quarta-feira, 15 de agosto de 2012

FARÓIS NO CAOS 15



“Sempre tive uma preocupação poética com minhas letras. Claro que não sou um poeta, que publica livros e tal. Mas as minhas músicas são músicas com poesia. Não considero que sejam letras de música. Não concebo cantar nada que não seja poético. Senão, iria fazer música instrumental.”

“A transa do sucesso é complicada. E ao mesmo tempo é simples. Sucesso é apenas aquilo que você ouve e gosta. Quando eu ouvia Tim Maia cantando ‘Primavera’ e pensava ‘pô, mas esse cara canta demais’ – isso é sucesso. E existe o que é sucesso fabricado. Agora, como é que vão fabricar um Itamar? Como é que vão fabricar um Arrigo(Barnabé)? Não dá. Mas dá pra fabricar um sucesso. Você pega uma moçada que está começando, que está a fim de tocar, arruma uns empresários, muita grana e tal, e você fabrica um sucesso – pra ficar uns dois ou três anos. Acontece que não tenho nada a ver com isso. Esse sucesso aí não me interessa.”

“Sou um compositor de música popular, mesmo. Mas tanto a minha música quanto a do Arrigo é uma música de músicos. Isso está fora do mercado até hoje. O meu som é novo. Não tenho dúvidas disso. Mas sou um compositor de música popular. Em 1988, quando recebi o convite para ir para a Documenta de Kassel, na Alemanha, estranhei muito que não era o (Gilberto) Gil, o Milton (Nascimento). Era eu, com um som diferente. Um negro fazendo um som diferente no Brasil. Isso é complicado. Ser diferente não significa que vai acabar com os outros. Não é isso.”

“Porque no Brasil o que as pessoas diziam? ‘Ah, esse trabalho é maldito, é marginal, é vanguarda.’ Ouço Chico(Buarque), ouço Milton, Caetano (Veloso), Roberto Carlos, Chitãozinho e Xororó, tudo é música popular. E eu sou vanguarda, maldito... Comecei a desconfiar disso. Falei: ‘Epa, tem algo errado’. Foi legal ter ido para a Alemanha por isso: fiquei esperto. Porque é tanto chumbo, sabe? ‘Ah, você é marginal, é maldito, vanguarda.’ Aí chega lá e os caras dizem: ‘Não, não é nada disso, você é um compositor de música popular, por isso estamos trazendo você aqui. Estamos interessados na sua cultura. Não tem nada disso de marginal, maldito. Vanguarda até pode ser, mas marginal, maldito...’.

“A minha raiz é essa: pegar um violão e cantar. Agora, não é tão simples assim. (Canta ‘Na cadência do samba’.) É complicado alguém fazer uma melodia assim. Minha formação foi tirar música de ouvido. Quando peguei Ataulfo, havia muitos anos que não fazia isso. Minha vida era só compor, compor. Tirei todas as músicas do Ataulfo de ouvido. Voltei a esse exercício. Peguei a obra crua e nua, um compositor vendo como o outro fez, para entender e aprender com isso. Foi como se eu deixasse um pouco o Itamar Assumpção de lado. Itamar Assumpção exige muito. Mas na hora de gravar o cd chamei a Banda Isca, que se formou comigo. Porque não podia ser o samba tradicional, arranjos tradicionais. Não sou assim. Tinha que ser Itamar Assumpção tocando Ataulfo.”

Itamar Assumpção
em entrevista a Ademir Assunção, no livro Faróis no Caos (Edições Sesc).
Lançamento dia 28 de agosto fonte: www.zonabranca.blog.uol.com.br

Nenhum comentário:

CAMPOS DOS GOYTACAZES

Quem sou eu

Minha foto
meu coração marçal tupã sangra tupi e rock and roll meu sangue tupiniquim em corpo tupinambá samba jongo maculelê maracatu boi bumbá a veia de curumim é coca cola e guaraná