quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Faróis no Caos Este Mês


O lançamento do livro Faróis no Caos (Edições SescSP), com as melhores entrevistas que publiquei ao longo de 26 anos de carreira jornalística, será lançado no dia 28 deste mês, no Sesc Pinheiros (São Paulo), com um debate comigo, Mário Bortolotto e Maurício Kubrusly.
O livro tem entrevistas com escritores, compositores, quadrinistas, um ator e um monge zen. Alguns deles: Grande Otelo, Paulo Leminski, Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, Alice Ruiz, Glauco Mattoso, Augusto de Campos, Haroldo de Campos , Luiz Melodia e Luis Fernando Veríssimo.
A partir de hoje vou publicar aqui, diariamente, fragmentos das entrevistas de cada um deles.
Começo com meu texto de abertura:

BREVES PALAVRAS PARA SEMEAR O TERRENO

Quando Augusto de Campos abriu a porta do seu apartamento, na rua Bocaina, em Perdizes, senti um frio na barriga. Era a segunda grande entrevista que faria em minha vida profissional – a primeira fora com Caetano Veloso, em um hotel de Londrina, Paraná. Conhecia a obra do poeta, havia preparado um roteiro de perguntas e temas, mas ainda não tinha muita experiência em conduzir uma conversa de fôlego com um grande artista. Porém, achava que minha infinita curiosidade me garantiria. Augusto facilitou as coisas: abriu logo uma garrafa de cerveja e se mostrou disposto a falar. Dois dias depois, ao terminar a transcrição das quase três horas de gravações, em um velho gravador de fitas k7, percebi a encrenca em que havia me metido. Como editar as mais de cinquenta laudas e fazê-las caber em uma página de jornal? Impossível. Convenci o editor Nilson Monteiro a publicar três páginas, e a edição da entrevista saiu quase na íntegra. Na verdade, não precisei de muita lábia para convencê-lo. Ele também era poeta e nutria um vívido interesse pelas ideias de Augusto.

O Brasil, o cenário artístico e as redações de jornais eram bem diferentes em 1985. No início da década, Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção haviam assombrado a música brasileira com os discos Clara Crocodilo e Beleléu, leléu, eu, respectivamente. As editoras Brasiliense e l&pm chacoalhavam o mercado editorial com livros de Allen Ginsberg, William Burroughs, Gregory Corso, Sam Shepard, Charles Bukowski, Paulo Leminski, Roberto Piva e Chacal. Angeli, Laerte e Glauco renovavam as tirinhas de jornais, flagrando o comportamento da juventude urbana, com suas mazelas, maluquices e neuroses. A ditadura militar vivia seus estertores e, nas redações de jornais, ouvia-se o tamborilar das máquinas de escrever. Não havia internet, nem sequer computadores pessoais. Jornais alternativos proliferavam e a grande imprensa era chamada de imprensa burguesa. Havia uma necessidade de abertura de ideias, mudanças de comportamento e uma anárquica curiosidade no ar – a despeito dos incipientes yuppies que já começavam a ganhar terreno. O sinal parecia aberto para os jovens e ninguém queria viver como nossos pais.

Foi nesse ambiente que estas entrevistas começaram a ser feitas. Elas perfazem um arco de mais de duas décadas e meia: a primeira, com Caetano Veloso, foi publicada em agosto de 1985; a última, com o poeta Geraldo Carneiro, em maio de 2011. Nesse período, o Brasil mudou muito. As redações e o jornalismo cultural, mais ainda. Mas estes longos diálogos continuam apresentando questões perenes e atuais, com uma riqueza de ideias de que só me dei conta quando comecei a retrabalhar todo o material bruto para reuni-lo nesta coletânea.

Jornalismo nunca foi, para mim, apenas um ganha-pão. Interessado em vários assuntos, mas especialmente em literatura, poesia e música, logo que consegui meu primeiro emprego percebi que teria a oportunidade de conversar com escritores, compositores, poetas, artistas em geral, e de socializar esses diálogos nas páginas de jornais e revistas. Entre as várias formas possíveis de jornalismo, tenho apreço especial pelas entrevistas pergunta-resposta – ou pingue-pongue, como são chamadas no jargão profissional. Quando feitas em profundidade, com pesquisa prévia sobre a obra do entrevistado, perguntas bem elaboradas e interesse verdadeiro pelo assunto, geralmente resultam em material rico de ideias, opiniões, visões e experiências.

Essa é uma das coisas que tenho procurado fazer em 28 anos de trabalho profissional: boas entrevistas. Entre as dezenas delas que realizei nos jornais e revistas em que trabalhei (Folha de LondrinaO Estado de S. PauloFolha de S.PauloJornal da TardeMarie ClaireVeja São PauloIstoÉ), como contratado ou freelancer, acredito que as selecionadas para este volume montam um painel, não completo, óbvio, mas bastante significativo de uma parcela da arte e da cultura brasileiras da década de 1980 até os dias atuais. No mínimo, apresentam personalidades múltiplas e visões profundas sobre o fazer artístico e sobre outros temas que sempre despertaram o fascínio, a curiosidade e o interesse de muita gente. Pode parecer surpreendente, mas todas elas foram pensadas e realizadas nesse ambiente, nas páginas de papel-jornal, aquele mesmo que embrulha o peixe na feira no dia seguinte. Isso é um dado significativo.

Não é todo dia que se abre espaço em um grande veículo de informações a opiniões tão polêmicas como as de Glauco Mattoso – que, aliás, causaram um terremoto entre os leitores do jornal O Estado de S. Paulo. Ou a visão extremamente crítica de Roberto Piva e Sebastião Nunes. Ou a irreverência de Paulo Leminski. Ou mesmo a densidade de Haroldo de Campos, Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção e do monge zen Kogaku Daiju. Alguns deles foram diversas vezes entrevistados por outros colegas de profissão, mas nem sempre tiveram a oportunidade de expor em profundidade suas ideias, especialmente de uns tempos para cá, quando o jornalismo se torna cada vez mais “sintético”, em nome de uma rapidez de comunicação que acaba resultando, quase sempre, em visível superficialidade.

É verdade que uma parte delas saiu em publicações “alternativas” – inclusive na revista Coyote, da qual sou um dos editores, como as com os poetas Chacal, Claudio Daniel e Geraldo Carneiro, os escritores Nelson de Oliveira e Márcia Denser, o dramaturgo Mário Bortolotto e o quadrinista Marcatti. Bem, quando se torna quase impossível conseguir espaços nos grandes veículos, é preciso insistir na tarefa de fazer a informação circular, de um modo ou de outro. Obviamente, além dos que aqui estão, há muitos outros que eu gostaria de ter entrevistado. Quem sabe em um próximo livro.

Nunca me preocupei em entrevistar apenas os famosos ou já estabelecidos na cultura oficial. Ao contrário: sabia que muitos que estavam “na sombra”, circulando pelas margens, ou completamente esquecidos, tinham o que dizer. Bastava ligar o gravador e, depois, convencer os editores de que as ideias deles mereciam ganhar o mesmo tratamento dado a um artista, digamos, já canonizado. Nem sempre foi fácil. Alguns dos entrevistados, inclusive, não eram muito palatáveis a certos padrões editoriais, devido às suas críticas contundentes, às vezes ao próprio jornalismo cultural.

Alguns detalhes relevantes: a maior parte das entrevistas aqui publicadas foi ampliada, a partir das gravações integrais, com inserção de trechos que não saíram nos jornais e revistas devido a limitações de espaço. Vários textos de abertura foram reescritos e, sempre que necessário, atualizados, com breves parágrafos complementares – porém, procurei preservar ao máximo as versões originais. Alguns títulos, por vezes modificados pelos editores, voltam aqui na primeira versão. Optei, ainda, por não quebrar o ritmo da leitura nem aborrecer o leitor com excessivas notas de rodapé, utilizando-as somente quando julguei indispensáveis – preferi o recurso, mais jornalístico, de contextualizar algumas informações dentro das próprias falas, usando parênteses em itálicos. Por fim, em vez de organizá-las em ordem cronológica, decidi agrupá-las por blocos de afinidades ou contrastes de opiniões.

Poderia esboçar um bocado de reflexões a partir do conjunto de ideias e visões reunidas nestes depoimentos, às vezes abertamente divergentes, mas deixo essa tarefa para o leitor. No mais, é como já cantou o compositor Itamar Assumpção: “o real é a rocha que o poeta lapida”. Eis aqui a rocha lapidada por alguns dos múltiplos escultores desse fascinante organismo vivo que se chama, por aí, de cultura brasileira.

Por último, agradeço a todos os que contribuíram para a concretização desta coletânea, em especial aos entrevistados e aos colegas de redação que suportaram minha teimosia. Sem esse “defeito de fabricação” herdado de meu pai (um ferroviário turrão, que quando enfiava uma ideia na cabeça não havia Cristo que o fizesse desistir), este livro não existiria.

Ademir Assunção
www.zonabranca.blog.uol.com.br


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