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sexta-feira, 25 de maio de 2012

Artur Gomes a poética do nosso Tempo


Escritos na década de 80 do século 20 e publicados no livro Couro Cru & Carne Viva em 1987, primeiramente pensei que estes poemas de Artur Gomes ficassem marcados como expressão datada visto as mudanças que se descortinavam no país a partir de 1985 quando depois de décadas de Ditadura Militar, um civil novamente ocuparia a Presidência da República. Mas que numa jogada do destino o Brasil foi doado de bandeja a José Sarney, então vice de Tancredo Neves que falecera antes mesmo de se empossado.
E o que esperar de um país que tem no mínimo uns 50 anos de história sendo conduzida pelo político maranhense que até hoje dá as cartas no Senado?

No seu prefácio para o livro Couro Cru & Carne Viva, o historiador e pesquisador Aristides Arthur Soffiati indaga: isso é um poema ou é uma navalha? Pois o poeta afia a sua arma branca: a palavra, como poucos poetas até então fizeram. Basta ler o que segue abaixo para chegarmos a conclusão que este conjunto de poemas/faca ou como o próprio autor passou a chamá-los de CarNAvalha, para chegarmos a conclusão que eles continuam mais atuais do que nunca, e a atuação dos nossos representantes na Câmara dos Deputados e no Senado é um verdadeiro atestado aos poemas que seguem.

Federico Baudelaire
Paris – maio de 2012



ao batizarem-te
 deram-te o nome: puta
posto que a tua profissão
é abrir-te em camas
dar-te em
ferro
ouro
prata
rios
peixes
minas
mata
deixar que os abutres
devorem-te na carne
o derradeiro verme

salve-lindo pendão que balança
entre as pernas abertas da paz
tua nobre sifilítica herança dos rendevouz
de impérios atrás

meu coração é tão hipócrita
que não janta
e mais imbecil que ainda canta:
ou
viram no Ipiranga
 às margens plácidas
uma bandeira arriada
num país que não levanta.

fosse o brazil mulher das amazonas
caminhasse passo a passo
disputasse mano a mano
guardasse a fauna e a flora
da fome dos tropicanos
ouvisse o lamentos dos peixes
jandaias araras e tucanos
não estaríamos assim
condicionados
aos restos do sub-humano

desfraldando a bandeira tropicalha
é que a gente avacalha com as chaves dos mistérios
desta terra tão servil:
tirania sacanagem safadeza
tudo rima uma beleza
com a pátria mãe que nos pariu

bem no centro do universo
te mando um beijo ó amada
enquanto arranco uma espada
do meu peito varonil
espanto todas as estrelas
dos berços do eternamente
pra que acorde toda esta gente
deste vasto céu de anil
pois enquanto dorme o gigante
esplêndido sono profundo
não vê que do outro mundo
robôs te enrrabam ó mãe gentil!

telefonaram-me
avisando-me que vinhas
na noite uma estrela
ainda brigava contra
a escuridão
na rua sob patas
tombavam homens indefesos
esperei-te 20 anos
até hoje não vieste à minha porta
- foi u m puta golpe

o poeta estraçalha a bandeira
raia o sol marginal Quinta feira
na geléia geral brazileira
o céu de abril não é de anil
nem general é my brazil

minha verde/amarela esperança
portugal já vendeu para a frança
é o coração latino balança
entre o mar de dólar do norte
e o chão dos cruzeiros do sul

o poeta esfrangalha a bandeira
raia o sol marginal Sexta feira
nesta porra estrangeira e azul
que a muito índio dizia:

meu coração marçal tupã
sangra tupi & rock in roll
meu sangue tupiniquim
em corpo tupinambá
samba jongo maculelê
maracatu boi bumbá
a veia de curumim
é coca cola e guaraná

o sonho rola no parque
o sangue ralo no tanque
nada a ver com tipo dark
muito menos com punk
meu vício letal é baiafro
com ódio mortal de yank

ó baby a coisa por aqui não mudou nada
embora sejam outras siglas no emblema
espada continua a ser espada
poema continua a ser poema

In Couro Cru & Carne Viva

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CAMPOS DOS GOYTACAZES

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meu coração marçal tupã sangra tupi e rock and roll meu sangue tupiniquim em corpo tupinambá samba jongo maculelê maracatu boi bumbá a veia de curumim é coca cola e guaraná