sexta-feira, 1 de março de 2013

Sady Bianchin - Cultura, Conciência e Transformação


 Qual o valor de uma visão? Uma vez li um verso do poeta Mário Quintana que dizia: “sonhar é acordar-se para dentro”. Ele me fez notar que por trás da maioria das grandes realizações, das obras dignas de registro, estão visões de mundo fortes o suficiente para impulsionar a prática. Costumo dizer que nós somos do tamanho dos nossos sonhos. O sonho por um país e uma cidade melhores coloca-nos diante de um olhar desafiador na direção de um futuro mais digno para nossa população. Neste contexto, entra em cena a cultura, elemento integrador de um povo. Esta produção de sentidos deve estar permanentemente em pauta por meio de políticas públicas. Temos de utilizar seu potencial de unificação da identidade e de geração de economia.
 
A cultura democrática é uma estratégia para conquistar a credibilidade das sociedades.  É uma fonte de revigoração das expectativas da autoestima. Uma cidade será mais igualitária quanto mais bem distribuído for o acesso à cultura. Não basta o estado ordenar a construção simbólica e o patrimônio histórico, mas sim elaborar políticas públicas com fim de orientar o desenvolvimento da produção do imaginário social com o objetivo de transformação da realidade. O pensador Antonio Gramsci falava em cultura hegemônica e subalterna, ensinando-nos que a cultura só é subalterna enquanto as classes populares não tiverem consciência de si. A Constituição de 1988 garante a todos o pleno exercício dos direitos culturais. Portanto é compromisso do estado a valorização e difusão das manifestações no âmbito cultural. Não o modelo de cultura para todos, e sim cultura por todos, para encurtar a distância entre as diferenças sociais. O caminho é o respeito à diversidade para a construção de um diálogo intercultural para solucionar conflitos no espaço público. A Declaração dos Direitos Humanos da ONU (Organização das Nações Unidas) afirma: “toda pessoa tem o direito de integrar livremente a vida cultural da comunidade”.
 
As cidades têm passado, presente e futuro. Nelas falam o humano, o sensível, a fantasia, as ideias que representam as pessoas e grupos sociais. No Brasil, com que conceito de cultura nós estamos trabalhando? Que tipo de orientação temos do poder público? As tomadas de decisões em políticas culturais chegam à população? Os espaços existentes funcionam ativamente ao alcance da coletividade? Há projetos de geração de renda para a classe artística? São algumas perguntas de projeção nacional, já que políticas públicas pressupõem um conjunto de ações coletivas voltadas para as garantias dos direitos sociais. Para tanto, é essencial uma política cultural que revitalize o comportamento dos moradores e suas tradições. O papel do estado não pode ser substituído pelo setor privado, mas deve atuar em parceria com ele, protegendo as expressões da cultura popular, único campo onde ainda não somos colônia. É essencial defender o saber local com investimento no território, descentralizar os processos decisórios e a disposição aos bens e serviços culturais. Pensar em políticas públicas para a cultura hoje é elaborar metas num programa interdisciplinar, numa relação com a educação, meio ambiente, turismo, comunicação social, ciência e tecnologia, saúde, esporte, segurança pública, entre outros. Também sob o ponto de vista econômico a cultura pode ser compreendida como um sistema de cadeias produtivas e avança na economia do conhecimento: nos setores financeiros, biotecnologia e computadores.
 
Dar dimensão do olhar para a cultura é inserir sua colaboração na busca constante por uma sociedade mais solidária, uma cidade menos desigual e com mais qualidade de vida. É possibilitar voz e visibilidade para os excluídos periféricos. A cultura é um fermento para um novo amanhã no cenário urbano, alicerçado na cidadania e na arte-educação. É preciso observar a cultura na sua dinâmica social, centralidade nos processos políticos. Assim, perceberemos que ela faz os jovens mais homens e os homens mais jovens.

Professor do Instituto do Carnaval, Sady Bianchin é poeta, ator, diretor de teatro, jornalista e sociólogo. Doutor em teatro e sociedade pela Universidade de Roma - Itália, mestre em ciência da arte pela UFF e professor universitário. Foi secretário de Cultura de Marica. Este texto é versão ligeiramente modificada do artigo homônimo publicado no jornal “O Fluminense”.

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