sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

o observador e a coisa observada

O Observador e a coisa observada

"Meus altares são as montanhas, a terra, o ar, as estrelas, o oceano, tudo isso que provém do grande todo."
Lord Byron

Aos 11 de agosto de 1932, em Melila, nascia no continente africano (Marrocos espanhol) o dramaturgo, romancista, poeta, pinto, fotógrafo, conferencista, enxadrista e teórico do xadrez Fernando Arrabal.  O pai fora, em 1936, preso e condenado a morte pela recusa em tomar parte do golpe militar em seu país e, embora sua pena tenha sido trocada por trinta anos de prisão, depois de transferido para a Cidade Rodrigo, próximo a fronteira portuguesa, para Burgos e, mais adiante, nesta cidade, ao hospital psiquiátrico, em 1942, acabou por desaparecer misteriosamente. Pouco antes, em 1940, Fernando Arrabal vai com a família para Madri e, mais tarde, radica-se em Paris onde até hoje vive e trabalha.
A obra de Arrabal, traduzida na maioria das línguas, e o seu teatro, entre os mais encenados do mundo, conforme seus críticos, é qualificada como exemplar tanto pelo conteúdo quanto pela diversidade, considerando que a mesma se compõem de 6 compêndio de poemas,12 romances, 3 epístolas, mas de 70 peças de teatro, 7 filmes longa-metragens e 3 curtas, uma centena de livros de arte, uma centena de telas pintadas, muitos milhares de fotografias, um milhar de artigos para a imprensa internacional, muitas centenas de conferências nas universidades mais prestigiadas do mundo.

Não fosse o bastante, em 1962, juntamente com seus amigos  Roland Topor (desenhista), Sternberg (escritor) e Alexandro Jodorowsky (encenador apaixonado pelo "happening") fundou o Movimento Pânico que - etimologicamente  tem origem no deus grego Pan, a totalidade. Em seu reencontro com os surrealistas, Arrabal abandona um pouco suas parábolas "infantis" para explorar a veia do fantástico e do ritual.

Compreendendo que as estruturas do diálogo, da ação teatral e do universo têm a mesma forma, para Arrabal o teatro não se resume ao palco, mas ele é tudo isso que advém, onde a ação - por ser a imagem refletida do mundo - não deve ser uma demonstração de maneirismos cênicos. Quando afirma que a crença no ego teatral traz a infelicidade de todos, bem como nega a existência de um fenômeno solitário, Arrabal reitera a idéia de que "o observador e a coisa observada, o espectador e a peça representada, o objeto e o tema formam uma só entidade".

O teatro de Arrabal é chamado de absurdo, mas o absurdo do mundo deste dramaturgo espanhol não nasce do desespero do filósofo em busca de penetrar o segredo da existência. É dizer que esse estado de absurdidade se revela na mirada  dos personagens  que vêem a situação humana com os olhos da simplicidade ou da imediaticidade infantil que não  permite uma maior compreensão da realidade do objeto observado. Também como as crianças, seus personagens são por vezes cruéis, porque não compreenderam ou sequer tentaram compreender a existência de uma lei moral. E, assim como as crianças, eles sofrem a crueldade de um mundo como flagelos incompreensíveis.

Wilson Coêlho.
poeta.  dramaturgo. escritor. tradutor. palestrante. articulista e encenador graduado em filosofia e Mestre em Estudos Linguísticos pela Universidade Federal do Espírito Santo. Doutor em Literatura pela Universidade Federal Fluminense e Auditor Real do Collége de Pataphysique de Paris.


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