fulinaíma

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

VeraCidade





veraCidade
porque trancar as portas 
tentar proibir as entradas
se eu já habito os teus cinco sentidos
e as janelas estão escancaradas?
um beija flor risca no espaço
algumas letras de um alfabeto grego
signo de comunicação indecifrável
eu tenho fome de terra
e este asfalto sob a sola dos meus pés:
agulha nos meus dedos

quando piso na Augusta
o poema dá um tapa na cara da Paulista
flutuar na zona do perigo
entre o real e o imaginário:
João Guimarães Rosa Martins Fontes Caio Prado
um bacanal de ruas tortas
eu não sou flor que se cheire
nem mofo de língua morta
o correto deixei na cacomanga
matagal onde nasci
com os seus dentes de concreto
São Paulo é quem me devora
e selvagem devolvo a dentada  
na carne da rua aurora

Jura Secreta 18

te beijo vestida de nua
somente a lua te espelha
nesta lagoa vermelha
porto alegre caís do porto
barcos navios no teu corpo
peixes brincam no teu cio
nus teus seios minhas mãos

e as rendas íntimas que vestias
sobre os teus pêlos ficção
todos os laços dos tecidos
e aquela cor do teu vestido
a pura pele agora é roupa
e o baton da tua boca
e o sabor da tua língua
tudo antes só promessa
agora hóstia entre os meus dentes
para espanto dos decentes
te levo ao ato consagrado

se te despir for só pecado
é só pecar que me interessa

arturgomes

heloisa curzio - ensaio




os lápis traçam suas trilhas
trançam telas
seduções para os olhos
de quem chega
transitam
entre a pulsação das cores
e o traçado
que o seu corpo agita
para que o olhar
não saia
das suas mãos de tintas

arturgomes

sábado, 29 de outubro de 2011

ReVirando a Tropicália – fotos


 fotos da performance poético musical ReVirando a Tropicália, com 
Artur Gomes, Dizzy Ragga e Júnior Brasil, apresentada no Sesc Campos
 dias 26 e 27 - outubro 2011 - fotos: Helo Landin


Terra,
antes que alguém morra
escrevo prevendo a morte
arriscado a vida
antes que seja tarde
e que a língua da minha boca
não cubra mais tua ferida

entre/aberto
em teus ofícios
é que meu peito de poeta
sangra ao corte das navalhas
minha veia mais aberta
é mais um rio que se espalha

minha terra é de senzalas tantas
enterra em ti milhões de outras esperanças
soterra em teus grilhões
a voz que tenta – avança
plantada  em ti como canavial
que a foice corta
mas cravado em ti me ponho a luta
mesmo sabendo o vão –
estreito em cada porta

artur gomes

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

leveza

isadora zecchin - musa da minha cannon

o poema as vezes é sabre
lâmina fina como o vento
ou folhas suspensas
sobre um verde
quase água
quase pluma
levita sobrevoa se espraia
na voragem do dia
como os dedos da moça
ao atiçar o clic
no instante exato da fotografia

arturgomes


quinta-feira, 27 de outubro de 2011

hoje no sesc campos - ReVirando a Tropicália

Sesc Rio apresenta:
70 Anos que Não se Foram
Artur Gomes e Dizzy Ragga
participação especial do tecladista Júnior Brasil
ReVirando a Tropicália
Espaço Plural – 19:00h
Entrada Franca


foto: helo landin


 me encanta mais teus olhos
que o plano piloto de brasília
o palácio do planalto o alvorada
me encanta mais as mãos da namorada
que a bandeira do brasil
o céu de anil a tropicalha

quero muito mais a carNAvalha
que a palavra açucarada
procuro  a palavra sal
do suor da carne bruta
a flor de lótus do cio da fruta
mesmo quando for somente espinhos
me encanta muito mais
os pés que a lata chuta
por entender que a vida é luta
e abrir novos caminhos

me encanta mais na lama o lírio
a flor do láscio
os olhos da minha filha
que o ouro dessas quadrilhas
que habitam esses palácios

arturgomes

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Hoje no Sesc Campos

Sesc Rio apresenta:
70 Anos que Não se Foram
Artur Gomes e Dizzy Ragga
ReVirando a Tropicália
Espaço Plural – 19:00h
Entrada Franca

foto: helo landin


 EntreDentes

queimando em Mar de Fogo me registro
lá no fundo do teu íntimo
bem no branco do meu nervo
brota uma onda de sal e líquido
procurando a porta do teu cais

teu nome já estava cravado nos meus dentes
desde quando Sísifo olhava no espelho
primeiro como Mar de Fogo
registro vivo das primeiras Eras
segundo como Flor de Lótus
cravado na pele da flor primavera
logo depois gravidez e parto
permitindo o Logus quando o amor quisera

artur gomes

terça-feira, 25 de outubro de 2011

carybé ilustrador - exposição - oficina graffiti - sesc campos

o manejo do stress através da respiração - sesc campos

um ano sem luizz ribeiro

luizz ribeiro e sérgio máximo

Neste domingo, dia 23 de outubro, a cena musical de Campos lembrou com
saudade do falecimento do músico Luiz Ribeiro, que completa 1 ano.
Para homenagear o artista, foi celebrada uma missa em sua homenagem
no domingo, às 10h, na Catedral.

Luiz inicou sua carreira nos anos anos 70 em Campos-RJ e durante sua
carreira como músico foi influenciado por: Beatles, Stones, Marley,
Tropicália e diversos reis do blues. Sempre no comando dos Avyadores
do Brazyl, desde a sua fundação pelos idos de 1982. Luiz teve como
filosofia a seguinte afirmação: a guitarra foi feita pra música, e não
vice-versa.

Conheci Luiz, num Festival de Música no ano de 1972 no Colégio Auxiliadora, e a parceria foi fluindo naturalmente. Marca Registrada, está presente no primeiro disco do Avyadores Qualqur Prazer lançado ainda em vinil, nos anos 80 e em Fulinaíma Sax Blues Poesia, e neste tem ainda Boca do Inferno, A Cor da Pele e NostraDamus.

Sua ausência física será sempre sentida, mas sua presença espiritual nos acompanhará por todo o sempre aqui agora e mias tarde por outras galáxias por onde nós também iremos transitar.

Artur Gomes

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Uma Argentina sem surpresas – e sem oposição

A oposição feroz dos grandes conglomerados dos meios de comunicação, a resistência desrespeitosa dos grandes magnatas do campo, as chantagens dos grandes barões da indústria, a virulenta má vontade das classes mais favorecidas, tudo isso somado não foi capaz de abalar o prestígio da presidente Cristina Fernández de Kirchner. Ela conquistou apoio de amplas faixas do eleitorado mais jovem, abriu espaço junto aos profissionais liberais, recebeu o voto massivo dos pobres.
Não houve nenhuma surpresa, e a grande curiosidade, até tarde da noite do domingo, 23 de outubro, era saber qual a porcentagem de votos que daria a Cristina Fernández de Kirchner uma das mais estrondosas vitórias da história da Argentina. Havia, é verdade, outra curiosidade: quanto por cento do eleitorado faria a glória do médico Hermes Binner, que até maio ou junho mal roçava a casa dos 3% nas pesquisas e se consolidou como segundo mais votado, deixando para trás, desnorteadas, as figuras um tanto anêmicas de Ricardo Alfonsín, da União Cívica Radical, e Eduardo Duhalde, da dissidência direitista do peronismo?

As primeiras projeções davam a ela 53% dos votos. É mais do que o falecido presidente Raúl Alfonsín teve em 1983, nas primeiras eleições da Argentina depois de sete anos da mais bárbara de suas muitas ditaduras militares (51,7%). Mais do que o dentista Hector Cámpora, designado por Perón, teve em março de 1973, pondo fim a outra ditadura militar (49,53%). É quase a mesma coisa que Juan Domingo Perón teve em 1946 (56%), dando início a uma mudança radical na Argentina e criando um movimento político que esteve presente, de uma forma ou de outra, em tudo que aconteceu no país até hoje. Perde longe, é verdade, para a vitória do mesmo Perón em setembro de 1973, quando levou 60% dos votos e massacrou o líder da União Cívica Radical, Ricardo Balbín, que mal e mal chegou a 24%. Conseguiu, porém, a mesma e impactante diferença (36 pontos) sobre o segundo colocado. 

Passado o vendaval, o que será da oposição tradicional, que, nocauteada pelas urnas, sai do embate completamente sem rumo? 

Tanto Ricardo Alfonsín como os dissidentes da direita peronista, o ex-presidente Eduardo Duhalde e Alberto Rodríguez Saá, enterraram definitivamente suas pálidas lideranças. Nenhum deles foi, em momento algum, alternativa viável à permanência de Cristina Kirchner na Casa Rosada. A grande figura da direita argentina, o atual intendente da cidade de Buenos Aires, Maurício Macri, preferiu não correr riscos. Ladino, não deu apoio ostensivo a nenhum dos candidatos da direita: deixou que naufragassem estrepitosamente na mais gelada solidão. Está de olho nas eleições presidenciais de 2015. Até lá, o kirchnerismo tratará de construir um novo herdeiro. Se mantiver o rumo trilhado até agora, não parece tão difícil assim. 

O fato de Cristina Kirchner e Hermes Binner terem somado 70% dos votos argentinos é um sinal bastante claro da consolidação da centro-esquerda no cenário sul-americano. Uma espécie de rotunda e rigorosa pá de cal nos tempos do neoliberalismo desenfreado que levou a Argentina ao precipício e quase afundou de vez outros países do continente. A coincidência de governos de esquerda e centro-esquerda no Uruguai, no Peru, na Argentina, no Paraguai e no Brasil, somada aos governos de uma esquerda mais dura no Equador, na Bolívia e na Venezuela, isola ainda mais os remanescentes da direita, encastelados na Colômbia e no Chile. 

Em tempos de feia crise global, não deixa de ser um alento saber que há uma vereda compartilhada por estas comarcas com tantos séculos de sacrifício nas costas. O avassalador triunfo de Cristina Kirchner reafirma essa tendência. Pela primeira vez em sabe-se lá quanto tempo, há uma nítida maioria da esquerda e da centro-esquerda governando os países sul-americanos.

Para quem, enfim, ainda se pergunta pelas razões da vitória de Cristina Kirchner, um pouco de números talvez ajude a encontrar a resposta. Para começo de conversa, a economia cresce ao ritmo de mais de 6% ao ano. O desemprego é baixo, a maior parte dos trabalhadores chegou a acordos que asseguraram ganhos salariais reais, os programas sociais do governo atendem a milhares de famílias. Um dos muitos subsídios atende a três milhões e meio de menores de 18 anos de idade, com a única condição de que freqüentem a escola e façam as vacinações obrigatórias. Em quatro anos – entre 2007 e 2010 – a pobreza baixou de 26% a 21,5% da população. 

A oposição feroz dos grandes conglomerados dos meios de comunicação, a resistência desrespeitosa dos grandes magnatas do campo, as chantagens dos grandes barões da indústria, a virulenta má vontade das classes mais favorecidas, tudo isso somado não foi capaz de abalar o prestígio da presidente. Ela conquistou apoio de amplas faixas do eleitorado mais jovem, abriu espaço junto aos profissionais liberais, recebeu o voto massivo dos pobres. 

É com essa força que agora se lança a um segundo mandato que certamente enfrentará mais dificuldades que o primeiro. A crise global não cede terreno, as economias periféricas correm risco de contaminação, ajustes duros terão de ser feito na política econômica do país. O amparo para esses novos tempos é uma formidável avalanche de votos. Essa a força que a moverá.

Fotos: http://www.cristina.com.ar/ 

sábado, 22 de outubro de 2011

Occupy London: “Nós somos os 99%”

Em Londres, a repercussão do movimento americano Occupy Wall Street está sendo chamada de Occupy the London Stock Exchange, ou Ocupem a Bolsa de Londres, e segue na mesma linha do que se vê nos Estados Unidos. Não há um líder ou um porta-voz, sequer uma proposta clara do que pode ser feito para mudar o mercado financeiro ou o sistema político-econômico. “Pergunte a 100 pessoas aqui e você vai ter 100 diferentes respostas”, diz um dos acampados.
Fazia 8ºC na City, o coração do mercado financeiro inglês, em Londres, na tarde de quarta-feira, 19 de outubro. Ainda assim, cerca de 150 pessoas continuavam nas barracas montadas desde sábado, 15, em frente à Catedral de St. Paul’s, e não pareciam pretender sair de lá tão cedo. Em Londres, a repercussão do movimento americano Occupy Wall Street está sendo chamada de Occupy the London Stock Exchange, ou Ocupem a Bolsa de Londres (página no Facebook e no Twitter), e segue na mesma linha do que se vê nos Estados Unidos. Não há um líder ou um porta-voz, sequer uma proposta clara do que pode ser feito para mudar o mercado financeiro ou o sistema político-econômico.

“Pergunte a 100 pessoas aqui e você vai ter 100 diferentes respostas”, disse Ben, um jovem de 22 anos que recém terminou a faculdade de história e política e agora trabalha em um bar, mas não quis ser fotografado nem dar o sobrenome. “A polícia nesse país usa um monte de artifícios pra tentar pegar alguém”, justificou. A sensação não é incomum por aqui. A instituição que deveria dar segurança geralmente é motivo de medo. Mas a relação com o movimento anda amistosa, apesar de um pequeno confronto no começo.

Apesar de estar na frente da catedral há apenas cerca de 24 horas, Ben não pensa em sair de lá. Diz que vão continuar acampados, sem prazo definido de retirada. Assim como tantos outros que circulavam por lá, ele tinha um pedaço de papel rosa pendurado na roupa com a inscrição “Info”. Apesar do sinal, ele diz não ser parte de nenhuma organização e explica que a experiência do acampamento é uma democracia direta: “nós não elegemos líderes para tomar decisões; todo o mundo discute tudo o que precisa ser discutido”. 

“Dizer que esse é um movimento anti-capitalista não está exatamente certo”, afirma, pois alguns não defendem uma transformação radical. Não é o caso de Ben, que acredita que o governo também é parte do problema – “tanto conservadores quanto trabalhistas” –, por manter e incentivar o sistema econômico. “Eu diria que sim, é preciso mudar o sistema político.” Sua proposta é mais democracia, de forma mais direta. “As coisas não podem continuar do jeito que estão. Quando os bancos vão bem, eles ficam com todo o dinheiro. Quando eles vão mal, todas as pessoas pagam.” Mas ressalva que “cada pessoa tem uma razão para estar aqui”. 

De fato. A não muitos passos de Ben, um iraquiano que vive há 10 anos em Londres falava de suas razões para estar na frente da catedral, e elas não eram exatamente iguais às do colega de acampamento. Enquanto o primeiro era contra os bancos e a forma como o mercado financeiro está estruturado, ele afirmava que não é contra nada nem ninguém, apenas quer viver em comunidade e mostrar para as pessoas que isso é possível. “Nós não queremos consertar nada, porque é impossível. Nós queremos uma coisa nova, e uma coisa nova é todo o mundo vivendo bem”, embora não saiba como isso possa ser feito. Ele diz representar os 99% do mundo, em alusão a uma das chamadas do movimento, que opõe a imensa maioria ao 1% que está nos bancos e faz as coisas andarem errado.

Ao mesmo tempo, o inglês Dub, 26 anos, questionava o sentido da vida e as razões da desigualdade no mundo, propondo solidariedade de uma forma bastante genérica, mas ao mesmo tempo muito consciente da importância da internet para fazer o movimento explodir.

O Occupy the London Stock Exchange tem suas raízes no movimento americano, que questiona o mercado financeiro e o sistema econômico mundial. As palavras de ordem e a maioria das manifestações seguem a mesma linha, embora as motivações sejam de fato muito amplas e às vezes desconexas. Os jovens acampados no centro de Londres podem não estar muito seguros do que querem, mas eles sabem que alguma coisa está errada. Se estivessem sozinhos ali, com as mesmas ideias e os mesmos discursos, talvez não chamassem muita atenção. Mas eles fazem parte de um movimento mundial que já não se permite ser ignorado. 

(*) Cris Rodrigues é jornalista, atualmente vivendo em Londres. Edita o blogSomos Andando.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

artur gomes e dizzy ragga


Artur Gomes e Dizzy Ragga
ReVirando a Tropicália
Dias 26 e 27 outubro – 19:00h
Espaço Plural – Sesc Campos
Entrada franca


fulinaimagem

1

por enquanto
vou te amar assim em segredo
como se o sagrado fosse
o maior dos pecados originais
e a minha língua fosse
só furor dos canibais
e essa lua mansa fosse faca
a afiar os verso que ainda não fiz
e as brigas de amor que nunca quis
mesmo quando o projeto
aponta outra direção embaixo do nariz
e é mais concreto
que a argamassa do abstrato

por enquanto
vou te amar assim admirando o teu retrato
pensando a minha idade
e o que trago da cidade
embaixo as solas dos sapatos

2

o que trago embaixo as solas dos sapatos
bagana acesa sobra o cigarro é sarro
dentro do carro
ainda ouço jimmi hendrix quando quero
dancei bolero sampleando rock and roll
pra colher lírios há que se por o pé na lama
a seda pura foto síntese do papel
tem flor de lótus nos bordéis copacabana
procuro um mix da guitarra de santana
com os  espinhos da Rosa de Noel




black billy

ela tinha um jeito gal
fatal – vapor barato
toda vez que me trepava as unhas
como um gato
cantar era seu dom
chegava a dominar a voz
feito cigarra cigana ébria
vomitando doses dos eu cnto
uma vez só subiu ao palco
estrela no hotel das prateleiras
companheira de ratos
na pele de insetos
praticando a luz incerta
no auge do apogeu
a morte não é muito mais
que um plug elétrico
um grito de guitarra uma centelha
logo assim que ela começa
algo se espelha
na carne inicial de quem morreu

arturgomes

terça-feira, 18 de outubro de 2011

visões periféricas



Sobre o Festival 2011


Visões Periféricas – todo mundo tem a sua

O Festival Visões Periféricas comemora cinco anos. Não se trata simplesmente de um evento dedicado a exibição de filmes. O Visões Periféricas nasceu sob o signo das muitas mudanças que o Brasil e o mundo viveram nos últimos 15 anos, transformações econômicas, sociais, estéticas...Está localizado em uma época, um tempo. O audiovisual que vem das periferias brasileiras surge à margem dos circuitos formais da economia, da arte, da comunicação; e cria suas próprias lógicas de circulação cultural.

Um dado Brasil que até então ouvia falar de si como uma abstração, um conceito - ora proclamado pelos intelectuais da academia, ora comunicado pela grande mídia - vai aprendendo a usar a tecnologia para falar de si e para quem quiser ouvir. É um audiovisual muito falado. Isso é perceptível nos filmes que chegam ao Visões Periféricas. E como poderia ser diferente? A tecnologia que permite a produção e difusão audiovisual a custos cada vez mais acessíveis encontra um Brasil que tem forte tradição oral. Esse Brasil está circulando a velocidade dos bytes pelas redes sociais da internet, imprimindo seu próprio jeito ou “jeitos” de comunicar. Falamos em “jeitos” porque não se pode colocar essa periferia dentro de um mesmo saco, sem reconhecer as diferenças entre as regiões, entre suas expressões culturais. Essa não é uma periferia que pode ser confortavelmente reduzida a conceitos econômicos ou sociais uniformizantes.

Ultimamente têm se falado muito da nova classe média brasileira, da ascensão econômica de milhões de brasileiros, do aumento do poder de consumo nas classes C e D, mas não se fala desses milhões de brasileiros enquanto portadores e criadores de estéticas próprias. Essa palavra do grego - aisthésis - entre outros significados possui o sentido de percepção, sensação...estética, como resultado de uma percepção singular do mundo, como um sentimento particular da vida.

Podemos dizer que essa compreensão da estética é que orienta a curadoria de filmes do Visões Periféricas. Hoje o festival possui exibição em sala de cinema e na internet. Não importa se o filme é feito com um celular ou uma câmera digital profissional de última geração. Se ele tem um trabalho de quadro mais contemplativo ou se é feito com uma profusão de depoimentos falados. Importa que nele se perceba uma potência de vida, de criação, e que ofereça uma visão que possa construir junto aos demais filmes da curadoria, novos conceitos sobre a periferia.

Aqui cabe ressaltar um outro aspecto do festival que faz dele um grande laboratório não só estético como social. Nesta edição recebemos cerca de 600 inscrições e pudemos constatar com satisfação que elas vêm de todos os Estados brasileiros e de realizadores com trajetórias de vida as mais diferentes possíveis, inclusive de quem não se encaixaria em uma noção tradicional de periferia, criada a partir de um espaço geográfico ou de uma classe econômica. Esses filmes e seus realizadores também têm presença garantida no festival. A ideia é que a partir do encontro entre todos eles com histórias e origens diferentes se forme uma rede de contatos que ajude a romper os preconceitos sobre a periferia e permita uma circulação permanente de sentido sobre ela. Dos 106 filmes exibidos, 70 são inéditos no Rio de Janeiro. Isso é motivo de orgulho e demonstra a importância que o festival assume no cenário audiovisual brasileiro e carioca.

Não estranhe se você for ao festival e acompanhar em uma mesma sessão o debate de realizadores vindos de uma comunidade indígena, da favela e de um bairro de classe média alta do Rio de Janeiro. É justamente esse estranhamento que buscamos ano após ano, o que nem sempre torna fácil a compreensão do que é o Festival Visões Periféricas. Mas acreditamos que esse é um estranhamento a que estamos cada vez mais sujeitos e, diríamos mais, um estranhamento necessário para que nos percebamos cada vez mais como sujeitos pertencentes a uma comunidade global, cidadãos do mundo.

O Festival Visões Periféricas 2011 (5ª edição) - Audiovisual, Educação e Tecnologias é organizado, desde 2008,  pela Associação Imaginário Digital (www.imaginariodigital.org.br) e irá acontecer de 19 a 26 de outubro no Oi Futuro em Ipanema (Rua Visconde de Pirajá, 54 - metrô Gal. Osório) e no Centro Cultural Justiça Federal (Av. Rio Branco 241 - metrô Cinelândia), na cidade do Rio de Janeiro (RJ). A entrada é franca.

Todos e todas estão convidados!


tô na rua na cidade e na periferia


tô na rua na cidade e na periferia


artur gomes no bric da redenção 
- porto alegre - foto: may pasquetti


o risco


atravessar as portas
ultrapassar janelas
paredes muros cidades
o risco
de te matar
saudade
dentro da boca que quero
de penetrar garganta
laringe esôfago estômago
enquanto
dançamos bolero
sendo um tango
enquanto fado
arrisco
o beijo guardado
num copo de vinho
ou de menta
sabor de pimenta
e alho

e o doce mel da pimenta
enquanto a palavra
entra
pelos teus olhos e abras
teu cais do porto
fechado

arrisco
meus dedos e dados
nos lances mais atrevidos
dos nossos sextos sentidos
por tudo que foi esperado

artur gomes

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Royalties, a síntese impossível

Na iminência de votar a distribuição dos recursos do petróleo, Congresso Nacional está radicalmente dividido. Não se vislumbra possibilidade de conciliação


Leandro Uchoas,
do Rio de Janeiro no Brasil de Fato


Não há acordo, não existe qualquer consenso, nada está garantido. Entre as muitas propostas de distribuição dos royalties do petróleo, nas vésperas de votação no Congresso Nacional, embate entre distintos interesses ganha amplitude sem sinais de solução.




Piloto de produção de petróleo na camada pré-sal no campo Lula,
no Rio de Janeiro - Foto: Divulgação Petrobras
A julgar pela distância entre os propósitos de diferentes grupos, elaborar uma síntese será muito difícil. Os estados e municípios produtores querem conservar o privilégio que têm em relação aos recursos, argumentando que arcam com os danos sociais e ambientais da exploração de petróleo. Os não produtores não cedem um passo na intenção de repartir igualmente o bolo, alegando serem os royaltiesuma riqueza do Brasil. Para o governo federal, representa grande dano político contrariar qualquer dos lados em disputa.
O discurso do senador Valdir Raupp (PMDB-RO), presidente nacional de seu partido, aponta para outra direção. Segundo ele, nos próximos dias os estados e municípios produtores e não produtores encontrariam um denominador comum entre as propostas que defendem. Raupp garante que existe a intenção de conciliar os projetos divergentes durante a reunião semanal da coordenação política do governo. Para o senador, a falta de acordo entre os lados pode levar o processo a ser decidido pela Justiça, uma vez que governadores e parlamentares dos estados produtores já avisaram que não aceitarão a derrota. A discussão deve ser retomada a todo instante nas semanas que se seguem, e pode tomar rumos inesperados. A urgência se deve à necessidade de votação do veto do ano passado nos próximos dias.

Emenda Ibsen
Em dezembro de 2010, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vetou o mecanismo de distribuição de royalties aprovado pelo Congresso. Lula sancionou, na ocasião, a lei 12.351, em que estabelecia a utilização do regime de partilha para a exploração do petróleo na camada do pré-sal.
Governador do Rio, Sérgio Cabral, quer distribuição de royalties
somente entre estados produtores - Foto: Antônio Cruz - ABr
A chamada “Emenda Ibsen”, que visava distribuir os recursos dos royalties entre todos os estados e municípios – e não apenas entre os produtores – foi vetada. O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), afirmou que a presidenta Dilma Rousseff (PT) lhe garantiu recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF) se o Congresso derrubar o veto de Lula. Para o governador, a presidenta é simpática à ideia de que o caso seja motivo de ampla negociação. Dilma estaria trabalhando para que o debate seja adiado.
Em sintonia com quase todos os 49 parlamentares do Rio de Janeiro – 46 deputados federais e três senadores –, Cabral tenta negociar um modelo que não seja tão danoso ao estado, principal produtor do país. Ele também ameaça recorrer ao STF, especialmente se houver indicativo de redivisão dos recursos da produção de petróleo de áreas já licitadas.
Os parlamentares se reuniriam com o governador na segunda-feira, 3 de outubro, para elaborar a estratégia conjunta. A princípio, eles pretendem convencer os estados e municípios não produtores de que a União está ganhando excessivamente com o novo mecanismo de cobranças, e que ela deveria abrir mão de recursos. “Tudo pode acontecer, porque a negociação não está bem azeitada. Para os movimentos, não se pode reduzir a arrecadação dos produtores, a não ser com a entrada do pré-sal”, afirma João Antônio de Moraes, coordenador da Federação Única dos Petroleiros (FUP).
O senador fluminense Lindberg Farias (PT) prometeu apresentar um projeto de lei requisitando que a União ceda aos não produtores os cerca de R$ 3 bilhões oriundos da participação especial das petroleiras. O senador está sendo muito pressionado pelo governo a abdicar de suas posições, o que ele atribui à ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti. “Apoio o governo Dilma com empenho, mas minha função é defender o meu estado”, afirmou.
Lindberg também critica o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), pela maneira como está conduzindo o debate. Apenas dois parlamentares do Rio não estão em sintonia com a articulação: Brizola Neto (PDT) e Edson Santos (PT). Eles não concordam com a proposta da bancada fluminense de demandar das petroleiras o pagamento de tributos de forma a complementar os R$ 8 bilhões que os estados e municípios não produtores reivindicam. Consideram que a atitude oneraria por demais a Petrobras.

Aniversário da Petrobras
O dia 3 de outubro também marca o aniversário da estatal, que seria comemorado de forma especial pelos trabalhadores (após o fechamento desta matéria). Eles se reuniriam em frente à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), que se tornou conhecida com a “Praça Tahrir carioca”, em referência ao centro geográfico da resistência egípcia nas revoltas do primeiro semestre.
De lá, caminhariam até a sede da Petrobrás, onde repartiriam um bolo em homenagem à empresa. A intenção é chamar a atenção para as reivindicações dos trabalhadores, um tanto distantes do debate que tem tomado lugar no Congresso Nacional.
Segundo os petroleiros, trata-se de um protesto “contra a privatização dos serviços públicos e a entrega do petróleo a testas de ferro nacionais e a oligopólios internacionais.” A oposição aos leilões também está no centro dos protestos.
De acordo com um dos diretores do Sindicato dos Petroleiros (Sindpetro), Emanuel Cancela, em entrevista à Agência Petroleira de Notícias, “176 empresários americanos, ligados à área de petróleo e gás, estão vindo ao Brasil, fora os chineses. ‘Não existe almoço de graça’. Essa turma está vindo ao Brasil de olho no pré-sal e nós estaremos na rua gritando que esse Petróleo Tem Que Ser Nosso!”.
Caravanas de diversos estados viriam ao Rio de Janeiro para participar da manifestação. Haveria, também, uma manifestação teatral e o lançamento de um livro de cordel sobre a luta por uma Petrobras 100% estatal. O movimento estudantil e outras categorias em processo de mobilização, como os bombeiros e os profissionais de saúde e educação, anunciaram a adesão ao protesto, assim como alguns parlamentares das três esferas de poder.

Mobilização por direitos
Aproximadamente 300 trabalhadores da empresa Worktime – terceirizados da Petrobras – fizeram greve de dois dias (19 e 20 de setembro). Nos atos, utilizando nariz de palhaço, e chamando a estatal de “caloteira”, reivindicaram o cumprimento de legislação trabalhista e o pagamento de rescisão contratual.
Quando ocorreu o fim do contrato entre as duas empresas, a Worktime convocou seus funcionários. Na ocasião, ameaçou não recontratar aqueles que não pedissem demissão – o que a livraria da obrigação de pagar determinados direitos trabalhistas, como os 40% do FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço).
Entre as reivindicações dos petroleiros está o Fundo Garantidor, que inviabilizaria o não pagamento por parte da empresa quando do vencimento dos contratos. Também se lembrou da necessidade de fortalecer o respeito à vida dos trabalhadores.
Uma sequência de trabalhadores da Petrobras tem morrido em acidentes de trabalho, sem que a empresa tome medidas mais fi rmes no sentido de garantir segurança aos empregados e funcionários terceirizados. A Federação Única dos Petroleiros (FUP) tem lembrado, de forma recorrente, a necessidade de se ampliar as medidas de segurança por parte da Petrobras. Investimento em segurança no trabalho exige aporte de recursos quase insignificante para empresas desse tamanho.
Na madrugada de domingo, 18 de setembro, mais um trabalhador perdeu a vida durante o trabalho, em uma unidade da estatal. O ofi cial de náutica da Transpetro, Rosynaldo Marques, faleceu durante incêndio no navio Diva, no Rio de Janeiro. Já é o 15º acidente neste ano, e o segundo apenas no mês de setembro. Desde 1995, foram 309 trabalhadores mortos – quase 20 por ano. A FUP também realizou um ato nacional pela vida no dia 21. A ideia é manter a mobilização em torno da bandeira enquanto a Petrobras não anunciar um plano de ampliação das condições de segurança para seus trabalhadores. A empresa não deu esclarecimentos considerados sufi cientes sobre a morte de Rosynaldo.

A marcha dos insensatos

A Amazônia é a maior fonte de vapor continental do planeta, produzindo 7 trilhões de toneladas de vapor por ano. Grande parte da chuva que cai na América do Sul tem origem na floresta. Segundo o físico Paulo Artaxo, do Laboratório de Física Atmosférica da USP, quando o desmatamento atingir 20% da floresta, ela pode entrar em regressão. Sem floresta e sem umidade, as chuvas diminuirão. Parece claro. Porém, a visão mais comum no agronegócio brasileiro é a floresta como um inferno verde, que não produz nada. A marcha dos insensatos segue em marcha acelerada. 
É uma marcha acelerada e envolve a produção de comida no planeta. O Brasil como um dos batedores, líder no agronegócio, com destaques para produção de soja e carnes, além de cana-de-açúcar (etanol). Um mercado que gerou US$88,3 bilhões de agosto de 2010 a agosto de 2011. Somente nos oito meses deste ano, foram US$61,5 bilhões, em exportações. O agronegócio é 40% do PIB se pegarmos todas as cadeias produtivas reunidas, enfim, vale mais que US$1 trilhão. E conta com uma bancada no Congresso Nacional poderosa. O mundo precisa de alimentos, muito embora quase a metade da produção de grãos brasileira – 148 milhões de toneladas no ano passado – seja de soja, a leguminosa mais influente do Planeta, de origem chinesa e que se espalhou pelo Brasil, a partir da região Sul, na década de 1970, e hoje se alastra pela Amazônia, tomando o sul do Amazonas.

Em termos mundiais o óleo de soja perde para o dendê (óleo de palma), 40 milhões de toneladas contra 45 milhões. O dendê é a soja da Ásia. Assim como o Brasil planta quase 25 milhões de hectares, a Indonésia planta 6 milhões de hectares de dendê, com projeto de chegar aos 20 milhões até 2020. Mesmo ano que a Índia espera ter 14 milhões de hectares de pinhão manso. Todos os três entram na composição de combustíveis vegetais. 

Enormes pressões
O biodiesel brasileiro é produzido com soja (80 %), em segundo lugar, com sebo bovino, que teve seu preço completamente alterado no mercado do boi, em função desse aproveitamento. São negócios paralelos, cada vez mais reforçam o poder da leguminosa. Seu subproduto mais conhecido é o farelo, usado na ração de aves e suínos, criados no sistema industrial, confinados, com produção intensiva – ciclos de 40 a 180 dias. Os chineses, em 2010, compraram 30 milhões de toneladas em grão do Brasil – 15% da exportação.

A China cresceu, trouxe trabalhadores do campo para a cidade, a renda se elevou, e o consumo de carnes deu um salto. Em 1980, o consumo médio era de 13,7kg, em 2005 foi de 59,5kg, a maior parte de carne suína, embora os chineses tenham importado recentemente 400 mil toneladas de carne de boi. Entretanto, a média mundial também subiu: de 30 kg para 41,2kg, no mesmo período, segundo os dados da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação).

A produção de carne mundial atingiu 228 milhões de toneladas em 2010. A previsão para 2050 é que duplique – 463 milhões de toneladas, com uma população de 9 bilhões de habitantes. Isso significa que o rebanho bovino crescerá de 1,5 bilhão para 2,6 bilhões de cabeças e o de ovinos e caprinos de 1,7 para 2,7 bilhões de cabeças. A FAO também divulgou um relatório sobre os impactos da pecuária sobre os ecossistemas do Planeta:

- Haverá enormes pressões sobre a saúde dos ecossistemas, a biodiversidade, os recursos em terras e florestas e na qualidade das águas. Os governos devem adotar medidas para reduzir o custo ambiental da expansão da pecuária... Os preços atuais das terras, da água e dos alimentos usados na produção de carne não refletem o verdadeiro valor destes recursos.

Rumo norte
Além disso, 18% dos gases estufa, principalmente o metano (CH4), liberado pelos animais no processo de digestão, serão originários da pecuária. O índice foi considerado exagerado pelas entidades setoriais do agronegócio e provocou um reboliço, na tentativa de contestar os dados. 

Na realidade, o economista inglês, Nicholas Stern, elaborou um relatório sobre a situação do Planeta comparando os vários setores da economia e projetando os impactos sobre os sistemas naturais, atribuiu o índice de 30% sobre a agropecuária, como resultado do crescimento até 2030. O problema é simples: ocupar espaço, derrubar floresta, mudar a condição do solo, usar adubos nitrogenados (todo o modelo agrícola está baseado no tripé Nitrogênio, Fósforo e Potássio, de origem química), implantando monoculturas e grandes criações.

Trata-se literalmente da marcha para o oeste que no meio do caminho pegou o rumo do Norte, simplesmente porque não há mais o que ocupar no oeste. A cana tomou o espaço da pecuária em São Paulo, e os rebanhos foram subindo em direção ao cerrado. Hoje, existem 70 milhões de cabeças nos três estados do Centro-Oeste, somente nos dois Mato Grosso, são mais de 50 milhões. A partir daí, os rebanhos entraram floresta adentro. O Pará em 10 anos, mais que dobrou o rebanho de 6 para 12,8 milhões (segundo dados do censo agropecuário realizado pelo IBGE em 2006). O número já deve ser muito maior. Aqui cabe uma explicação. O Brasil até a década de 1960 tinha um rebanho inexpressivo para o tamanho do país, com exceção do Rio Grande do Sul, onde o gado europeu estava bem adaptado.

Maior invasão
A grande mudança na pecuária brasileira também começou na década de 1960, quando um grupo de criadores do Triângulo Mineiro (Uberaba) foram à Índia, atrás de reprodutores zebuínos. Trouxeram várias raças, mas a que mais evoluiu foi a Nelore, de Masdra, sul da Índia. Entraram oficialmente até 1962, quando as importações foram proibidas, menos de 10 mil reprodutores. Porém, os zebuínos suportam o calor dos trópicos. São capazes de parir todos os anos, alguns tem uma vida reprodutiva acima de 20 anos. A segunda parte desta história está ligada a disseminação das braquiárias, um capim com muitas variedades, que tomou conta do cerrado e cresce onde ninguém consegue sobreviver. Elas vieram da África. Foram melhoradas pela Embrapa e fechou-se o motor do salto no rebanho, que atualmente beira os 200 milhões de cabeças.

Na década de 1980, os pesquisadores conseguiram dar um jeito na acidez das terras do cerrado, que não valiam nem o preço do reduzido imposto que se pagava na época. Corrigiram com calcário, estabeleceram proporções razoáveis de NPK, mais a adaptação da semente da soja ao novo clima e o cerrado foi palco da maior invasão, depois do meio-oeste dos Estados Unidos.

Sulistas, principalmente gaúchos (20% da população do MS), mas também catarinenses e paranaenses, como Blairo e Eraí Maggi (primo) considerados os reis da soja. O último com 70 fazendas no Mato Grosso, transformado em maior produtor do país – 6 milhões de hectares, sendo 20%, ou 1,2 milhão ocupado pelos 20 maiores sojicultores. Nos últimos anos a concentração de terras e grandes plantadores se acentuou. Na região de Sapezal, onde o pai de Blairo Maggi, André Maggi (já falecido), construiu uma cidade, a média de propriedades é de 2.500 hectares. Em Sorriso, com 615 mil hectares de soja, onde recentemente foram divulgados amostras de agrotóxico em leite materno, a média é de 1 mil hectares. O Paraná ainda é o maior produtor de grãos do país, soma acima de 30 milhões de toneladas, principalmente, soja, milho e trigo. O Brasil consome 10 milhões de toneladas de trigo, produz 5 milhões e compra de fora, outros cinco. Nunca foi prioridade nacional ser autossuficiente em farinha.

Livrar a Amazônia
As pesquisas oficiais apontam para uma perda de Cerrado de 1,1% ao ano, desde a saga do oeste. A região sempre foi desprotegida pelo tipo de vegetação que apresenta, pequenas árvores, arbustos, retorcidos, consequência do alumínio, que está presente no solo, ajudou a formar o conceito de terra sem valor. Na verdade é um ambiente rico em espécies medicinais, mas que tem apenas 2,2% das unidades de conservação do país. E, fundamentalmente, é o local onde nascem os rios mais importantes do Pantanal, e por onde passa o São Francisco. 

Na divisa do Mato Grosso do Sul com Mato Grosso, o rio Taquari deu um sinal de alerta, pouco reconhecido. Acima está a região de Rondonópolis, onde o Grupo Amaggi, responsável pela industrialização de 2,4 milhões de toneladas de soja, montou o seu império. As lavouras implantadas na década de 1980 não deixavam reserva nativa, nem os 20% obrigatório por lei. Resultado: areia, adubo, agrotóxico, tudo para o rio. No caso do Taquari o assoreamento tirou o rio do leito natural e ele espraiou pelo Pantanal de Coxim, invadindo fazendas tradicionais. Virou um alagado permanente.

Nessa mesma época, muitos pesquisadores agrícolas e especialistas em solos, como Mário Ferri, de São Paulo, imaginavam que era preferível ocupar o cerrado, e livrar a Amazônia da invasão da agricultura e da pecuária. A partir da década de 1990, as fronteiras foram rompidas. Pelo censo do IBGE de 2006, as áreas de lavoura na região norte, sem contar Amapá e Tocantins, somavam mais de 10 milhões de hectares. O Amazonas em 1996 tinha 235 mil hectares plantados, em 2006 eram mais de 2,3 milhões. No Pará, pulou de 808 mil para 3,2 milhões de hectares.

Se contarmos o norte do Mato Grosso e o oeste do Maranhã, regiões enquadradas na Amazônia, são mais de 40 milhões de hectares de pastagens, dos 157 milhões no Brasil. A região Norte tem um rebanho de 40 milhões de cabeças, quase 20% do rebanho nacional. Já ultrapassou o abate de 10 milhões de cabeças ao ano. Parte dessa carne é consumida em São Paulo. O Acre tem quase 2 milhões de cabeças. A maioria absoluta de Nelore ou animais cruzados (mistos). Não é à toa que o Brasil é o maior exportador de carne bovina do mundo, com mais de 1 milhão de toneladas, e ainda tem um consumo médio acima de 30 kg por habitante.

Gente de peso
A última fronteira de ocupação chama-se Mapito, sigla que envolve as regiões sul do Maranhã e Piauí e norte do Tocantins. São 3,3 milhões de hectares de soja e um pouco de milho e algodão. Ali perto, mais abaixo no mapa, mas também ganhando espaço, a região do oeste baiano, concentrada em Barreiras, Luis Eduardo Magalhães e São Desidério, com mais de 500 mil hectares de lavouras de soja. Região do aquífero Urucuia (vai do Piauí até o noroeste de Minas), e por isso mesmo, região com lavouras irrigadas por pivô central, capaz de cobrir uma área de 120 hectares, apenas com um equipamento. E os líderes e prefeitos anunciam que existem mais 3 milhões de hectares para ocupar.

E atrai mesmo. Gente de peso. Fundos privados, fundos de pensão estrangeiros, fundos de risco. A começar pelos grandes conglomerados nacionais. A Cosan, agora unida a Schell na Raízen, tem uma empresa especializada na compra de terras - a Radar. Este ano, a previsão da Radar era investir US$850 milhões e adquirir 60 fazendas. Eles já compraram 180 fazendas nos estados do centro-oeste, Tocantins, Maranhão e oeste da Bahia. A meta são 350 mil hectares, Compram, plantam ou arrendam. Em dois anos conseguiram uma valorização de 50% nos preços. Um detalhe: a Radar é controlada pela Cosan, que detém 18,9% do capital, o restante é de fundos de pensão dos Estados Unidos.

A SLC, que já foi fabricante de colheitadeiras (vendeu para a John Deer), possui 250 mil hectares, é uma das maiores produtoras de soja do país. Criou a Land & Co, especializada na com pra de terras, captando dinheiro no exterior de fundos interessados. O projeto era recolher US$300 milhões. Mas o governo federal baixou uma medida limitando a área de terras que estrangeiros podem adquirir – no máximo 5% do perímetro de um município.

A serpente nasce pequena
A previsão da Radar, por exemplo, é que o comércio de commodities está em franca expansão, porque em 2020 a soja deverá ocupar 29 milhões de hectares (acréscimo de 5 milhões) e a cana dobrar sua área de plantio – de 7 para 14 milhões de hectares. Nessa onda globalizada a Nai Commercial Properties, uma multinacional do ramo imobiliário, montou sede no Brasil. Em 2010, intermediou 30 negócios envolvendo grandes áreas, acima de 10 mil hectares. A maior delas na região de Pedro Afonso (TO), de 40 mil hectares, onde a Bunge inaugurou recentemente uma usina de etanol. A um custo de R$6 mil, uma venda de R$240 milhões.

A OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), divulgou um relatório que no ano passado US$ 14 bilhões foram usados na compra de terras. Lógico que os preços subiram. No oeste baiano, o que era R$5 mil/ha, agora custa R$10 mil. A Nai, a múlti imobiliária diz que tem 200 fundos privados estrangeiros interessados na compra de terras no Brasil. Estão cadastrados.

Um fenômeno também global. Compram-se terras na África, a preço de banana, US$1,5 o hectare. Ou arrendam-se a US$12 , como a empresa Addax, suíça, fez no ano passado, pretende produzir cana-de-açúcar em Serra Leoa, país com 6 milhões de habitantes, onde até pouco tempo a guerra impunha a realidade. Os indianos querem investir US$2,5 bilhões em lavouras de palma, arroz e milho na Etiópia, Tanzânia e Uganda. A FAO informa que os estrangeiros compraram entre 50 e 800 milhões de hectares na África e América do Sul. A Coreia do Sul tem 700 mi hectares no Sudão e a Arábia Saudita 500 mil hectares na Tanzânia.

O Grupo Pinesso, com 80 mil hectares de soja e algodão no Mao Grosso, começou uma experiência de 100 hectares de algodão no Sudão, na zona de influência do rio Nilo. Mas pretende implantar 100 mil hectares. As primeiras informações são positivas, ao invés de 18 aplicações de agrotóxicos, lá são necessárias 3 ou 4.

“A serpente nasce pequena”, como diz José Grazziano da Silva, diretor da FAO, recém-eleito. Perto dos 655 milhões de hectares de lavouras no Planeta a investida de estrangeiros em terras africanas, ou americanas pode ser pequena. Entretanto, a tendência é preocupante, porque os que chegam sempre estão com a razão, e normalmente esquecem os ocupantes, muitas vezes, os verdadeiros proprietários – índios e comunidades nativas, enfim, o povo do lugar.

Aqui pertinho temos o caso uruguaio. País pequeno, mais de 6 milhões de hectares comprados por estrangeiros, grande maioria brasileiros e argentinos. Depois transformado em polo produtor de celulose, com imensas plantações de eucalipto. Os pequenos produtores do interior sumiram, ou estão estrangulados.

Mágica é química
O Brasil também tem o outro lado do ofuscante e poderoso agronegócio. A população rural do país diminuiu de 24% para 16,7% entre 1991 e 2006. O número de empregos no setor rural caiu de 23,395 milhões em 1985 para 16,568 milhões em 2006. O número de pequenas propriedades, quer dizer, a área ocupada por elas, diminuiu de 9,987 milhões de hectares para 7,799 milhões de hectares. Ou seja, quase 2 milhões de hectares a menos, o equivalente a 200 mil propriedades em torno de 10 hectares. Que sumiram do mapa. As com mais de 1 mil hectares somam 146,5 milhões.

Até 2050, o aumento na produção de grãos previsto é de 70%, nesse padrão atual. Vai passar de 2,234 bilhões de toneladas para 3,570 bilhões. A maior produção é de milho, 878 milhões nos números do Departamento de Agricultura dos EUA, seguido por trigo 676 milhões e arroz 449 milhões de toneladas. A humanidade tem sua alimentação básica, em mais da metade dos atuais 7 bilhões de habitantes, nestes três grãozinhos. Das 7 mil plantas domesticadas pela espécie humana, somente três se tornaram as mais consumidas. Somando os 276 milhões de toneladas de soja, que se traduzem em alguns milhões de toneladas de carne (boi, galinha e porcos), está fechado o quadro da alimentação humana no Planeta.

Claro que para chegar a tal ponto de produtividade e expansão, tem um segredo muito bem conhecido, pouco divulgado e analisado: os químicos responsáveis pelo crescimento das plantas, pelo combate aos insetos e as “ervas daninhas”, digamos, as invasoras da propriedade alheia. O Brasil é o campeão, bateu os Estados Unidos este ano, vai gastar US$8 bilhões de dólares em herbicidas, inseticidas, fungicidas, acaricidas, ou seja, agrotóxicos. Para quem gosta de transparência: venenos.

Antigamente o símbolo das embalagens desses produtos era uma caveira no meio de dois ossos, para ficar bem claro o perigo que representam. Na era moderna, onde a civilização eletrônica e extremamente informada, as embalagens são coloridas, de plástico, e muitas vezes confundidas com refrigerantes, quando o líquido escuro é diluído, no caso das verduras e dos legumes. A vida é moderna, mas os venenos são obrigatórios. No caso do Brasil a quantidade oficial passa de 1 milhão de toneladas. O contrabando faz parte, como confirmam as apreensões do primeiro semestre de 2011 (20 toneladas). O Sindicato da Indústria de Defensivos Agrícolas (Sindag), divulga a falsificação e o consequente contrabando em 9% do volume usado. O Sindicato dos Auditores da Receita Federal, considera que 30% dos produtos usados no Brasil não tem origem conhecida. No ano passado foram 230 mil toneladas importadas, 20% da China e 20% da Argentina. O problema não são somente as falsificações, mas produtos banidos, como DDT, o mais conhecido dos organoclorados, continuam sendo usados.

Pássaros não voltam
As descobertas, em 1938, pelo cientista Paul Muller do DDT revelam uma ironia trágica. Na época, era usado até para combater traças na roupa de casa. Era algo milagroso. Em 1948, o cientista ganhou o Prêmio Nobel de Medicina. Calcula-se que 3 milhões de toneladas de DDT tenham sido produzidas até a década de 1970, quando foi proibido nos Estados Unidos. Na Amazônia e em outras regiões tropicais continua sendo empregado no combate ao mosquito da malária. Funcionários da Sucam (Superintendência de Combate a Malária), ainda lutam na justiça para receber indenização pela contaminação. 

O mesmo não aconteceu com os milhares de vietnamitas – entre 650 mil e 4 milhões- da Federação Vietnamita das Vítimas do Agente Laranja, também conhecido como 2,4-D, despejado nas florestas do país, durante a guerra na década de 1960. Os tribunais americanos não reconheceram os direitos dos vietnamitas, mas a indústria química pagou US$180 milhões de indenizações a 15 mil veteranos do exército dos Estados Unidos. O 2,4-D continua sendo usado como desfolhante, para matar plantas. Seu nome é decorrente da cor dos tambores, que identificavam o produto e a empresa fabricante, quando chegava ao front.

Em 1962, uma cientista americana, Raquel Carson, denunciou pela primeira vez as consequências da contaminação de agentes químicos em seres humanos e na vida natural. O livro “Primavera Silenciosa” foi lançado no Brasil em 1964, logo expurgado. O título traduz uma situação real. Numa determinada primavera os pássaros migratórios não voltaram. É como se a primavera no Brasil iniciasse sem o canto do sabiá laranjeira (do papo laranja). No caso dos Estados Unidos foram os papos-roxos, que costumavam procurar minhocas no solo, junto aos Olmos, árvore típica do país, que tinham sido tratados com DDT, contra ataque de insetos. Os pássaros comeram minhocas envenenadas e morreram.

Sobre contaminação de químicos, no mundo de hoje, é absolutamente impossível fazer qualquer comparativo. Porque todos os seres vivos do Planeta tem algum tipo de contaminação. Não se pode comparar, ter uma testemunha referência, que esteja imune.

O DDT já foi encontrado no leite de ursas na maternidade do Svalbart, um arquipélago perto do Ártico, pertencente à Noruega – maternidade onde muitos ursos procriam. As moléculas desses venenos organoclorados ou fosforados grudam na gordura, qualquer tipo de gordura. E o efeito vai se acumulando. Pode durar décadas. Outros evaporam, após seis horas de aplicação. As moléculas viajam por quilômetros, até encontrar um ponto de fixação, que pode ser um animal, um vegetal, ou simplesmente, um córrego.

Campeão de agrotóxicos
No Brasil, por uma questão óbvia, é a soja que mais usa agrotóxicos: 44%, seguido pelo algodão (11%), cana (9%) e o milho (8%). As quantidades na safra 2009-2010 foram: 530 mil toneladas para soja (23,2 milhões de hectares), 143,7 mil toneladas nas lavouras de milho, 70,9 mil na cana e 69,6 mil no algodão, os dois últimos com áreas menores.

Os agrotóxicos mais vendidos são herbicidas, usados no combate as plantas invasoras. Foram 632,2 mil toneladas, com faturamento de R$2,5 bilhões. Em segundo lugar, os inseticidas com faturamento de R$1,9 bilhão e os fungicidas com receita de R$1,7 bilhão. Todos os dados são do Sindag. Aqui cabe outra explicação.

Na década de 1990, a indústria química começou a comprar as empresas produtoras de sementes. Foi nesta época que iniciaram os experimentos com os transgênicos, já ao nível comercial. A Monsanto, que domina o mercado de transgênicos no mundo, iniciou este movimento. A razão é muito simples: planta transgênica reage com o químico, no caso o herbicida, da mesma empresa. A planta é imune ao veneno. Em 1999, num congresso mundial da Monsanto, os executivos da empresa previam quem em 15, 20 anos, todas as sementes seriam transgênicas.

Em parte, as previsões se confirmaram. No caso da soja, a maior parte da produção é transgênica, principalmente nos Estados Unidos (83 milhões de toneladas), na Argentina (produção de 55 milhões de toneladas), e no Brasil a maior parte aderiu. O sojicultor compra a semente e o químico correspondente. As empresas usam como argumento a queda no número de agrotóxicos utilizados nas lavouras. Porém, cresceu na mesma intensidade, o volume de herbicidas. No caso do Brasil, houve aumento no uso de fungicidas, consequência da ferrugem asiática, um fungo que ataca as lavouras.

O que interessa mesmo é o seguinte: o Brasil é o campeão no uso de agrotóxicos no mundo. Os Estados Unidos que tem uma área de 64 milhões de hectares com lavouras de soja e milho, principalmente, registraram queda de 4,8% no volume de agrotóxicos, entre 1998 e 2007, segundo a Agência Ambiental (EPA). Ou seja, tem 50% mais de área, além disso, produzem mais que o dobro. Com destaque para o milho: a previsão é de 378 milhões de toneladas na próxima safra ( 40% para produção de etanol) . Aliás, os Estados Unidos representam 55% do comércio mundial de milho, 44% da soja, 41% do algodão e 28% do trigo.

Em relação ao trigo existem mudanças, porque se formou um corredor de exportação no Mar Negro, e envolve a Rússia (26 milhões de hectares), Ucrânia (10,7 milhões) e o Cazaquistão (14 milhões de hectares). Outros países do leste europeu também ampliaram suas áreas de plantio, assim como alguns africanos, como a Nigéria (7,5 milhões de hectares).

As empresas também rebatem que nos trópicos tem mais pragas. Deve ser isso. Dos 1,4 mil produtos registrados no Brasil como agrotóxicos, somente 21 são biológicos. As práticas de combate biológico, usando estratégias como dos feromônios, orientadores sexuais, ou, insetos que combatem outros, considerados pragas em lavouras – como a broca da cana -, já são usados largamente, mesmo no Brasil. Não é por outra razão que os plantios de orgânicos crescem intensamente pelo Planeta, e alguns organismos internacionais relatam que é um mercado de US$34 bilhões. Os estadunidenses são os maiores compradores, de países da Europa, particularmente, da Espanha.

Proibido na Europa
Agora, uma declaração ao jornal Valor Econômico, recentemente, do diretor geral da Syngenta, a maior fabricante de agrotóxicos do mundo (franco-suíça):

- "O objetivo é sermos capazes de dizer ao produtor qual combinação de semente e defensivo em sua condição específica vai entregar os melhores resultados”, disse Laércio Giampani, diretor no Brasil, no dia do evento em Minnesota (EUA), que formalizava a união da unidade de sementes com a unidade de “Proteção de Cultivo”, um mercado calculado pela multinacional em US$70 bilhões no mundo. O mais significativo do evento foram as previsões: em 2025, o mercado mundial será US$200 bilhões, quando a Syngenta deverá faturar US$17 bilhões. Em 2010, a empresa faturou US$8,8 bilhões com a venda de agrotóxicos e US$2,8 bilhões com sementes. No Brasil, o faturamento foi de US$1,8 bi. A Syngenta é a terceira na venda de sementes transgênicas, mercado liderado pela Monsanto. Em 2008, a Monsanto tinha 647 patentes sobre plantas transgênicas. E tem uma equipe muito grande de advogados especializados em cobranças judiciais, pelo uso das sementes e não pagamento de royalties.

Em 2014, a União Europeia já anunciou que vai barrar a maioria dos agrotóxicos usados em lavouras no Brasil. Dos 1.111 produtos analisados, serão permitidos 215. O Sindag, através de seus representantes, calcula que os 49 inseticidas utilizados pelos produtores brasileiros, 36 serão barrados. No Brasil o endossulfam, segundo inseticida mais usado em lavouras, incluindo café, cacau, foi proibido na Europa em 2005. A Parationa Metilíca, um organofosforado, um dos quatro mais usados em plantações de arroz, milho, alho, batata, feijão, foi proibido na Europa em 2003. O Metamidofós, muito empregado nas lavouras de verduras e legumes (tomate), vai ser proibido no Brasil, a partir de 2012. Já foi banido na década passado nos países desenvolvidos. 

Boi, soja e eucalipto
A previsão do Banco Mundial é de alta de 20% dos alimentos até 2018. Os índices de commodities, que os investidores internacionais usam para aplicar no mercado futuro, registraram este ano US$410 bilhões, inclui os metais. Mas US$60 bilhões, foram quantificados como acréscimo no último ano nas mercadorias agrícolas, com preços internacionais, como soja, açúcar, café, trigo, milho, arroz, todos com preço acima, em relação a 2007, período pré-crise financeira. Quer dizer, a comida virou alvo da especulação financeira mundial.

Os ingredientes da Marcha dos Insensatos se encaixam como um jogo de cartas marcadas, cujo final ainda é desconhecido. No entanto, sabe-se o que os resultados podem proporcionar. Além das lavouras de exportação temos que considerar a expansão do eucalipto, não somente como matéria-prima da celulose, como cavacos para produzir energia, ou carvão nos fornos das siderúrgicas. Um exemplo prático. O “Plano 2024” da Suzano Papel e Celulose, prevê uma fábrica de celulose no Maranhã em 2013 e outra no Piauí em 2014, fora outras metas para a Suzano Energia Renovável, tudo para comemorar os 100 anos da empresa. Em Três Lagoas (MS), na divisa com Andradina (SP), a família Batista, dona do JBS, maior produtora de carne do mundo (30,4% de participação do BNDES), está construindo a Eldorado Brasil, outra fábrica de celulose. O sócio (25%) é o advogado Mário Celso Lopez, conhecido como vendedor e comprador de terras no cerrado. Declarou que já vendeu 1 milhão de hectares no Mato Grosso e 500 mil hectares no MS. Tem um confinamento de bois em Andradina, até recentemente, com capacidade para 50 mil cabeças. A Eldorado Brasil está para se fundir com uma empresa florestal, onde participam os mesmos sócios, além dos fundos Petros, Previ e Funcef. Objetivo envolve o plantio de 250 mil hectares de eucalipto nos dois estados. 

Três Lagoas virou um polo industrial de celulose, conta com a International Paper na área de papel, e a Fibria, com fábrica produzindo mais de 1 milhão de toneladas/ano e que será duplicada – Fibria, resultado da união da Votorantim Celulose e Aracruz. Portanto temos um tripé: boi, soja e eucalipto se expandindo no cerrado e entrando na Amazônia. A cana corre por fora. A Marcha dos Insensatos segue o rumo norte.

Insensatos ou dementes
Em 1999, um grupo de cientistas de todas as áreas se reuniu em Macapá, para fazer um profundo diagnóstico sobre a Amazônia. O resultado é um livro, completamente documentado sobre espécies, clima, áreas diferenciadas. O que chama a atenção é a quantidade de vapor que a floresta amazônica produz: 7 trilhões de toneladas por ano. Grande parte da chuva que cai na América do Sul tem origem na floresta. Ela é a maior fonte de vapor continental do Planeta, conforme as informações do físico Paulo Artaxo, do Laboratório de Física Atmosférica da USP. Ele tem relatado constantemente um evento que poderá ocorrer com a floresta, quando ela atingir 20% de desmatamento. Trata-se do ponto de equilíbrio, a partir de tal marco, a floresta entra em regressão. Um número que está em discussão. De qualquer maneira o número oficial do desmatamento da Amazônia é de 18% da área total. 

Como a maior fonte de vapor é óbvio que a Amazônia é um dos componentes do clima mundial. Ou seja, se a Marcha dos Insensatos seguir em frente, atingiremos o ponto de regressão. Mais cedo do que se esperava. Sem floresta e sem umidade, as chuvas diminuirão. Parece claro. Porém, a visão mais comum no agronegócio brasileiro é a floresta como um inferno verde, não produz nada. É por isso, que no início, defini esta marcha – acompanhada por mim nos últimos 20 anos, 13 deles morando em Campo Grande (MS) - como dos Insensatos. Podem ser indivíduos sem senso, por consequência, falta de juízo. Ou, também existe, uma segunda definição no dicionário – demente. Na verdade, com o andar da Marcha, saberemos se ela será dos Insensatos ou dos Dementes.


Fotos: Greenpeace 

CAMPOS DOS GOYTACAZES

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