros.
Abre-se em mangues
de folhas duras e crespos
como um negro.

Liso como o ventre
de uma cadela fecunda,
o rio cresce
sem nunca explodir.
Tem, o rio,
um parto fluente e invertebrado
como o de uma cadela.

E jamais o vi ferver
(como ferve
o pão que fermenta).
Em silêncio,
o rio carrega sua fecundidade pobre,
grávido de terra negra.

Em silêncio se dá:
em capas de terra negra,
em botinas ou luvas de terra negra
para o pé ou a mão
que mergulha.

Como às vezes
passa com os cães,
parecia o rio estagnar-se.
Suas águas fluíam então
mais densas e mornas;
fluíam com as ondas
densas e mornas
de uma cobra.

Ele tinha algo, então,
da estagnação de um louco.
Algo da estagnação
do hospital, da penitenciária, dos asilos,
da vida suja e abafada
(de roupa suja e abafada)
por onde se veio arrastando.

Algo da estagnação
dos palácios cariados,
comidos
de mofo e erva-de-passarinho.
Algo da estagnação
das árvores obesas
pingando os mil açúcares
das salas de jantar pernambucanas,
por onde se veio arrastando.

(É nelas,
mas de costas para o rio,
que "as grandes famílias espirituais" da cidade
chocam os ovos gordos
de sua prosa.
Na paz redonda das cozinhas,
ei-las a revolver viciosamente
seus caldeirões
de preguiça viscosa).

Seria a água daquele rio
fruta de alguma árvore?
Por que parecia aquela
uma água madura?
Por que sobre ela, sempre,
como que iam pousar moscas?

Aquele rio
saltou alegre em alguma parte?
Foi canção ou fonte
Em alguma parte?
Por que então seus olhos
vinham pintados de azul
nos mapas?


II. Paisagem do Capibaribe
Entre a paisagem
o rio fluía
como uma espada de líquido espesso.
Como um cão
humilde e espesso.

Entre a paisagem
(fluía)
de homens plantados na lama;
de casas de lama
plantadas em ilhas
coaguladas na lama;
paisagem de anfíbios
de lama e lama.

Como o rio
aqueles homens
são como cães sem plumas
(um cão sem plumas
é mais
que um cão saqueado;
é mais
que um cão assassinado.

Um cão sem plumas
é quando uma árvore sem voz.
É quando de um pássaro
suas raízes no ar.
É quando a alguma coisa
roem tão fundo
até o que não tem).

O rio sabia
daqueles homens sem plumas.
Sabia
de suas barbas expostas,
de seu doloroso cabelo
de camarão e estopa.

Ele sabia também
dos grandes galpões da beira dos cais
(onde tudo
é uma imensa porta
sem portas)
escancarados
aos horizontes que cheiram a gasolina.

E sabia
da magra cidade de rolha,
onde homens ossudos,
onde pontes, sobrados ossudos
(vão todos
vestidos de brim)
secam
até sua mais funda caliça.

Mas ele conhecia melhor
os homens sem pluma.
Estes
secam
ainda mais além
de sua caliça extrema;
ainda mais além
de sua palha;
mais além
da palha de seu chapéu;
mais além
até
da camisa que não têm;
muito mais além do nome
mesmo escrito na folha
do papel mais seco.

Porque é na água do rio
que eles se perdem
(lentamente
e sem dente).
Ali se perdem
(como uma agulha não se perde).
Ali se perdem
(como um relógio não se quebra).

Ali se perdem
como um espelho não se quebra.
Ali se perdem
como se perde a água derramada:
sem o dente seco
com que de repente
num homem se rompe
o fio de homem.

Na água do rio,
lentamente,
se vão perdendo
em lama; numa lama
que pouco a pouco
também não pode falar:
que pouco a pouco
ganha os gestos defuntos
da lama;
o sangue de goma,
o olho paralítico
da lama.

Na paisagem do rio
difícil é saber
onde começa o rio;
onde a lama
começa do rio;
onde a terra
começa da lama;
onde o homem,
onde a pele
começa da lama;
onde começa o homem
naquele homem.

Difícil é saber
se aquele homem
já não está
mais aquém do homem;
mais aquém do homem
ao menos capaz de roer
os ossos do ofício;
capaz de sangrar
na praça;
capaz de gritar
se a moenda lhe mastiga o braço;
capaz
de ter a vida mastigada
e não apenas
dissolvida
(naquela água macia
que amolece seus ossos
como amoleceu as pedras).


III. Fábula do Capibaribe
A cidade é fecundada
por aquela espada
que se derrama,
por aquela
úmida gengiva de espada.

No extremo do rio
o mar se estendia,
como camisa ou lençol,
sobre seus esqueletos
de areia lavada.

(Como o rio era um cachorro,
o mar podia ser uma bandeira
azul e branca
desdobrada
no extremo do curso
— ou do mastro — do rio.

Uma bandeira
que tivesse dentes:
que o mar está sempre
com seus dentes e seu sabão
roendo suas praias.

Uma bandeira
que tivesse dentes:
como um poeta puro
polindo esqueletos,
como um roedor puro,
um polícia puro
elaborando esqueletos,
o mar,
com afã,
está sempre outra vez lavando
seu puro esqueleto de areia.

O mar e seu incenso,
o mar e seus ácidos,
o mar e a boca de seus ácidos,
o mar e seu estômago
que come e se come,
o mar e sua carne
vidrada, de estátua,
seu silêncio, alcançado

à custa de sempre dizer
a mesma coisa,
o mar e seu tão puro
professor de geometria).

O rio teme aquele mar
como um cachorro
teme uma porta entretanto aberta,
como um mendigo,
a igreja aparentemente aberta.

Primeiro,
o mar devolve o rio.
Fecha o mar ao rio
seus brancos lençóis.
O mar se fecha
a tudo o que no rio
são flores de terra,
imagem de cão ou mendigo.

Depois,
o mar invade o rio.
Quer
o mar
destruir no rio
suas flores de terra inchada,
tudo o que nessa terra
pode crescer e explodir,
como uma ilha,
uma fruta.

Mas antes de ir ao mar
o rio se detém
em mangues de água parada.
Junta-se o rio
a outros rios
numa laguna, em pântanos
onde, fria, a vida ferve.

Junta-se o rio
a outros rios.
Juntos,
todos os rios
preparam sua luta
de água parada,
sua luta
de fruta parada.

(Como o rio era um cachorro,
como o mar era uma bandeira,
aqueles mangues
são uma enorme fruta:

A mesma máquina
paciente e útil
de uma fruta;
a mesma força
invencível e anônima
de uma fruta
— trabalhando ainda seu açúcar
depois de cortada —.

Como gota a gota
até o açúcar,
gota a gota
até as coroas de terra;
como gota a gota
até uma nova planta,
gota a gota
até as ilhas súbitas
aflorando alegres).


IV. Discurso do Capibaribe
Aquele rio
está na memória
como um cão vivo
dentro de uma sala.
Como um cão vivo
dentro de um bolso.
Como um cão vivo
debaixo dos lençóis,
debaixo da camisa,
da pele.

Um cão, porque vive,
é agudo.
O que vive
não entorpece.
O que vive fere.
O homem,
porque vive,
choca com o que vive.
Viver
é ir entre o que vive.

O que vive
incomoda de vida
o silêncio, o sono, o corpo
que sonhou cortar-se
roupas de nuvens.
O que vive choca,
tem dentes, arestas, é espesso.
O que vive é espesso
como um cão, um homem,
como aquele rio.

Como todo o real
é espesso.
Aquele rio
é espesso e real.
Como uma maçã
é espessa.
Como um cachorro
é mais espesso do que uma maçã.
Como é mais espesso
o sangue do cachorro
do que o próprio cachorro.
Como é mais espesso
um homem
do que o sangue de um cachorro.
Como é muito mais espesso
o sangue de um homem
do que o sonho de um homem.

Espesso
como uma maçã é espessa.
Como uma maçã
é muito mais espessa
se um homem a come
do que se um homem a vê.
Como é ainda mais espessa
se a fome a come.
Como é ainda muito mais espessa
se não a pode comer
a fome que a vê.

Aquele rio
é espesso
como o real mais espesso.
Espesso
por sua paisagem espessa,
onde a fome
estende seus batalhões de secretas
e íntimas formigas.

E espesso
por sua fábula espessa;
pelo fluir
de suas geléias de terra;
ao parir
suas ilhas negras de terra.

Porque é muito mais espessa
a vida que se desdobra
em mais vida,
como uma fruta
é mais espessa
que sua flor;
como a árvore
é mais espessa
que sua semente;
como a flor
é mais espessa
que sua árvore,
etc. etc.

Espesso,
porque é mais espessa
a vida que se luta
cada dia,
o dia que se adquire
cada dia
(como uma ave
que vai cada segundo
conquistando seu vôo).


III. Fábula do Capibaribe

A cidade é fecundada
por aquela espada
que se derrama,
por aquela
úmida gengiva de espada.

No extremo do rio
o mar se estendia,
como camisa ou lençol,
sobre seus esqueletos
de areia lavada.

(Como o rio era um cachorro,
o mar podia ser uma bandeira
azul e branca
desdobrada
no extremo do curso
— ou do mastro — do rio.

Uma bandeira
que tivesse dentes:
que o mar está sempre
com seus dentes e seu sabão
roendo suas praias.

Uma bandeira
que tivesse dentes:
como um poeta puro
polindo esqueletos,
como um roedor puro,
um polícia puro
elaborando esqueletos,
o mar,
com afã,
está sempre outra vez lavando
seu puro esqueleto de areia.

O mar e seu incenso,
o mar e seus ácidos,
o mar e a boca de seus ácidos,
o mar e seu estômago
que come e se come,
o mar e sua carne
vidrada, de estátua,
seu silêncio, alcançado
à custa de sempre dizer
a mesma coisa,
o mar e seu tão puro
professor de geometria).

O rio teme aquele mar
como um cachorro
teme uma porta entretanto aberta,
como um mendigo,
a igreja aparentemente aberta.

Primeiro,
o mar devolve o rio.
Fecha o mar ao rio
seus brancos lençóis.
O mar se fecha
a tudo o que no rio
são flores de terra,
imagem de cão ou mendigo.

Depois,
o mar invade o rio.
Quer
o mar
destruir no rio
suas flores de terra inchada,
tudo o que nessa terra
pode crescer e explodir,
como uma ilha,
uma fruta.

Mas antes de ir ao mar
o rio se detém
em mangues de água parada.
Junta-se o rio
a outros rios
numa laguna, em pântanos
onde, fria, a vida ferve.

Junta-se o rio
a outros rios.
Juntos,
todos os rios
preparam sua luta
de água parada,
sua luta
de fruta parada.

(Como o rio era um cachorro,
como o mar era uma bandeira,
aqueles mangues
são uma enorme fruta:

A mesma máquina
paciente e útil
de uma fruta;
a mesma força
invencível e anônima
de uma fruta
— trabalhando ainda seu açúcar
depois de cortada —.

Como gota a gota
até o açúcar,
gota a gota
até as coroas de terra;
como gota a gota
até uma nova planta,
gota a gota
até as ilhas súbitas
aflorando alegres).

IV. Discurso do Capibaribe
Aquele rio
está na memória
como um cão vivo
dentro de uma sala.
Como um cão vivo
dentro de um bolso.
Como um cão vivo
debaixo dos lençóis,
debaixo da camisa,
da pele.

Um cão, porque vive,
é agudo.
O que vive
não entorpece.
O que vive fere.
O homem,
porque vive,
choca com o que vive.
Viver
é ir entre o que vive.

O que vive
incomoda de vida
o silêncio, o sono, o corpo
que sonhou cortar-se
roupas de nuvens.
O que vive choca,
tem dentes, arestas, é espesso.
O que vive é espesso
como um cão, um homem,
como aquele rio.

Como todo o real
é espesso.
Aquele rio
é espesso e real.
Como uma maçã
é espessa.
Como um cachorro
é mais espesso do que uma maçã.
Como é mais espesso
o sangue do cachorro
do que o próprio cachorro.
Como é mais espesso
um homem
do que o sangue de um cachorro.
Como é muito mais espesso
o sangue de um homem
do que o sonho de um homem.

Espesso
como uma maçã é espessa.
Como uma maçã
é muito mais espessa
se um homem a come
do que se um homem a vê.
Como é ainda mais espessa
se a fome a come.
Como é ainda muito mais espessa
se não a pode comer
a fome que a vê.

Aquele rio
é espesso
como o real mais espesso.
Espesso
por sua paisagem espessa,
onde a fome
estende seus batalhões de secretas
e íntimas formigas.

E espesso
por sua fábula espessa;
pelo fluir
de suas geléias de terra;
ao parir
suas ilhas negras de terra.

Porque é muito mais espessa
a vida que se desdobra
em mais vida,
como uma fruta
é mais espessa
que sua flor;
como a árvore
é mais espessa
que sua semente;
como a flor
é mais espessa
que sua árvore,
etc. etc.

Espesso,
porque é mais espessa
a vida que se luta
cada dia,
o dia que se adquire
cada dia
(como uma ave
que vai cada segundo
conquistando seu vôo).



Fonte parcial: Flávia Suassuna, professora de Literatura e escritora

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Filho de Plínio Marcos dirige clássico do pai

Foi em 1971 que Plínio Marcos, dramaturgo brasileiro, escreveu a peça “Quando as máquinas param”. O texto fala sobre um casal em dificuldades financeiras: o marido desempregado e a mulher tendo que se tornar provedora. A situação piora quando ela engravida.

“Ninguém tem direito de pedir a um artista que não seja subversivo”, dizia ele. E, enquanto se virava para atravessar os anos da ditadura, seus filhos cresciam marcados pelo talento, pelas ideias, pelo teatro de seu pai. “Quando as máquinas param” foi o texto mais encenado de Plínio Marcos, que morreu em 1999.

Seu filho, Leo Lama, seguiu a profissão do pai. Desde o dia15, apresenta, no teatro Zanoni Ferrite, em São Paulo, sua montagem do clássico, com olhar atual, mas não menos crítico. “Infelizmente, ainda há desemprego, ainda há homens encurralados pelo sistema econômico, medos e inseguranças que nos assolam na sociedade”, afirma Lama.

Em sua versão, marido e mulher conversam estáticos. “Hoje em dia, a virtualidade toma conta de tudo. O ser humano fica parado e as máquinas trabalham. A adaptação é uma crítica a isso”, diz Lama. Apesar da influência inegável de Plínio, para Lama, dirigir um texto de seu pai exige tanta responsabilidade quanto a de se trabalhar com qualquer grande ator brasileiro. “O que se deve fazer é não estragar o texto querendo aparecer mais do que a história proposta pelo autor”, explica.

O espetáculo é encenado pela Cia. Um Brasil de Teatro e fica em cartaz até o dia 22 de maio. “Faço teatro em favor do povo, para incomodar os que estão sossegados. Só pra isso faço teatro”, dizia Plínio Marcos. Razão de ser que o impediu de enriquecer, que o fez marginal. Ideal compreendido por Lama entre seus desejos infantis de brinquedos e roupas, mas intrínseco também ao seu trabalho. Lama quer ser essencial, como o pai. “Me deixa desabafar, pai, só hoje, me deixa te falar sobre o sonho dessa gente, você sabe, essa gente, os “homens-pregos”, fixos no mesmo lugar”(depoimento extraído do blog de Leo Lama).

Serviço:
Local: Teatro Zanoni Ferrite – Av. Renata, 163, Vila Formosa
Data: de 15/4 a 22/5
Horário: sexta e sábado, 20h e domingo, 19h.
Ingresso: R$ 10
Para mais informações, clique
aqui.

CAMPOS DOS GOYTACAZES

Quem sou eu

Minha foto
meu coração marçal tupã sangra tupi e rock and roll meu sangue tupiniquim em corpo tupinambá samba jongo maculelê maracatu boi bumbá a veia de curumim é coca cola e guaraná