sexta-feira, 31 de agosto de 2012

o mar lambendo as pedras


o mar lambendo as pedras

o mar lambemdo as pedras
com com tua água salgada
entre escombros entulhos
corpos barcos e navios
penso outras coisas nuas
embaixo destá água
quantas mágoas aqui se foram
entre pedra e cal
e nem sentiram o sal da água
a lamber teus cios

artur gomes
www.tvfulinaima.blogspot.com


quarta-feira, 29 de agosto de 2012

com os dentes cravados na memória



Bolero Blue

beber desse conhaque
em tua boca
para matar a febre
nas entranhas
entre os dentes
indecente
é a forma que te bebo
como ou calo
e se não falo quando quero
na balada ou no bolero
não é por falta de desejo
é que a fome desse beijo
furta qualquer outra
palavra presa
como caça indefesa
dentro da carne que não sai.

Além das centenas de felicitações pelo meu aniversário nesta segunda 27, duas notícias recebidas ontem, enchem ainda mais minha semana de alegria:

1 – Saber que vídeo comigo falando este poema acima está no Museu da Língua em São Paulo
2 – Convite do Portal Porta Curtas, para julgar 29 filmes do Festival de Curtas de são Paulo


Fulinaimagem
1

por enquanto
vou te amar assim em segredo
como se o sagrado fosse
o maior dos pecados originais
e a minha língua fosse
só furor dos canibais
e essa lua mansa fosse faca
a afiar os verso que ainda não fiz
e as brigas de amor que nunca quis
mesmo quando o projeto
aponta outra direção embaixo do nariz
e é mais concreto
que a argamassa do abstrato

por enquanto
vou te amar assim admirando o teu retrato
pensando a minha idade
e o que trago da cidade
embaixo as solas dos sapatos

2

o que trago embaixo as solas dos sapatos
bagana acesa sobra o cigarro é sarro
dentro do carro
ainda ouço jimmi hendrix quando quero
dancei bolero sampleando rock and roll
pra colher lírios há que se por o pé na lama
a seda pura foto síntese do papel
tem flor de lótus nos bordéis copacabana
procuro um mix da guitarra de santana
com os espinhos da rosa de Noel

Artur Gomes
te convido para curtir fulinaíma produções

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

mãos que tecem redes e enfrentam o mar


Pontal Atafona Mar de Búzios


Mãos Que Tecem Redes e enfrentam o mar


Você já viu comon anda on nosso litoral de Barra do Furado a Barra do itabapoana? Então veja antes que acabe.

Em 1975 escrevi o meu primeiro poema sobre o Pontal, nesta época o mar ainda não se revoltava com que o homem havia tirado dele, mas questões ambientais já afligiam um bom número de pessoas perocupados com a devastação do planeta Terra. Desde o início das década de 1980 a situação começou a mudar, e o mar, começou a mostrar os seus primeiros sinais de revolta, e a tomar o território que lhe pertencia. 

Hoje num simples olhar, que não precisa ser muito aprofundado, podemos contastar a degradação do nosso litoral na faixa que compreende de Barra do Furado a Barra do Itabapona. São esgotos despejados nos manguezais, restingas invadidas por fazendas para criação de gado bovino, manguezais dando lugar a condomínios privados, e todo tipo de situação que não só agride ao meio-ambiente como ao ambiente inteiro. 

De 1990 para cá começaram a ase estingnuir todos os manguezaas desta área, e hoje praticamente apenas em Gargaú existem manguezais com vida e nada é feito por nenhum órgão governamental para mudar este quadro de devastação.

Hoje vivemos um tempo num país em que os homens que com suas mãos tecem redes e enfrentam o mar em busca do sustento dos eu pão de cada dia, vivem entregues a sorte que algum deus dará, e se não houver deus não terá sorte nenhuma, morrerá entregue a sua própria solidão e não terá país nenhum. 

Em 1993 escrevi o poema Pontal Foto Grafia, numa linguagem hiper realista mostrando telhados, tijolos, concretos afundand0 naúfragos boiando nas ondas de um mar em fúria. No poema abaixo um ode não apenas ao pontal mas ao Mar e toda a sua plenitude. 


Mar de Búzios 

vaza sob meus pés 
um rio das ostras 
enquanto minha mãos em conchas 
passeiam o mangue dos teus seios 
e provocam o fluxo do teu sangue 
os caranguejos olham admirados 
a volúpia dos teus cios 
quando me entregas o que traz 
por entre as praias e permites desatar 
todos os nós do teu umbigo 
transbordando mar de búzios 
- oceanos 
atrlântico pulsar entre dois corpos 
que se descobrem peixes 
e mergulham profundezas 
qualquer que seja  a hora 
em que se beijam num pontal 
em comunhão total com a natureza

                                                                     Artur Gomes 
www.artur-gomes.blogspot.com
www.youtube.com/fulinama

terça-feira, 21 de agosto de 2012

jura secreta 18


foto: artur gomes


te beijo vestida de nua
somente a lua te espelha
nesta lagoa vermelha
porto alegre caís do porto
barcos navios no teu corpo
peixes brincam no teu cio
nus teus seios minhas mãos
as rendas íntimas que vestias

sobre os teus pêlos ficção

todos os laços dos tecidos
aquela cor do teu vestido
a pura pele agora é roupa
o sabor da tua língua
o batom da tua boca
tudo antes só promessa
agora hóstia entre os meus dentes

e para espanto dos decentes
te levo ao ato consagrado
se te despir for só pecado

é só pecar que me interessa

arturgomes

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

fulinaimicamente



do som dessa palavra
nasce uma outra palavra
fulinaimicamente
no improviso do repente
do som dessa palavra
nasce uma outra palavra
fulinaimicamente

brasileiro sou bicho do mato
brasileiro sou pele de gato
brasileiro mesmo de fato
yauaretê curumim carrapato
em rio que tem piranha
jacaré sarta de banda
criolo tô na umbanda
índio fui dentro da oca
meu destino agora traço
dentro da aldeia carioca

Jackson do Pandeiro
Federico Baudelaire
nas flores do mal me quer
Artur Rimbaud na festa
de janeiro a fevereiro
Itamar da Assunção
olha aí Zeca Baleiro
no olho do mundo
no olho do mundo cão
 
arturgomes



 
Sanya Rohen - foto: - artur gomes


a passageira da poltrona ao lado
a passageira da poltrona ao lado
observa a paisagem atentamente na janela
meus olhos focam o seu perfil na tela
meu dedo aciona o dispositivo do zoom
para ter a sua imagem mais de perto
o coração entende a sensação do seu olhar flertando a câmera
o sentido está aberto na viagem
onde a surpresa não tem planos
e a arte é puro acaso do que possa acontecer
na engenharia dos músculos que se movem
inconscientes onde poema houver
na miragem oculta numa manhã de sexta
depois de noite inteira de cerveja para perder o sono
sem saber que na poltrona ao lado
na luz desta miragem  iria amanhecer


arturgomes

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

conkrEreções


fotos: artur gomes


qualquer palavra eu invento
na carnadura dos ossos
na escridura do éter
na concretude do vento
na engrenagem da sílaba
vocabulário onde posso
dar nome próprio ao veneno
que tem no agro negócio

Artur Gomes

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Cine Mosquito



Coyote 10 Anos



 Pelas páginas da Coyote já passaram mais de 340 colaboradores: de escritores a fotógrafos, de artistas gráficos a artistas plásticos, de ensaístas a artistas em geral do Paraná e de vários estados brasileiros e de outros países. Sempre com uma linguagem gráfica ousada e material inédito, patrocinada pelo POMIC (Programa Municipal de Incentivo à Cultura) de Londrina, nestes 10 anos Coyote firmou-se como uma das mais importantes revistas literárias do país (Folha de São Paulo).

O número 24 da Revista Coyote, comemorando o seu 10° Aniversário, foi lançado no último dia 4 no Sesc em Curitiba, dia 14 no I Simpósio de ação Poética na Casa das Rosas em São Paulo e será lançado também no próximo dia 21 no Festival Literário de Londrina – Londrix.  

Além de um dossiê com o escritor João Antônio (1937-1996), o número apresenta contos inéditos de Amilcar Bettega, Paulino Júnior e Alberto Lins Caldas e poemas de Andréia Carvalho, Ikaro Maxx, Artur Gomes e Adriana Versiani dos Anjos.

Coyote 24 52 páginas R$ 10,00. Uma Publicação da Kan Editora. Editores: Rodrigo Garcia Lopes, Marcos Losnak e Ademir assunção. Vendas em livrarias de todo o país, com distribuição pel Editora Iluminuras – fone: (11)3032-6161. Pode ser adquirida pela internet através do site: www.iluminuras.com.br


Faróis no Caos Este Mês


O lançamento do livro Faróis no Caos (Edições SescSP), com as melhores entrevistas que publiquei ao longo de 26 anos de carreira jornalística, será lançado no dia 28 deste mês, no Sesc Pinheiros (São Paulo), com um debate comigo, Mário Bortolotto e Maurício Kubrusly.
O livro tem entrevistas com escritores, compositores, quadrinistas, um ator e um monge zen. Alguns deles: Grande Otelo, Paulo Leminski, Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, Alice Ruiz, Glauco Mattoso, Augusto de Campos, Haroldo de Campos , Luiz Melodia e Luis Fernando Veríssimo.
A partir de hoje vou publicar aqui, diariamente, fragmentos das entrevistas de cada um deles.
Começo com meu texto de abertura:

BREVES PALAVRAS PARA SEMEAR O TERRENO

Quando Augusto de Campos abriu a porta do seu apartamento, na rua Bocaina, em Perdizes, senti um frio na barriga. Era a segunda grande entrevista que faria em minha vida profissional – a primeira fora com Caetano Veloso, em um hotel de Londrina, Paraná. Conhecia a obra do poeta, havia preparado um roteiro de perguntas e temas, mas ainda não tinha muita experiência em conduzir uma conversa de fôlego com um grande artista. Porém, achava que minha infinita curiosidade me garantiria. Augusto facilitou as coisas: abriu logo uma garrafa de cerveja e se mostrou disposto a falar. Dois dias depois, ao terminar a transcrição das quase três horas de gravações, em um velho gravador de fitas k7, percebi a encrenca em que havia me metido. Como editar as mais de cinquenta laudas e fazê-las caber em uma página de jornal? Impossível. Convenci o editor Nilson Monteiro a publicar três páginas, e a edição da entrevista saiu quase na íntegra. Na verdade, não precisei de muita lábia para convencê-lo. Ele também era poeta e nutria um vívido interesse pelas ideias de Augusto.

O Brasil, o cenário artístico e as redações de jornais eram bem diferentes em 1985. No início da década, Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção haviam assombrado a música brasileira com os discos Clara Crocodilo e Beleléu, leléu, eu, respectivamente. As editoras Brasiliense e l&pm chacoalhavam o mercado editorial com livros de Allen Ginsberg, William Burroughs, Gregory Corso, Sam Shepard, Charles Bukowski, Paulo Leminski, Roberto Piva e Chacal. Angeli, Laerte e Glauco renovavam as tirinhas de jornais, flagrando o comportamento da juventude urbana, com suas mazelas, maluquices e neuroses. A ditadura militar vivia seus estertores e, nas redações de jornais, ouvia-se o tamborilar das máquinas de escrever. Não havia internet, nem sequer computadores pessoais. Jornais alternativos proliferavam e a grande imprensa era chamada de imprensa burguesa. Havia uma necessidade de abertura de ideias, mudanças de comportamento e uma anárquica curiosidade no ar – a despeito dos incipientes yuppies que já começavam a ganhar terreno. O sinal parecia aberto para os jovens e ninguém queria viver como nossos pais.

Foi nesse ambiente que estas entrevistas começaram a ser feitas. Elas perfazem um arco de mais de duas décadas e meia: a primeira, com Caetano Veloso, foi publicada em agosto de 1985; a última, com o poeta Geraldo Carneiro, em maio de 2011. Nesse período, o Brasil mudou muito. As redações e o jornalismo cultural, mais ainda. Mas estes longos diálogos continuam apresentando questões perenes e atuais, com uma riqueza de ideias de que só me dei conta quando comecei a retrabalhar todo o material bruto para reuni-lo nesta coletânea.

Jornalismo nunca foi, para mim, apenas um ganha-pão. Interessado em vários assuntos, mas especialmente em literatura, poesia e música, logo que consegui meu primeiro emprego percebi que teria a oportunidade de conversar com escritores, compositores, poetas, artistas em geral, e de socializar esses diálogos nas páginas de jornais e revistas. Entre as várias formas possíveis de jornalismo, tenho apreço especial pelas entrevistas pergunta-resposta – ou pingue-pongue, como são chamadas no jargão profissional. Quando feitas em profundidade, com pesquisa prévia sobre a obra do entrevistado, perguntas bem elaboradas e interesse verdadeiro pelo assunto, geralmente resultam em material rico de ideias, opiniões, visões e experiências.

Essa é uma das coisas que tenho procurado fazer em 28 anos de trabalho profissional: boas entrevistas. Entre as dezenas delas que realizei nos jornais e revistas em que trabalhei (Folha de LondrinaO Estado de S. PauloFolha de S.PauloJornal da TardeMarie ClaireVeja São PauloIstoÉ), como contratado ou freelancer, acredito que as selecionadas para este volume montam um painel, não completo, óbvio, mas bastante significativo de uma parcela da arte e da cultura brasileiras da década de 1980 até os dias atuais. No mínimo, apresentam personalidades múltiplas e visões profundas sobre o fazer artístico e sobre outros temas que sempre despertaram o fascínio, a curiosidade e o interesse de muita gente. Pode parecer surpreendente, mas todas elas foram pensadas e realizadas nesse ambiente, nas páginas de papel-jornal, aquele mesmo que embrulha o peixe na feira no dia seguinte. Isso é um dado significativo.

Não é todo dia que se abre espaço em um grande veículo de informações a opiniões tão polêmicas como as de Glauco Mattoso – que, aliás, causaram um terremoto entre os leitores do jornal O Estado de S. Paulo. Ou a visão extremamente crítica de Roberto Piva e Sebastião Nunes. Ou a irreverência de Paulo Leminski. Ou mesmo a densidade de Haroldo de Campos, Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção e do monge zen Kogaku Daiju. Alguns deles foram diversas vezes entrevistados por outros colegas de profissão, mas nem sempre tiveram a oportunidade de expor em profundidade suas ideias, especialmente de uns tempos para cá, quando o jornalismo se torna cada vez mais “sintético”, em nome de uma rapidez de comunicação que acaba resultando, quase sempre, em visível superficialidade.

É verdade que uma parte delas saiu em publicações “alternativas” – inclusive na revista Coyote, da qual sou um dos editores, como as com os poetas Chacal, Claudio Daniel e Geraldo Carneiro, os escritores Nelson de Oliveira e Márcia Denser, o dramaturgo Mário Bortolotto e o quadrinista Marcatti. Bem, quando se torna quase impossível conseguir espaços nos grandes veículos, é preciso insistir na tarefa de fazer a informação circular, de um modo ou de outro. Obviamente, além dos que aqui estão, há muitos outros que eu gostaria de ter entrevistado. Quem sabe em um próximo livro.

Nunca me preocupei em entrevistar apenas os famosos ou já estabelecidos na cultura oficial. Ao contrário: sabia que muitos que estavam “na sombra”, circulando pelas margens, ou completamente esquecidos, tinham o que dizer. Bastava ligar o gravador e, depois, convencer os editores de que as ideias deles mereciam ganhar o mesmo tratamento dado a um artista, digamos, já canonizado. Nem sempre foi fácil. Alguns dos entrevistados, inclusive, não eram muito palatáveis a certos padrões editoriais, devido às suas críticas contundentes, às vezes ao próprio jornalismo cultural.

Alguns detalhes relevantes: a maior parte das entrevistas aqui publicadas foi ampliada, a partir das gravações integrais, com inserção de trechos que não saíram nos jornais e revistas devido a limitações de espaço. Vários textos de abertura foram reescritos e, sempre que necessário, atualizados, com breves parágrafos complementares – porém, procurei preservar ao máximo as versões originais. Alguns títulos, por vezes modificados pelos editores, voltam aqui na primeira versão. Optei, ainda, por não quebrar o ritmo da leitura nem aborrecer o leitor com excessivas notas de rodapé, utilizando-as somente quando julguei indispensáveis – preferi o recurso, mais jornalístico, de contextualizar algumas informações dentro das próprias falas, usando parênteses em itálicos. Por fim, em vez de organizá-las em ordem cronológica, decidi agrupá-las por blocos de afinidades ou contrastes de opiniões.

Poderia esboçar um bocado de reflexões a partir do conjunto de ideias e visões reunidas nestes depoimentos, às vezes abertamente divergentes, mas deixo essa tarefa para o leitor. No mais, é como já cantou o compositor Itamar Assumpção: “o real é a rocha que o poeta lapida”. Eis aqui a rocha lapidada por alguns dos múltiplos escultores desse fascinante organismo vivo que se chama, por aí, de cultura brasileira.

Por último, agradeço a todos os que contribuíram para a concretização desta coletânea, em especial aos entrevistados e aos colegas de redação que suportaram minha teimosia. Sem esse “defeito de fabricação” herdado de meu pai (um ferroviário turrão, que quando enfiava uma ideia na cabeça não havia Cristo que o fizesse desistir), este livro não existiria.

Ademir Assunção
www.zonabranca.blog.uol.com.br


FARÓIS NO CAOS 15



“Sempre tive uma preocupação poética com minhas letras. Claro que não sou um poeta, que publica livros e tal. Mas as minhas músicas são músicas com poesia. Não considero que sejam letras de música. Não concebo cantar nada que não seja poético. Senão, iria fazer música instrumental.”

“A transa do sucesso é complicada. E ao mesmo tempo é simples. Sucesso é apenas aquilo que você ouve e gosta. Quando eu ouvia Tim Maia cantando ‘Primavera’ e pensava ‘pô, mas esse cara canta demais’ – isso é sucesso. E existe o que é sucesso fabricado. Agora, como é que vão fabricar um Itamar? Como é que vão fabricar um Arrigo(Barnabé)? Não dá. Mas dá pra fabricar um sucesso. Você pega uma moçada que está começando, que está a fim de tocar, arruma uns empresários, muita grana e tal, e você fabrica um sucesso – pra ficar uns dois ou três anos. Acontece que não tenho nada a ver com isso. Esse sucesso aí não me interessa.”

“Sou um compositor de música popular, mesmo. Mas tanto a minha música quanto a do Arrigo é uma música de músicos. Isso está fora do mercado até hoje. O meu som é novo. Não tenho dúvidas disso. Mas sou um compositor de música popular. Em 1988, quando recebi o convite para ir para a Documenta de Kassel, na Alemanha, estranhei muito que não era o (Gilberto) Gil, o Milton (Nascimento). Era eu, com um som diferente. Um negro fazendo um som diferente no Brasil. Isso é complicado. Ser diferente não significa que vai acabar com os outros. Não é isso.”

“Porque no Brasil o que as pessoas diziam? ‘Ah, esse trabalho é maldito, é marginal, é vanguarda.’ Ouço Chico(Buarque), ouço Milton, Caetano (Veloso), Roberto Carlos, Chitãozinho e Xororó, tudo é música popular. E eu sou vanguarda, maldito... Comecei a desconfiar disso. Falei: ‘Epa, tem algo errado’. Foi legal ter ido para a Alemanha por isso: fiquei esperto. Porque é tanto chumbo, sabe? ‘Ah, você é marginal, é maldito, vanguarda.’ Aí chega lá e os caras dizem: ‘Não, não é nada disso, você é um compositor de música popular, por isso estamos trazendo você aqui. Estamos interessados na sua cultura. Não tem nada disso de marginal, maldito. Vanguarda até pode ser, mas marginal, maldito...’.

“A minha raiz é essa: pegar um violão e cantar. Agora, não é tão simples assim. (Canta ‘Na cadência do samba’.) É complicado alguém fazer uma melodia assim. Minha formação foi tirar música de ouvido. Quando peguei Ataulfo, havia muitos anos que não fazia isso. Minha vida era só compor, compor. Tirei todas as músicas do Ataulfo de ouvido. Voltei a esse exercício. Peguei a obra crua e nua, um compositor vendo como o outro fez, para entender e aprender com isso. Foi como se eu deixasse um pouco o Itamar Assumpção de lado. Itamar Assumpção exige muito. Mas na hora de gravar o cd chamei a Banda Isca, que se formou comigo. Porque não podia ser o samba tradicional, arranjos tradicionais. Não sou assim. Tinha que ser Itamar Assumpção tocando Ataulfo.”

Itamar Assumpção
em entrevista a Ademir Assunção, no livro Faróis no Caos (Edições Sesc).
Lançamento dia 28 de agosto fonte: www.zonabranca.blog.uol.com.br

sábado, 11 de agosto de 2012

EntriDentes



queimando em Mar de Fogo
me registro
lá no fundo do teu íntimo
bem no branco do meu nervo
brota uma onda de sal e líquido
procurando a porta do teu cais
teu nome já estava cravado
nos meus dentes
desde quando sísifo
olhava no espelho
primeiro como Mar de Fogo
registro vivo das primeiras era
segundo como Flor de Lotus
cravado na pele da flor primavera
logo depois gravidez e parto
permitindo o Logus quando o amor quisera

arturgomes

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Pablo Neruda - Poemas de Amor


Pablo Neruda na voz de Artur Gomes amanhã no Centro Cultural Luciano Bastos em Bom Jesus do Itabapoana-RJ

Se Me Esqueceres

Quero que saibas 
uma coisa. 

Sabes como é: 
se olho 
a lua de cristal, o ramo vermelho 
do lento outono à minha janela, 
se toco 
junto do lume 
a impalpável cinza 
ou o enrugado corpo da lenha, 
tudo me leva para ti, 
como se tudo o que existe, 
aromas, luz, metais, 
fosse pequenos barcos que navegam 
até às tuas ilhas que me esperam. 

Mas agora, 
se pouco a pouco me deixas de amar 
deixarei de te amar pouco a pouco. 

Se de súbito 
me esqueceres 
não me procures, 
porque já te terei esquecido. 

Se julgas que é vasto e louco 
o vento de bandeiras 
que passa pela minha vida 
e te resolves 
a deixar-me na margem 
do coração em que tenho raízes, 
pensa 
que nesse dia, 
a essa hora 
levantarei os braços 
e as minhas raízes sairão 
em busca de outra terra. 

Porém 
se todos os dias, 
a toda a hora, 
te sentes destinada a mim 
com doçura implacável, 
se todos os dias uma flor 
uma flor te sobe aos lábios à minha procura, 
ai meu amor, ai minha amada, 
em mim todo esse fogo se repete, 
em mim nada se apaga nem se esquece, 
o meu amor alimenta-se do teu amor, 
e enquanto viveres estará nos teus braços 
sem sair dos meus. 

Pablo Neruda, in "Poemas de Amor de Pablo Neruda"



Corpo de Mulher...

Corpo de mulher, brancas colinas, coxas 
                                                          [brancas, 
pareces-te com o mundo na tua atitude de 
                                                          [entrega. 
O meu corpo de lavrador selvagem escava em ti 
e faz saltar o filho do mais fundo da terra. 

Fui só como um túnel. De mim fugiam os 
                                                          [pássaros, 
e em mim a noite forçava a sua invasão 
                                                          [poderosa. 
Para sobreviver forjei-te como uma arma, 
como uma flecha no meu arco, como uma pedra 
                                                 na minha funda. 

Mas desce a hora da vingança, e eu amo-te. 
Corpo de pele, de musgo, de leite ávido e firme. 
Ah os copos do peito! Ah os olhos de ausência! 
Ah as rosas do púbis! Ah a tua voz lenta e 
                                                          [triste! 

Corpo de mulher minha, persistirei na tua graça. 
Minha sede, minha ânsia sem limite, meu 
                                                          [caminho indeciso! 
Escuros regos onde a sede eterna continua, 
e a fadiga continua, e a dor infinita. 

Pablo Neruda, in "Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada"



Amor

Mulher, teria sido teu filho, para beber-te 
o leite dos seios como de um manancial, 
para olhar-te e sentir-te a meu lado e ter-te 
no riso de ouro e na voz de cristal. 

Para sentir-te nas veias como Deus num rio 
e adorar-te nos ossos tristes de pó e cal, 
para que sem esforço teu ser pelo meu passasse 
e saísse na estrofe - limpo de todo o mal -. 

Como saberia amar-te, mulher, como saberia 
amar-te, amar-te como nunca soube ninguém! 
Morrer e todavia 
amar-te mais. 
E todavia 
amar-te mais 
                           e mais. 

Pablo Neruda, in "Crepusculário" 
Tradução de Rui Lage



Grita

Amor, quando chegares à minha fonte distante, 
cuida para que não me morda tua voz de ilusão: 
que minha dor obscura não morra nas tuas asas, 
nem se me afogue a voz em tua garganta de ouro. 

                Quando chegares, Amor 
                à minha fonte distante, 
                sê chuva que estiola, 
                sê baixio que rompe. 

                Desfaz, Amor, o ritmo 
                destas águas tranquilas: 
sabe ser a dor que estremece e que sofre, 
sabe ser a angústia que se grita e retorce. 

                Não me dês o olvido. 
                Não me dês a ilusão. 
Porque todas as folhas que na terra caíram 
me deixaram de ouro aceso o coração. 

                Quando chegares, Amor 
                à minha fonte distante, 
                desvia-me as vertentes, 
                aperta-me as entranhas. 

E uma destas tardes - Amor de mãos cruéis -, 
ajoelhado, eu te darei graças. 

Pablo Neruda, in "Crepusculário" 
Tradução de Rui Lage


Sempre

Ao contrário de ti 
não tenho ciúmes. 

Vem com um homem 
às costas, 
vem com cem homens nos teus cabelos, 
vem com mil homens entre os seios e os pés, 
vem como um rio 
cheio de afogados 
que encontra o mar furioso, 
a espuma eterna, o tempo. 

Trá-los todos 
até onde te espero: 
estaremos sempre sozinhos, 
estaremos sempre tu e eu 
sozinhos na terra 
para começar a vida. 

Pablo Neruda, in "Poemas de Amor de Pablo Neruda"


A convite de Paula Bastos Pró Reitora de Extensão do IFF, estarei amanhã no Centro Cultural Luciano Bastos, em Bom Jesus do Itabapoana, fazendo uma leitura dramática desses poemas acima do poeta chileno Pablo Neruda.


artur gomes
www.artur-gomes.blogspot.com

sargaço em tua boca espuma


fotos: Welliton Rangel - Pontal Atafona


em armação de búzios
 tenho um amor sagrado
guardado como jura secreta
que ainda não fiz para laís
em teus cabelos girassóis de estrelas
que de tanto vê-las o meu olho  vela
e o que tanto diz  onda do mar  não leva
da areia da praia onde grafei teu nome
para matar a sede e muito mais a fome
entranhada  na carne como flor de lotus
grudada na pele como tatuagem
flutuando ao vento como leve pluma
no salgado corpo do além mar afora
sargaço em tua boca espuma
onde vivem peixes  - na cumplicidade
do que escrevo agora

arturgomes
www.artur-gomes.blogspot.com

Brazilìrica Pereira: A Traição das Metáforas



Artur Gomes, feito gume, é máquina devoradora do mundo. 
Mastiga coisas, afetos, pessoas, rumina e afia os elementos 
em sua navalha verbal e os transforma na mais pura poesia. 
Dono de uma criatividade em permanente ebulição, hábil no verbo e na disposição visual do mesmo no espaço do suporte - papel ou pano - bandeira a gotejar palavra que, não raro, é também palco e gesto, (in)cenação a complementar e enriquecer o que a palavra muda já disse, a dizer outra coisa que é também a mesma coisa: poesia. 

Poeta em tempo integral, como poucos ousaram ser, Artur Gomes constrói, sem pressa (os anos não parecem pesar - na carne nem no espírito) a sua delirante e criativa poesia, colagem da colagem da colagem, (re)encarnação mais do que perfeita da antropofagia como nem mesmo o velho Serafim sonhou. Nada, absolutamente nada escapa à sua devastadora e permanente passagem, andarilho de poderosa voz a evangelizar para a poesia.

Este Brazilírica Pereira: A Traição das Metáforas é a continuação de um enredo de há muito ensaiado. Seus atrevidos personagens já apareciam em Vinte Poemas com Gosto de JardiNÓpolis & Uma Canção com Sabor de Campos. Legítimas apropriações retiradas de suas viagens brazílicas, figuras que a sua generosidade literária faz questão de homenagear. Na passarela poética de Artur, tanto podem desfilar Mallarmé, Faustino, Dalí, Oswald, Baudelaire, Drummond, Pound, Ana Cristina César e o sempre lembrado mestre Uilcon Pereira, a quem o novo livro é dedicado, como personagens anônimos encontrados nas quebradas do mundaréu, além dos amigos, objeto constante de sua poesia. 

Neste caldeirão, olho gótico TVendo”, entra até um despudorado acróstico, rimas milionárias em permanente celebração. 

O poeta Artur, disfarçado de concreto, celebra descaradamente a amizade e o lirismo e ri-se de quem tenta classificá-lo. Evoé, Artur!

Dalila Teles Veras
www.alpharrabio.com.br

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Pontal Foto Grafia


fotos: Welliton Rangel e Artur Gomes

Aqui,
redes em pânico
pescam esqueletos no mar 
esquadras – descobrimento
espinhas de peixe 
convento
cabrálias esperas 
relento 
escamas secas no prato
e um cheiro podre no 
AR 

caranguejos explodem 
mangues em pólvora 
Ovo de Colombo quebrado
areia branca inferno livre
Rimbaud - África virgem – 
carne na cruz dos escombros
trapos balançam varais 
telhados bóiam nas ondas 
tijolos afundando náufragos 
último suspiro da bomba
na boca incerta da barra 
esgoto fétido do mundo
grafando lentes na marra
imagens daqui saqueadas 
Jerusalém pagã visitada 
Atafona.Pontal.Grussaí 
as crianças são testemunhas: 
Jesus Cristo não passou por aqui 

Miles Davis fisgou na agulha
Oscar no foco de palha 
cobra de vidro sangue na fagulha 
carne de peixe maracangalha 
que mar eu bebo na telha
que a minha língua não tralha? 
penúltima dose de pólvora
palmeira subindo a maralha
punhal trincheira na trilha
cortando o pano a navalha
fatal daqui Pernambuco 
Atafona.Pontal.Grussaí 
as crianças são testemunhas:
Mallarmè passou por aqui 

bebo teu fato em fogo 
punhal na ova do bar
palhoças ao sol fevereiro 
aluga-se teu brejo no mar 
o preço nem Deus nem sabre
sementes de bagre no porto
a porca no sujo quintal
plástico de lixo nos mangues 
que mar eu bebo afinal?

Artur Gomes In carNAvalha Gumes
http://www.artur-gomes.blogspot.com

Publicado na Antologia Ineternacional - Eco Arte Para Re-Encantamento do Mundo, organizada pela Bióloga Micelle Sato e editada pela Universidade Federal do Mato Grosso

CAMPOS DOS GOYTACAZES

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meu coração marçal tupã sangra tupi e rock and roll meu sangue tupiniquim em corpo tupinambá samba jongo maculelê maracatu boi bumbá a veia de curumim é coca cola e guaraná