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terça-feira, 3 de abril de 2012

Macarena Gelman: “Não há Justiça sem Verdade”

Seus pais biológicos foram sequestrados em Buenos Aires, em 1976, em uma ação da Operação Condor, e assassinados. Ela foi colocada na porta da casa de um policial uruguaio e só descobriu sua verdadeira história 23 anos mais tarde, graças à busca incansável do avô, Juan Gelman. Em entrevista à Carta Maior, Macarena Gelman fala sobre o sentido de sua busca pela verdade e pela justiça e sobre a importância fundamental de ter acesso à informação para dissolver o véu de desinformação tecido pelas ditaduras.


Porto Alegre - Verdade e justiça são palavras que passaram a frequentar muito concretamente o cotidiano da jovem Macarena Gelman. Ela teve seus pais biológicos sequestrados em Buenos Aires em agosto de 1976, numa ação da Operação Condor da qual participaram agentes das ditaduras uruguaia e argentina. Marcelo, filho do poeta argentino Juan Gelman, foi o primeiro a ser assassinado. Maria Claudia, grávida de oito meses, foi levada para Montevidéu, onde teve Macarena e, logo em seguida, também foi morta. 

Seu corpo até hoje está desaparecido. Macarena foi colocada na porta da casa de um policial uruguaio. Ela só descobriria a verdade 23 anos mais tarde, quando descobriu sua verdadeira identidade, graças a uma investigação conduzida pelo avô. De lá para cá, ela dedica a vida a descobrir os restos da mãe para poder enterrá-la e a buscar a verdade e a justiça, duas palavras que, para ela, são inseparáveis.

Macarena Gelman esteve em Porto Alegre no dia 30 de março, participando do 5º Encontro Latinoamericano Memória, Verdade e Justiça. Ela participou de uma mesa que apresentou o caso Gelman e o caso Araguaia, que resultaram em condenações para os estados uruguaio e brasileiro pela não investigação do destino de desaparecidos. O painel debateu o conteúdo e as consequências das sentenças da Corte Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA), autora das condenações.

No dia 21 de março deste ano, o Estado uruguaio cumpriu dois pontos da sentença: a colocação de uma placa no local Maria Claudia ficou presa e onde passou seus últimos momentos com Macarena; e o reconhecimento pelo Estado uruguaio, na figura do presidente da República, Juan Pepe Mujica, dos crimes ocorridos durante a ditadura. Não chegou a ser um pedido de perdão. E Macarena fez questão de dizer que nunca pediu nem pedirá isso ao Estado uruguaio. “Se um dia o Estado quiser pedir perdão poderá fazê-lo”. 

Em entrevista à Carta Maior, Macarena Gelman, falou sobre o sentido de sua busca pela verdade e pela justiça. “Uma das coisas que aprendi nesse processo é que não é possível a verdade sem a justiça e nem a justiça sem a verdade”. Para ela, uma das grandes condições para ter êxito nessa busca é ter o acesso a informações verdadeiras sobre tudo o que aconteceu. “Muita gente diz que já se falou muito sobre esse tema. Na verdade, não se falou nada, porque o que foi dito, muitas vezes, não era a verdade. É precisamente por isso que os agentes da ditadura se encarregavam, entre outras coisas, de mesclar as informações com elementos confusos e muitas vezes falsos”. Abrir todos os arquivos daquele período, coordenar esforços nos países que foram vítimas de ditaduras e compartilhar informações: essas são algumas das tarefas apontadas por Macarena para dissolver o véu de desinformação tecido pelas ditaduras e seus agentes, até hoje.

Carta MaiorNa intervenção que fez no seminário, na Assembleia Legislativa, você estabeleceu uma relação muito estreita entre verdade e justiça, afirmando que uma não pode existir sem a outra. Como é que você compreende essa relação e como ela se materializou na sua experiência de vida?

Macarena Gelman: Quando o drama principal é a ausência de alguém, o desaparecimento de um ser querido, no caso a minha mãe, instintivamente colocamos diante de nós os temas da verdade e da justiça. Depois, com o passar do tempo, eu fui me dando conta que era muito difícil, senão impossível, obter uma sem a outra. A busca pela verdade, no meu caso encontrar os restos de minha mãe e as condições de sua morte, só começou de forma efetiva a partir da apresentação da causa judicial. 

Quando se discutia o tema da anulação da Lei de Caducidade da Pretensão Punitiva do Estado as pessoas contrárias à essa anulação diziam que se os casos fossem encaminhados à Justiça, os militares iriam falar. No entanto, desde 1986, quando a lei passou a valer, os militares acabaram não falando e lá se vão quase 30 anos. Se é verdade que ocorreram algumas tentativas de buscar a verdade, por meio da Comissão pela Paz, cujo objetivo era receber testemunhos confidenciais sem nenhum tipo de pressão ou obrigatoriedade, é verdade também que a maioria dessas informações se revelaram falsas. Portanto, é um recurso enganoso dizer que se a lei fosse anulada os militares não falariam e não se conseguiria nada.

O certo é que os corpos dos desaparecidos serão encontrados na medida em que se avance na Justiça. Mas, obviamente, para avançar, a Justiça precisa de testemunhos e precisa da verdade. Então, são duas coisas que se retroalimentam e que não podem ser separadas.

Carta MaiorNo final de 2011, o general Pedro Aguerre, comandante do Exército uruguaio, mandou suspender qualquer pacto de silêncio em torno de crimes praticados na ditadura. Aguerre disse que o Exército que comanda não encobriria delinquentes e homicidas em suas fileiras, e ordenou que fosse posta à disposição da Justiça toda informação possível para esclarecer os crimes de terrorismo de Estado. Como você avalia essas declarações? Acha que são sinceras e refletem uma nova postura dentro das forças armadas?

Macarena Gelman: No contexto em que vivemos, é claro que a opinião do comandante do Exército é importante e essas declarações têm um valor. Mas elas precisam ser acompanhadas por uma mudança de atitude. A força dessas declarações deve ser acompanha por atitudes de colaboração. É difícil dizer neste momento como isso se materializará na prática. O que pode ser dito é que essas declarações são mais do que bem vindas. Precisamos de um pouco mais de tempo para ver como elas se mostrarão na prática.

Carta MaiorNas últimas semanas, começou a ocorrer um fenômeno novo no Brasil. Setores da juventude estão saindo às ruas e organizando protestos em frente às casas e locais de trabalho de acusados de torturar e cometer outros tipos de crimes durante a ditadura. Até bem pouco tempo, não existia praticamente nenhuma mobilização em torno desse tema. Como você a mobilização das novas gerações em torno do tema das ditaduras, dos desaparecidos, dos crimes cometidos por agentes do Estado?

Macarena Gelman: Creio que o ponto chave sobre essa questão é a informação de que se dispõe. É precisamente por isso que os agentes da ditadura se encarregavam, entre outras coisas, de mesclar as informações com elementos confusos e muitas vezes falsos. Muita gente diz que já se falou muito sobre esse tema. Na verdade, não se falou nada, porque o que foi dito, muitas vezes, não era a verdade. Creio que na medida em que a informação verdadeira vem a público, as pessoas podem reagir e fazer alguma coisa. Sem isso, é muito difícil. O desenvolvimento de novas tecnologias de comunicação, a imediatez e o alcance que possibilitam, está necessariamente influenciando. Quando se trata seriamente desse tema, se vê que é um tema da humanidade. Os jovens são especialmente sensíveis a isso. Na medida em que têm acesso à informação, eles se interessam. É por isso que precisamos ter acesso a toda informação e não apenas a uma verdade parcial ou a uma mentira parcial.

Essas mobilizações também aconteceram na Argentina e no Uruguai. Pensando no que foi a época da repressão, quando nossos países se coordenaram para reprimir, assassinar e desaparecer, temos hoje a possibilidade de construir uma coordenação para encontrar a verdade. Seguramente, vamos compartilhar muitas informações. A característica principal do Plano Condor era a perseguição em cada país de quem fosse estrangeiro. Por isso, é muito possível que em cada um de nossos países haja informações importantes.

Carta MaiorDesde que você descobriu que era filha de desaparecidos e iniciou uma busca pela verdade, doze anos se passaram. Na sua avaliação, neste período se avançou sobre os temas da memória, da verdade e da justiça sobre o que ocorreu nos anos de ditadura em nossos países? 

Macarena Gelman: Se tomarmos uma linha do tempo em muito pouco tempo se avançou muito em relação ao que foi feito e ao que não foi em todos esses anos. Creio que esse é o momento para aprofundar essa busca. Evidentemente, há muito trabalho a ser realizado tanto pelo Estado quanto pela sociedade civil.

Carta MaiorNo caso específico do Uruguai, quais são, na sua opinião, os obstáculos a serem superados? O poder dos militares ainda é um problema em temas como a abertura dos arquivos da ditadura?

Macarena Gelman: O problema não se resume aos militares. O sistema político e grupos econômicos também fazem uma pressão muito forte para que os arquivos não sejam abertos, entre outras coisas. No marco das ditaduras não ocorreram somente coisas na esfera da defesa dos interesses do Estado. Houve interesses econômicos particulares e muita gente que beneficiou economicamente com a ditadura. Por isso é lógico que haja uma resistência. O nosso principal obstáculo, fora a Lei de Caducidade ou a Lei de Anistia, é um sentimento assumido coletivamente que as coisas têm que ser assim e que não adianta querer mudar. Creio que devemos olhar mais criticamente para o passado, para a transição que fizemos para a democracia e para os equívocos que cometemos.


Fotos: Página/12 

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